O ano dos bailinhos: Santo Antônio e Pelourinho movimentam Carnaval 

salvador
28.02.2022, 04:52:00
Foliões saudosos se divertem em bloquinho no Santo Antônio Além do Carmo (Marcela Villar/CORREIO)

O ano dos bailinhos: Santo Antônio e Pelourinho movimentam Carnaval 

Circuitos Dodô e Osmar ficam vazios e sem aglomerações 

Com o Carnaval de rua suspenso, na Bahia, pela pandemia da covid-19, os bailinhos carnavalescos foram resgatados com toda força, neste ano. Desde a época da folia nos clubes, não se viu tanto bailinho pipocando pela cidade. Eles deixaram os circuitos tradicionais completamente vazios, na tarde deste domingo (27).  

Não havia um folião nas ruas do circuito Dodô, na Barra e em Ondina, e no Osmar, no Campo Grande, para curtir ou contar história. À exceção do Pelourinho e do Santo Antônio Além do Carmo, que começou a receber fantasiados no final de tarde, parecia mais um domingo de verão, com pessoas curtindo a praia e barzinhos cheios.  

Movimento no Campo Grande era zero neste domingo (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

O Santo Antônio, outrora bucólico, teve mais de 10 festas privadas durante o período carnavalesco, a maioria do pátio da igreja, a Paróquia Santo Além do Carmo. No sábado (26), a programação começou com o Baile do Grupo Botequim e, no domingo (27), seguiu com o Bloco do Urso da Meia Noite.  

Por outros bairros da cidade, não faltaram opções, neste final de semana: teve o Baile do Sollar Baía, no Museu de Arte Moderna (MAM), com Luiz Caldas (sábado), Tuca e Batifun (domingo), em cenário de pôr do sol, o baile à fantasia do Ilê Aiyê, o Baile Clandestino, com Attooxxa, no Trapiche, além do Carnaval no Pátio e o Bem Bahia, com Negra Cor e Batifun, no Terminal Náutico. Ao todo, foram mais de 16 festas que movimentaram a capital baiana.  

Baile Barra Ondina 
Tiveram vários turistas pela cidade, de primeira viagem, que vieram curtir o Carnaval indoor. Foi o caso do casal de amigos Hellen Ariane, 26, recepcionista, e o analista de negócios, Igor Alexandre, 27. Eles são de São Paulo e vieram curtir o Baile Barra Ondina, no Clube Espanhol, que teve Pedro Sampaio e Rafa e Pipo Marques. 

Os paulistas Hellen e Igor Alexandre curtiram o Baile Barra Ondina, nesta domingo (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

“Sou muito de bloco e pipoca, da farofa mesmo. É a primeira vez que venha aqui, porque todo mundo fala muito que Salvador tem o melhor Carnaval do mundo”, conta Alexandre. Eles compraram o ingresso em cima da hora, motivados por Pedro Sampaio, e pretendem voltar para curtir o Carnaval depois da pandemia.  

Outro grupo de amigos, de Minas Gerais, veio de longe curtir a festa, com um bom pretexto: é aniversário, nesta segunda-feira (28), de uma das amigas, Gabriele Rodrigues, 20. “A gente sempre viaja para lugar de praia no Carnaval e é a primeira vez da gente aqui. Queria muito ver Pedro Sampaio, que tem muita música boa e sempre coloca bastante efeito no palco”, diz Gabriele.  

Grupo de amigos, de Minas Gerais, veio curtir Carnaval em Salvador pela primeira vez (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

O casal Marcela Guerra, 44, e Pablo Oliveira, 41, saiu de casa com fantasia no rosto e o filho no banco de trás do carro para comprar alguma festa e matar a saudade do Carnaval. Eles tentaram comprar o Baile Barra Ondina, no domingo. “Sentimos muita falta do Carnaval e da movimentação dos trios. Sempre vamos no Carnaval de Salvador, desde 2016”, diz Marcela, que é do Rio de Janeuro e mora em Salvador há sete anos.   

Casal Marcela Guerra e o médico Pablo Oliveira vieram com o filho para o Baile Barra Ondina (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

Circuito Osmar 
Na praça Campo Grande, confetes ao chão eram o único vestígio de que ali acontece a maior festa de rua do planeta. Pela Avenida Sete de Setembro, todas as lojas estavam fechadas e, no corredor da Vitória, somente pedestres circulando. Em 2020, ali já era de estar circulando o trio de O Poeta, A Dama e Attoxxa.  

Há, contudo, quem tenha comemorado essa tranquilidade. “Dou Graças a Deus que não teve, de novo, esse ano, porque consegui ficar em casa. Quando tem a festa, não tem condição de ficar, os vidros ficam trepidando, você fica sem comunicação o dia inteiro. Procuro sempre ir para interior”, desabafa a administradora Samira Carmel, que mora ao lado do Teatro Castro Alves (TCA).  

Restos de confete na Praça Campo Grande (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

Ela chegou a curtir, quando jovem, blocos no circuito Barra Ondina, sempre no crocodilo, de Daniela Mercury. “Pulei Carnaval mais de 30 anos seguidos, mas, hoje, não tem mais aquela alegria, aquela essência. A beleza acabou. Não tem mais segurança como antes. Você sai no Carnaval sem saber o que vai acontecer”, justifica Samira.  

