O cardeal no picadeiro: missa de Dia das Mães de 1983 foi rezada no Circo Troca de Segredos

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08.05.2022, 11:01:00
(Foto: Antenor Pereira/Arquivo CORREIO)

O cardeal no picadeiro: missa de Dia das Mães de 1983 foi rezada no Circo Troca de Segredos

Convite de jovens para celebração em Ondina surpreendeu Dom Avelar. Saiba bastidores

No lugar do altar, o picadeiro. Ao invés da algazarra e das gargalhadas, serenidade e concentração na Palavra da Salvação. A Missa de Dia das Mães em 8 de maio de 1983, no lendário Circo Troca de Segredos, em Ondina, causou estranhamento em muitos fiéis, e até no responsável pela celebração, o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil na época, Dom Avelar Brandão Vilela.

A visita eclesiástica à tenda, na orla, foi um ponto tão fora da curva que ficou difícil convencer potenciais apoiadores de que aquilo de fato ocorreria, como lembra uma das criadoras e gestoras do Troca de Segredos, a professora de Dança e servidora pública Tereza Oliveira. 

Mas antes dela recontar (e até atualizar) essa história inusitada, é preciso lembrar como a situação foi noticiada pelo Correio da Bahia, no dia 9 de maio. O foco da reportagem, intitulada ‘Cardeal reza missa no Circo’, foi justamente a tentativa de Dom Avelar de explicar aos fiéis o motivo de estar ali.

Reprodução da edição de 9 de maio de 1983 (Foto: Arquivo CORREIO)

“Quero me congratular com a comissão que me procurou e compõe esse movimento cujo trabalho ativo culminou na criação desse chamado Circo Troca de Segredos. Jovens que me convidaram para celebrar uma missa para as mães, isso no meu parecer é muito importante. Confesso que tomei um pequeno susto no primeiro momento quando me disseram o local, perguntei para que servia, e eles me explicaram que era um espaço cultural para a descoberta dos valores novos sobre tudo o que diz respeito à arte”, disse Dom Avelar conforme texto transcrito na reportagem. 

O estranhamento, claro, não era apenas pela missa estar num espaço normalmente dominado por acrobatas e palhaços. Na verdade, nem era esse o caso. A questão era que o Troca de Segredos, gerido pelos jovens e idealistas Tereza Oliveira, Paulo Conde, Caco Monteiro e João Elias, citados pelo cardeal, ficou famoso por apresentações que nada pareciam ter a ver com o universo religioso.

Basta citar shows de bandas de rock e punk como Camisa de Vênus, Gonorréia e Skarro, ou apresentações de grandes artistas baianos, como Margareth Menezes (parceira do projeto), Luiz Caldas e Caetano Veloso (que fez o show inaugural), ou de fora, como Elza Soares, João Bosco, Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho, entre muitos outros.

Mas, em 83, esse legado ainda estava se construindo, e foi mais tranquilo ao cardeal justificar a ‘visitação’. “Uma tenda armada perto do mar muito bonita para os olhos, para revelar jovens que nem sempre têm oportunidade. Acho altamente positivo, pois há um imenso número de vocações nos corações da juventude. E é por tudo isso que estou aqui e também para homenagear as mães. Ser mãe é muito mais do que se pode pensar, e vamos fazer desse dia um compromisso para que o lar seja uma escola e um ambiente de Deus”, conclamou o líder religioso.

Provem que é verdade
A ideia de levar o arcebispo ao circo foi de Paulo Conde, e foi rapidamente comprada pelos demais. “No grupo, quando um tinha uma ideia, precisava que os outros embarcassem, e assim foi”, explica Tereza, segundo a qual foi a família de Caco Monteiro, “muito religiosa”, quem incentivou a ida ao cardeal.

“Eu me lembro que fomos todos na casa dos bispos, na Praça da Sé. O cardeal, logicamente, vendo quatro jovens cabeludos, fazendo teatro, o nosso olho brilhava bastante... Ele não se opôs de maneira nenhuma. Achou uma ideia genial e topou na hora”, comenta a professora.

