‘Ó o Capelinha de novo aí, ó!' Picolé que é parte da cultura baiana está de volta

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15.01.2022, 16:00:00
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

‘Ó o Capelinha de novo aí, ó!' Picolé que é parte da cultura baiana está de volta

Saiba como o CORREIO contribuiu para o retorno da marca, que tem novo dono e nova 'roupagem'

O verão da Bahia voltou a ter aquela gritaria afetiva nas praias de Salvador: “Olhe o Capeliiiiiiinha, sabor da fruta!”. A marca que dá mais atestado de qualidade que qualquer fiscalização do Inmetro retornou ao mercado no final do ano passado e, sem querer nos gabar disso, o CORREIO teve um papel fundamental para você se deliciar com um saboroso picolé de amendoim, mangaba ou tapioca. Não é do nosso feitio, mas tudo começou, ou melhor, recomeçou graças a uma matéria publicada aqui mesmo, no dia 23 de janeiro do ano passado, assinado pelo jornalista Alexandre Lyrio: “Que fim levou a capelinha”, estampava a manchete. Bom, melhor deixar que o novo proprietário explique o que aconteceu depois disso.

“Nunca tive pretensão de adquirir a marca da Capelinha. Este sonho começou há um ano, quando estava em casa lendo o CORREIO. Estava lá a matéria sobre o fechamento e o futuro incerto da marca de picolé que estava presente na minha infância. Na hora me veio uma memória afetiva e lembrei de meu pai, na praia, me falando: ‘só compre se for Capelinha’. Li a matéria no sábado e na segunda já estava procurando o contato de Seu Antônio, fundador do picolé”, lembra o empresário soteropolitano Fábio Costa, de 39 anos, que juntou todas as suas economias para adquirir toda a tradição de uma marca.

Na época, a matéria dava cabo do fechamento da única fábrica do picolé, em Capelinha de São Caetano. Segundo Rosilene de Andrade Santos de Almeida, filha do dono e fundador da Capelinha, Antônio Mota dos Santos, hoje com 84 anos, a marca havia resolvido dar um tempo para tentar se reestruturar e por isso havia fechado, deixando Salvador órfão. Contudo, não descartava a venda da marca, até então pertencente ao próprio Antônio desde 1972, ano da fundação.  Foi então que Fábio correu contra o tempo para conseguir o que passou a ser seu sonho depois da matéria.

Fábio Costa assegura que não comprou uma marca. Adquiriu um patrimônio da cultura baiana (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

“Li os relatos de Rose, alegando que algumas pessoas estavam interessadas na compra. Corri para obter o contato dela e iniciei nossas conversas. Estava disposto a investir todas as economias da minha vida para fechar o negócio. Sabia que não estava apenas tentando comprar uma marca, mas um patrimônio para todos os baianos”, lembra Fábio. Após muitas conversas, o fundador da marca, Seu Antônio, chamou Fábio para tomar um café em sua casa. “Foi uma tarde muito agradável e de muita conversa. Nunca vou esquecer dele me dizendo que não queria ganhar dinheiro com a venda da marca. A preocupação era encontrar a pessoa certa para dar continuidade a tradição que ele construiu e pertencia aos baianos”, disse.

Logo após o café, quando estava chegando em casa sem saber se teria o negócio fechado, Fábio recebeu um telefonema do mediador das negociações, avisando que ele era o escolhido. A conversa ainda se estendeu durante o ano, tratando detalhes como valores e outros quesitos não informados por motivos contratuais. O momento crucial foi quando Seu Antônio entregou um velho livro nas mãos de Fábio.  Eram as receitas secretas de todos os sabores dos picolés. Só então que caiu a ficha. 

“A culpa foi de vocês, CORREIO. Fui com a força e a coragem, carreira solo, nesta empreitada de comprar uma marca cultural. O desafio seguinte seria modernizar o Capelinha, mas mantendo sua estrutura e tradição”, lembra.

Boatos sobre outros sócios, como o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, chegou a circular pela capital, mas foi desmentido pelo próprio Fábio, formado em administração de empresas, que largou um emprego  numa multinacional para seguir este novo objetivo. 

