O oxímetro deve ser usado em casa para diagnóstico da covid-19? Preço chega a R$ 400

tecnologia
17.05.2020, 13:25:00
Atualizado: 22.05.2020, 11:52:11
Oxímetro mede a saturação de oxigênio no sangue (Kaio Machado/Pref. Fortaleza/Divulgação)

O oxímetro deve ser usado em casa para diagnóstico da covid-19? Preço chega a R$ 400

Aparelho para monitoramento da saturação de oxigênio no sangue já falta em alguns sites

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O estado de vigilância e de medo por conta da pandemia de coronavírus faz com que muitas pessoas se prendam a esperanças ou receios com facilidade. No início, foi a corrida pelo estoque de papel higiênico (?) e álcool em gel. Depois, por máscaras cirúrgicas e do modelo N95. Posteriormente, após alguns estudos iniciais que mostravam que o medicamento cloroquina poderia auxiliar no tratamento, os remédios começaram a sumir das farmácias e foi preciso que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mudasse o enquadramento do medicamento para que necessitasse de retenção de receita médica para ser adquirido.

A bola da vez é o oxímetro. O aparelho, que cabe na palma da mão, é usado nas unidades médicas para medir a oxigenação do sangue dos pacientes. Em um artigo no The New York Times, um dos maiores jornais do mundo, o médico Richard Levitan contou sua experiência tratando pacientes com covid-19 num hospital de Nova Iorque. 


Em dado momento do texto, ele escreve que a doença poderia ser tratada com melhor eficácia se a pneumonia fosse detectada precocemente por meio medição da oxigenação do sangue com um oxímetro, comprado facilmente em farmácias. Um dos sintomas mais fortes causados pelo coronavírus é a falta de ar e o aparelho detectaria a diminuição da oxigenação antes mesmo da pessoa sentir o sintoma aparecer. 

A partir daí, com o compartilhamento do artigo, houve uma corrida ao mercado. O Google, maior buscador do mundo, detectou um aumento na procura pelo termo ‘oxímetro’ em diversas regiões do país, sobretudo em algumas em que a pandemia encontra-se em estágio avançado como Pará, Amazonas e Rio de Janeiro.

Supervisão
Em Salvador, o jornalista Lucas Sales, 26 anos, comprou um modelo da Contec para ser usado pelos pais. A mãe dele tem 60 anos, o pai, 62. “Comprei 20 dias atrás e custou R$ 70. Hoje, está R$ 400”, conta. Em alguns sites mais populares de compra, pesquisados pelo CORREIO, diversos modelos estão em falta.

Mas o jornalista não comprou no escuro. “Meus pais são idosos e fazem parte do grupo de risco para o novo coronavírus. Com o auxílio de minha namorada, que é enfermeira, conseguimos ter em mãos mais um parâmetro que pode indicar algum tipo de risco que meus pais estejam correndo”, analisa. 

Pesquisa no site Submarino mostra modelos de oxímetro em falta (Foto: Reprodução)

Para ele, o oxímetro se junta ao termômetro e outros aparelhos que podem ajudar a detectar o vírus, mas ressalva que sabe que o diagnóstico não é definitivo. “Sozinho, ele não atestará nem descartará nada, mas ajuda a verificar, por exemplo, uma possível pneumonia silenciosa, sobretudo em minha mãe que é asmática e já possui a capacidade respiratória um pouco reduzida”, diz, enfatizando que só usa por ter uma profissional de saúde por perto.

De fato, o próprio Levitan escreveu que o recomendado é que o oxímetro seja usado por pacientes que testaram positivo para o coronavírus, com febre, tosse e fadiga e quem fez teste rápido negativo, já que esses só possuem eficiência de 70%. No entanto, como se pôde ver, muita gente quis sair na frente da doença.