Mas se não houve burocracia com o cardeal, com quem poderia apoiar - e que normalmente não colocava empecilho -, a história foi diferente. “A gente queria, aliado a essa missa, distribuir mil rosas para cada mãe. E aí fomos pedir a um apoiador imediato, que a gente podia chegar sem burocracia, que era a empresa de leites Alimba. Quando a gente chegou até ele, o apoiador, ele não acreditou. ‘Cês são loucos! Claro que o cardeal não vai rezar uma missa no circo. Que loucura é essa?’”, recorda a ex-gestora do espaço, que deu com a cara na porta. Mas ninguém esmoreceu.

“Voltamos lá na casa dos bispos, e solicitamos que o cardeal desse uma prova de que ele realmente iria. Aí ele pegou um cartão da Arquidiocese e escreveu confirmando”. O bilhete, que Tereza guarda até hoje, diz: “Declaro que irei celebrar a Santa Missa, no dia das mães, no 'Circo Troca - Segredos', às 10 horas do dia 8 de maio. + Avelar, Card. Brandão Vilela. Salvador, 03.05.83”. O patrocinador, então, não teve como dizer não.

Foto: Acervo de Tereza Oliveira

A reportagem cita a distribuição dos mimos: “Na estrada do Gran Circo os componentes do grupo distribuíam rosas aos presentes que durante o ofertório foram bentas pelo Cardeal. Entre os presentes uma baiana tipicamente trajada, mostrando que nessas horas não existe diferença de religião. O importante é a fé e união, como frisou Dom Avelar Brandão. A missa foi dirigida a todas as mães independente de crença, cor e classe social e à família”.

Força-tarefa
Com atividades quase diárias, e uma agenda tão diversificada como intensa, o Troca de Segredos tinha recebido um evento que varou a madrugada anterior à missa, e por pouco as coisas não saíram como planejado. “Teve a Sabatina Dançante, com o saudoso maestro Vivaldo da Conceição, até as 5 da manhã. E até as 6 as pessoas ainda estavam ali, sempre ficava um pouco. Às 8h começava a missa. A gente olhou para o circo, que tava com a cara do dia anterior, e dissemos ‘meu Deus, será que vai dar tempo de arrumar?’” Talvez não desse, se Deus não respondesse enviando ajuda.

“A gente começou a limpar, arrumar, lavar, e aí todas as pessoas que estavam ali ainda, da programação anterior, começaram a ajudar. E aí foi uma força-tarefa muito natural. ‘Vamos limpar com vocês’, e foi lindo todo mundo arrumando. Às 7h o circo estava cheiroso, limpo, com o altar montado”, recorda Tereza.

A celebração
Jovem de família católica, Caco Monteiro foi escolhido para ler toda a liturgia. A plateia não chegou a ficar lotada, mas houve bom número de fiéis. “É um assunto tão inusitado, que a gente esperava que o circo fosse lotar. Mas era tão estranho, que parecia realmente irreal. Então, tivemos uma lotação média das pessoas que acompanham o cardeal e o circo, e das pessoas que estavam nas redondezas. Era um domingo, as pessoas indo à praia, e algumas pessoas entraram para assistir”, cita a professora.

O alagoano Dom Avelar Brandão Vilela foi um dos mais queridos arcebispos, ao ponto de ter virado nome de bairro em Salvador. Essa popularidade também pôde ser comprovada em seu funeral, em dezembro de 1986, que levou uma multidão às ruas da cidade, finalizando um período de 15 anos dedicados à evangelização dos baianos. 

Quanto ao quarteto na linha de frente do Circo Troca de Segredos, cada um tomou um rumo diferente. Além de professora de Dança, Tereza Oliveira é mestra em Educação e trabalha na Fundação Cultural. Já Caco Monteiro é ator atuante, e acaba de fazer turnê na Europa com uma peça. Também ator, Paulo Conde vive hoje no Rio, assim como João Elias, que é, há muitos anos, diretor executivo da famosa Companhia de Dança Deborah Colker.

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