Mesmo com uma marca repaginada, o picolé se manteve como há  50 anos: quadradão, como um Uno Mile. “Tivemos que encomendar as formas, pois não se vende mais com o formato quadrado de picolé. Só existem aqueles redondos. Fizemos questão de mandar fazer especialmente para mantermos a tradição de que nenhum baiano abre mão. Também mantivemos a mesma equipe que trabalhava com Antônio, que foi nosso consultor durante um bom tempo. E não adianta. Não teremos picolés gourmets. Vai ser o mesmo sabor de 50 anos atrás. O Capelinha é raiz”, completa Fábio. 

Com a reabertura, o Capelinha empregou 35 funcionários diretos, sem contar os revendedores que retomaram suas vendas com a marca que sempre foi sinônimo de picolé “sabor da fruta”. Outra medida também envolve um lado social importante. As frutas utilizadas para a fabricação são de fornecedores de agricultura familiar e produtores  do estado. Os morangos, por exemplo, são de uma cooperativa orgânica de agricultores da Chapada Diamantina. 

Sabores
Atualmente, o Capelinha retomou com 13 sabores, entre eles os carros chefes amendoim, tapioca e coco. Jaca ainda não retornou, tampouco milho verde. Outra novidade é ser possível encontrar o picolé nos isopores normais de revendedores, mas também em carrinhos personalizados, que lembram os da Kibon, mas azul. Garçom e vendedor de picolé durante o verão, Alexandre Alves comemora o retorno da marca que faz parte da história de sua família. “Meu pai vendia Capelinha nos anos 90 e ganhava 10 centavos por picolé vendido. Mas vendia tanto que, na época, ele faturava bem. O problema era que, quando acabava o picolé, precisava voltar até São Caetano para pegar mais. Hoje não precisa, pois temos pontos de venda em tudo que é canto”, diz Alexandre, que vende Capelinha no Porto e Farol da Barra. Ele pega o carrinho personalizado e os picolés num ponto de venda no próprio bairro.

“Tá muito bom isso. Acabou, venho e pego mais. A marca vende por si só. Esta semana um guri não queria meu Capelinha, queria o Kibon. A mãe deu o que ele queria e pediu um Capelinha pra mim. O guri provou e acabou comprando mais dois comigo. Todo mundo está comemorando este retorno”, conta Alexandre, que complementa sua renda e mais duas pensões com o picolé.

“Com o fechamento, vendi outra marca, era difícil, confesso que às vezes mentia dizendo que era Capelinha. Hoje, com estes carrinhos personalizados, nem preciso gritar. Grito só para manter a tradição. Olha o capeliiiiinha!”, completa.

Capelinha retornou com carrinhos personalizados (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Até os turistas estão comemorando o retorno, mesmo não sabendo a história do Capelinha. “Sou de Formosa do Rio Preto e estou conhecendo a Bahia. Experimentei um picolé deste na praia e agora tenho que vir todo dia aqui comprar para deixar no hotel. Nunca ouvi falar do Capelinha, mas é muito bom. To chupando todo dia. Tinha fechado, foi? Ainda bem que abriu a tempo para mim, né?”, brinca a turista Ive Andrade, que estava a caminho da praia, mas resolveu parar no posto de venda da Barra. Ela comprou dois para ir saboreando até chegar no Porto. 

Já Seu Joseã Maia, de 61 anos,  aproveita o ponto de venda de Itapuã para abastecer o isopor. Antes ele precisava madrugar em São Caetano para comprar de manhã e seguir até a praia. “É o melhor picolé de Salvador e foi muito bom retornar a vender o picolé. Rodo Stella, Praia do Flamengo, estas praias todas”, conta. Joseã agora só aguarda o retorno do picolé de jaca, que ele assegura vender feito água. “É gradativo, os sabores estão reaparecendo com o tempo. Temos menos de um mês de reabertura, mas vai rolar”, explica o proprietário Fábio. Atualmente os sabores disponíveis são açaí, amendoim, cajá, chocolate, coco, cupuaçu, doce de leite, goiaba, mangaba, maracujá, morango, tapioca e umbú. Um spoiler: cada palito vem com frases tipicamente baianas, como “aooonde, pai”. São 10 tipos diferentes. 