Em Itabuna, uma das cidades mais afetadas pelo coronavírus na Bahia, o advogado bruno Bagdede, 33, também comprou um oxímetro para os pais, de 68 e 63 anos, também com a supervisão de uma enfermeira, no caso dele, a irmã. 



“A ideia é juntamente com o termômetro a laser a gente possa monitorar a todos lá na minha casa. Além do oxímetro e do termômetro, nós compramos máscaras, luvas, álcool em gel. A exceção do oxímetro, que só consegui comprar na semana passada, todos os outros itens foram adquiridos no início de março”, conta Bagdede.

Ele adquiriu o aparelho, da marca Medclini, por R$ 140. “Consegui com um amigo que tem uma distribuidora de insumos hospitalares”, revela o advogado, que ressaltou os problemas vividos na cidade. “Itabuna é um centro de disseminação do vírus no Estado”.

Como funciona
O oxímetro, semelhante a um pregador, é bem preciso e usa um feixe de luz para ‘atravessar’ o dedo e medir a oxigenação no sangue. Apenas um exame de sangue consegue resultados melhores. Quando a oxigenação está superior a 96%, o resultado é considerado normal. Igual ou inferior a 92% já é considerado um alerta para a queda de oxigenação. De 89% pra baixo já é um estado considerado grave. 

Além dos oxímetros normais, as pessoas também passaram a usar mais aplicativos como o Samsung Health, para Android, e Heart Pulse, para iOS, que prometem medir a saturação do sangue via celular. Apenas os aparelhos mais modernos, top de linha, contam com o sensor apropriado, localizado próximos aos sensores da câmera fotográfica nos aparelhos da Samsung, por exemplo.  

Sensor do Samsung Galaxy S9 fica próximo às lentes das câmeras traseiras (Foto: Divulgação)


No entanto, estudo mostram que os celulares não são confiáveis. O oxímetro usa dois tipos de ondas para medição do nível de oxigênio: vermelha e infravermelha. Os celulares utilizam a luz do flash para medição, bem menos precisa. Há celulares com luz vermelha, mas ainda assim não há a mesma precisão do oxímetro.

Lionel Tassarenko e Trisha Greenhalgh, professores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, são claros no veredito final da pesquisa que fizeram: “Não existe evidência que qualquer tecnologia de smartphone é precisa para medição de saturação de oxigênio no sangue em termos clínicos. Além do mais, a base científica dessas tecnologias é questionável. Os níveis de saturação de oxigênio obtidos por tais tecnologias não são confiáveis”.
 

Cautela
Na esteira das vendas, e da polêmica, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisologia (SBPT) publicou nota, em 28 de abril, alertando para o uso do aparelho. “A SBPT não recomenda o uso irrestrito de oxímetro domiciliar para monitorização da saturação de oxigênio durante a pandemia de COVID-19. Como não há estudos científicos sobre a referida monitorização em pacientes com suspeita ou diagnóstico confirmado de COVID-19, sugerimos que a decisão sobre usar ou não usar monitoração por oximetria domiciliar fique a cargo do médico que assiste o doente”.


Presidente da seccional Bahia da SPBT, a pneumologista Rosana Franco reitera. “O uso indevido do oxímetro por pessoas sem orientação médica pode causar ansiedade e estresse desnecessários por não saberem interpretar os achados. Não existe indicação do uso de oxímetro domiciliar em indivíduos sem doenças pulmonares crônicas ou como método de diagnóstico precoce da covid-19”, diz.

A médica alerta que o aparelho deve ser adquirido em casos específicos. “O oxímetro deve ser comprado sob indicação médica apenas para controle de tratamento de pacientes com doença pulmonar crônica grave que necessite do uso de oxigênio”, explica ela, que pede cautela no uso das funções de monitoramento em celulares. “Eles podem ter margem de erro na leitura. Recomenda-se, antes de seu uso, comparar os achados deste equipamento com oxímetros de marca reconhecida para ter certeza se são confiáveis”, aconselha. 
 

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