Circuito Dodô
A técnica de nutrição Jamile Costa, 27, curtia o sol no Farol, à espera do filho chegar com a madrinha. Eles iriam no bailinho infantil do Shopping Barra, mais tarde. Se não houvesse pandemia, o garoto vestido de homem aranha teria ficado em casa, enquanto a mãe pulava na avenida. “Sou daquelas que prefere camarote, porque não gosto muito de muvuca”, confessa Jamile.  

Filho da técnica de nutrição Jamile Costa curtiu bailinho infantil no Shopping Barra (Foto: Acervo Pessoal)

Já a atendente de Recursos Humanos, Rosângela Cristina, 31, e aposentada Márcia Regina, 53 curtiram a praia, até o início da tarde e logo foram para o ensaio do Ilê Aiyê. Márcia é foliã de longas datas, da época de Pepeu Gomes e Baby Consuelo, seus artistas preferidos. “É horrível a gente não ter Carnaval, mas, temos que aceitar, porque a saúde e a vida das pessoas devem vir em primeiro lugar”, reflete Márcia.  

Bares lotam na Barra, na rua do Farol (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

O professor de geografia Fábio Adrian, 29, curtia uma festa privada, com feijoada, exclusiva para pessoas que frequentam academias de Salvador, no bar Camarote, na rua Almirante Marques Leão, atrás da avenida principal do circuito. Havia duas bandas ao vivo pela tarde, que iniciaram o som depois de um aulão de fitdance no mesmo local.  

“A gente veio para um aulão a fantasia. É uma maneira de a gente relembrar a festa, porque curto muito, todos os dias, sou pipoqueiro raiz. Pulo todos os dias, desde o fuzuê e furdunço. Então fico triste e dá até gatilho ouvir essas músicas”, confessa Adrian, fã de Saulo e Baiana System. “Faço a programação baseada neles”, completa. 

O professor de geografia Fábio Adrian curtiu a festa de Carnaval no Camarote, bar da Barra (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

Santo Antônio 
O Santo Antônio era o bairro mais vivo de folia, com saudosos fantasiados por toda parte. Teve até quem veio com sua própria corda, fazendo seu próprio bloquinho. “Desde que o De Hoje À Oito nasceu, eu vinha. Estou com muita saudade do Carnaval, moro ali em Ondina, no circuito. E já é tradição, mas, infelizmente, não tinha condições de ter a festa esse ano”, afirma uma foliã que não quis se identificar. Ela seguiria pela tarde para o Baile do Urso, no pátio da Igreja.  

Saudosos do Carnaval vão ao Santo Antônio com corda de bloquinho (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

Um grupo de amigas fez questão de bolar a própria fantasia. “É uma forma de ter um gostinho do Carnaval. Moramos perto daqui e temos feito ‘rolês’ tranquilos durante o dia, mas, hoje, viemos para cá curtir a festa no pátio da Igreja. Se tivesse o circuito, a gente estaria no Praieiro ou Tomate”, conta Monalisa Costa, 26.  

Outras meninas trouxeram amigos de São Paulo para fazer a iniciação no Santo Antônio. “Compramos a passagem em novembro, quando ainda não tinha ômicron, então, a gente achava que teria Carnaval esse ano e que o melhor, em Salvador, é o pré”, conta o gerente de projetos Rafael Silva, 30, que veio da capital paulista curtir os bailinhos de Salvador.  

Bárbara e Rafael, de São Paulo, curtiam Carnaval no Santo Antônio com a amiga soteropolitana, Luiza (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

As amigas arquitetas Sanane Sampaio, 40, e Marcela Matos, amigas de faculdade, pegaram os restos de adereços que tinham no armário, como máscaras e colares de outras folias, para curtir o agito no Largo e a festa no pátio da Igreja. Os artistas preferidos das duas são Luiz Caldas, Margareth Menezes e o eterno Moraes Moreira. É a primeira vez que Sanene vai à uma festa desde o início da pandemia. “Não me sentia confortável, porque não tinha tomado a terceira dose da vacina e, se fosse outro domingo, não sairia, mas, é Carnaval”, argumenta.  

Em todos os circuitos, nem todas as pessoas usavam máscaras - a maioria estava sem. O comprovante de vacinação era exigido na entrada de todas as festas privadas. Havia presença da Guarda Civil Municipal, Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) e Transalvador na Barra, e da Polícia Militar da Bahia (PM-BA) em Ondina e Santo Antônio Além do Carmo.  

Guarda Civil Municipal fiscaliza principal trecho do circuito da Barra, na tarde deste domingo (Foto: Marcela Villar/CORREIO)

Bailinho não é o verdadeiro Carnaval 
O professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC) e do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Pós-Cultura), Paulo Miguez, que pesquisa sobre o Carnaval, explica que os bailinhos são inspirados nas festas que existiam do tipo na França, no século XIX. “Esses carnavais se espalharam pelo mundo, com bailes, carros alegóricos. Aqui na Bahia, os primeiros bailes que se tiveram foram no teatro São João e Politeama. Os bailes sempre foram um elemento forte na trama carnavalesca”, enfatiza Miguez.  

Os bailinhos, no entanto, não são e não representam o Carnaval de Salvador, segundo ele. “Esse ano, com a impossibilidade real e absurda de se fazer a festa, o bailinho acabou sendo uma forma de brincar, privilegiada, porque, no Carnaval, é importante que todos participem. Carnaval é na rua, na cidade, não é entre quatro paredes. No bailinho, somos todos iguais. Já o Carnaval tem que ser uma festa das diferenças, de todos”, argumenta o professor.   

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