Para o consumidor final, a nova fábrica sugere R$ 3, justamente o valor que é vendido, por unidade, nos postos de venda na Barra, Pituba, Itapuã, São Caetano e agora na Praia do Forte. Contudo, o revendedor avulso, sem a parceria do carrinho personalizado, tem a liberdade de vender pelo valor que achar justo. Para quem quiser revender, comprar 10 picolés vai custar R$ 2,50, cada. Mais de 20 unidades, R$ 2,30. Acima de 100 Capelinhas, cada um sai por R$ 2, podendo chegar a R$ 1,80.  Nas praias, o valor pedido é R$ 4.

Caso o revendedor queira ser parceiro da Capelinha, incluindo a utilização dos carrinhos personalizados, não é preciso comprar o picolé, tampouco alugar o equipamento. A cada 60 picolés vendidos, fatura R$ 1 real por unidade.  Também receberá uma maquininha para vender no crédito, débito e pix. “Na praia vendo a R$ 4. Em plena quarta-feira, estou vendendo mais de 130 picolés sem fazer esforço. Nos finais de semana, perco a conta de quantas vezes venho reabastecer”, lembra Alexandre Alves. Para o consumidor, além dos picoleteiros e pontos de venda da Capelinha, é possível também pedir pelo Ifood e WhatsApp (99711-9099). 

Tentamos contato com os antigos donos, incluindo o fundador, Seu Antônio, hoje com 84 anos, além de sua filha, Rosilene, mas ninguém retornou nossos telefonemas e mensagens. Lyrio, autor da matéria que ajudou no ressurgimento do picolé, tem uma explicação. “O curioso é que a filha do antigo dono parece que não gostou da matéria. Ela me ligou reclamando, não soube explicar direito o que ela não gostou, mas o fato é que ela reclamou”, lembra Lyrio, que comemora. “Capelinha é um monumento em forma de picolé. Fico muito satisfeito de ter contribuído para que esta marca tão forte da Bahia possa retomar seu espaço e ganhar força. O bom é que temos espaço para outras marcas de qualidade também, como a sorveteria Real”, completa Lyrio. 

História da Capelinha em 10 atos

1 - Há 50 anos, desde 1972, Antônio Mota dos Santos, hoje com 84 anos, deu início ao que seria uma revolução no mercado de 
picolés de Salvador. 

2- Logo que abriu,  a fábrica não tinha nada a ver com o bairro de Capelinha de São Caetano, que lhe rendeu o nome mais tarde. Os picolés eram produzidos em uma mercearia no Alto do Peru e conhecidos como picolés Santo Antônio. No início, eram apenas quatro sabores: côco, amendoim,  milho verde e jaca.

3 - Os picolés começaram a ganhar notoriedade. Os responsáveis pela fama foram os picolés de milho verde e jaca, que eram incomuns na época, uma invenção de Seu Antônio. As pessoas perguntavam de onde eram esses picolés diferentes. Os vendedores respondiam que a fábrica era na Capelinha de São Caetano. Foi aí que o nome pegou. O povo chamava de “picolé da Capelinha” 
e o dono mudou a marca. 

4 - Muitos tentaram copiar a Capelinha, principalmente no formato. Os picolés quadrados e o palito como o nome registrado eram suas principais marcas. Mas durante muito tempo ninguém conseguia superar seu sabor. 

5 - Até porque a maioria dos concorrentes  era feito de água e essência, os chamados bomba d’água. Já os picolés Capelinha eram feitos da poupa da fruta ou da pasta de ingredientes como amendoim e doce de leite. 

6 - Houve períodos  que os clientes reclamaram da queda de qualidade do picolé da Capelinha. Chegaram a espalhar a lenda de que a água utilizada para fazer o picolé vinha do Dique do Tororó. A fábrica diz que nunca mudou a fórmula e a água é filtrada. 

7 - Em 2012, por exigência da Anvisa, os Picolés Capelinha (e os outros) foram obrigados a usar uma embalagem externa para proteger o produto.   

8 - Nos últimos anos, a concorrência veio pesada. Outros picolés de qualidade chegaram no mercado. Hoje, a liderança é da Sorvetes 
Real, que chega a produzir mais de 30 mil picolés por dia. 

9 - O Capelinha já superou inúmeras crises, mas agora, com a pandemia, resolveu parar a produção temporariamente. 

10 - A filha de seu Antônio garante que o objetivo da empresa é se modernizar para voltar mais forte, mas existe a possibilidade de a marca ser vendida. Salvador e o próximo verão esperam ansiosamente.

Reveja a reportagem de Alexandre Lyrio clicando aqui.

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