'Nunca vi algo assim': funerária de BH recebe 73 corpos em 72 horas, diz jornal

brasil
23.03.2020, 17:18:00
Atualizado: 23.03.2020, 21:57:33

'Nunca vi algo assim': funerária de BH recebe 73 corpos em 72 horas, diz jornal

Ao menos 23 morreram após problemas respiratórios comuns em pacientes com coronavírus

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Circula na internet um boletim de ocorrência da funenária Grupo Zelo, de Belo Horizonte, em Minas Gerais (MG), que teria recebido 73 cadáveres entre sexta-feira (20) e domingo (22), sendo que desses, 23 apresentavam sintomas de Covid-19. No entanto, segundo a Polícia Militar, pelo menos uma das informações relatadas no boletim de ocorrência não é verdadeira. 

Segundo o documento, o registro foi feito nesse domingo (22), pouco antes das 22h. Na denúncia anônima, foi relatada a chegada de dezenas de corpos a uma funerária do bairro nas 48 horas anteriores, e que a maioria seria de pessoas diagnosticadas com sintomas da doença. Além disso, os corpos estariam sendo analisados por estudantes de tanatologia. 

Os policiais foram até o endereço, sendo recebidos pelo gerente. Consta no boletim de ocorrência que ele relatou uma quantidade elevada de corpos no local, acima da rotina, e que a maioria das declarações de óbito listava problemas respiratórios, como "insuficiência respiratória aguda" e pneumonia. O homem teria também conferido os documentos, cujos números são citados na ocorrência.

Os corpos, segundo ele, teriam vindo de municípios da Grande BH, da Região Central e também da capital, um deles, segundo o homem, de um paciente que estava no Hospital da Polícia Militar. Os estudantes citados na denúncia teriam sido liberados. 

Na manhã desta segunda-feira (23), o major Flávio Santiago, porta voz da Polícia Militar de Minas Gerais, confirmou à imprensa que o boletim de ocorrência foi mesmo registrado por um policial, mas que ele não faz juízos de valor no texto. "Ele relata situações que são repassadas por um denunciante, e é claro e evidentemente que a Polícia Militar já tomou procedimentos, já encaminhou à polícia investigatória (Polícia Civil) para que isso seja melhor definido. Mas tem uma informação que já é extremamente importante: o caso relatado de uma pessoa falecida oriunda do Hospital Militar não é verídico", informou o militar ao jornal Estado de Minas.

"É importante que nós levemos essa informação a todos para não criar pânico desnecessário, inclusive com situações que estão em apuração", disse o major Santiago. "O mais importante é que essas informações estão sendo checadas, mas que já há o indício de informações inverídicas, como eu falei, e precisamos de muita cautela no repasse a essas informações", pontuou. 

A Polícia Civil informou que o governo de Minas deve se pronunciar sobre o caso. Segundo o último boletim da Secretaria de Estado de Saúde, divulgado no domingo (22), Minas Gerais não tem mortes pela COVID-19. 

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) informou que a situação está sendo avaliada e acompanhada pelos órgãos competentes. “Vale ressaltar que não há, até o momento, nenhum caso confirmado de óbito por COVID-19 no estado de Minas Gerais. Tão logo as informações sejam apuradas adequadamente daremos os devidos esclarecimentos”, finalizou.

Por meio de nota, nesta segunda-feira (23), a funerária Grupo Zelo informou ao Estado de Minas que "em relação ao Boletim de Ocorrência da Polícia Militar de Minas Gerais, de que o Grupo Zelo estaria recebendo um volume alto de óbitos em sua unidade Gameleira, podemos afirmar que todos os atendimentos estão dentro da normalidade." Entretanto, afirma que  o número de atendimentos teve um aumento nos últimos dias, "mas nada que possa ser considerado significativo, estando dentro da regularidade para essa época do ano."

A funerária ainda diz que não é responsável pela emissão de atestados de óbitos, portanto está impossibilitado de atestar a causa das mortes dos atendimentos realizados.  "Até o momento, o Grupo Zelo não recebeu comunicação de nenhum caso de covid-19 confirmado por parte dos hospitais", informou.

m conversa com o Correio Braziliense, o gerente do estabelecimento, Sérgio José da Silva, 56 anos, informou que o local nunca recebeu essa quantidade de corpos em tão pouco tempo. Ele diz ser um fato atípico em 30 anos de carreira.

"Sim, recebemos muitos corpos desde sexta. Dobrou (a quantidade) por conta das mortes por insuficiência respiratória", declarou o funcionário.

De acordo com informações do boletim, dos 23 corpos, apenas um tinha como causa da morte (extraoficialmente, já que o governo local ainda não confirma vítimas fatais) a Covid-19, causada pelo novo coronavírus. Não houve cerimônia fúnebre durante o enterro. Os demais passaram por procedimentos comuns e antes do sepultamento foram levados para despedida dos familiares. 

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