'O primeiro grande milagre de Dulce foi o crescimento da Osid', diz Ângelo Calmon de Sá

salvador
19.05.2019, 07:08:00
(Foto: Divulgação/Osid)

'O primeiro grande milagre de Dulce foi o crescimento da Osid', diz Ângelo Calmon de Sá

Empresário foi um dos grandes apoiadores de Irmã Dulce

Doze anos antes de sua morte, Irmã Dulce recrutou o empresário Ângelo Calmon de Sá. Queria que ele fosse o presidente do Conselho das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid). "Além de santa, ela era uma grande administradora", diz ele, em entrevista ao CORREIO. 

À reportagem, Calmon de Sá falou sobre alguns dos principais momentos que viveu ao lado da religiosa. 

Leia o relato dele na íntegra

***

"Convivi 12 anos com ela. 

Irmã Dulce me convidou para assumir a presidência do Conselho das Obras e, para mim, a obra só consegue sobreviver em função das doações. E Irmã Dulce sempre foi uma pessoa muito querida, mas quando foi beatificada, as ações mais do que dobraram. Ela virar uma santa é importante. 

(As Osid) É o maior hospital na Bahia e Irmã Dulce, além, de santa, era uma grande administradora. Eu me lembro que, quando Zezito Magalhães (José Maria de Magalhães Netto) era secretário da Saúde e era do conselho, eu agradecia a ele pelos convênios que ele tinha firmado. E ele disse: ‘você vai parar de me agradecer por uma razão muito simples’. 

E ele explicou que era o hospital público mais barato que tinha. 'O custo é baixo porque as pessoas não apenas trabalham no hospital, mas porque há dedicação acima do normal’. Então isso dá uma grandeza à obra pela dedicação que permite ter custos que nenhum outro hospital tem. 

As Osid conseguem viver porque recebem doações. Se não fosse isso, o vermelho seria insuportável. Esperamos que, com ela santificada, melhore mais. 
Além de ser uma santa, eu diria que talvez ela tenha sido uma das melhores gestoras e administradoras que conheci na vida. Ela tinha um sentido do que era prioritário para as obras e para os funcionários. E tinha uma capacidade, com toda a fragilidade que tinha, de correr o hospital duas vezes por dia e detectar o que estava errado. 

Mais de uma vez ela me ligava e falava ‘irmão, preciso que você me mande uma auditoria. Acho que tem algo errado no almoxarifado’. Quando eu ia ver, tinha. Ela me dava agendas e ia me cobrar. 

Irmã Dulce prestou um serviço muito grande e, se alguém tem dúvida que ela é santa, o primeiro grande milagre dela foi a continuidade e o crescimento das Osid. Porque todo mundo tinha medo que a obra acabasse, porque a obra era ela. Maria Rita não tinha experiência nenhuma em gestão de hospital.

Quando eu levava um problema, eu dizia ‘está difícil’, ela virava e dizia: ‘olha, a obra não é sua, nem minha, a obra é lá de cima, pode deixar que ele (Deus) vai resolver o problema’. E resolvia. Era uma mulher de muita fé, que conseguiu uma obra que começou no galinheiro. Quando eu cheguei lá, a obra não tinha nenhuma fonte segura de recursos e grande parte das pessoas que estavam lá eram voluntárias e queriam também fazer bem ao povo

Se a Bahia não tiver as Osid, vai fazer muita falta na saúde.

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Muito antes de morrer, Irmã Dulce pediu a mim que convencesse Maria Rita para que ela fosse sucessora. Maria Rita não queria assumir de jeito nenhum. E ela disse que ia ficar por algum tempo. 

Acho que Irmã Dulce, lá de cima, fez a cabeça dela para assumir. Eu confesso que fico impressionado como uma pessoa como Maria Rita, que não tinha nenhum preparo de gestão, tocar uma obra dessa importância. É uma obra de Deus. No fundo, nosso Senhor sempre dava uma ajudinha. 

Ela (Irmã Dulce) não tinha nenhuma inibição em pedir para as pessoas. Ela era uma pedinte, realmente. Pedia muito, porque ela não tinha nenhuma verba, não tinha nada. Só podia viver de doação.

Eu me lembro, para você ter uma ideia, quando Waldir Pires era ministro da Previdência, ele foi fazer uma visita. Ele perguntou se nós já tínhamos feito alguma pesquisa, porque ela nunca quis fazer convênio (com o governo federal). Ela achava que iam tirar a liberdade dela. 

Pedi para ele fazer um levantamento para ver quantas pessoas atendidas por Irmã Dulce que já teve ou que não tinham previdência. Ele levantou e 90% do pessoal que atendíamos eram segurados do INSS. Ou seja, ela estava trabalhando de graça para o governo. 

Quando Waldir propôs (o convênio), ela disse logo que não queria. Ele disse: ‘não, vamos fazer um convênio de 20 milhões de cruzeiros'. Ela relutou muito e só aceitou porque ficamos em cima dela. Irmã Dulce sempre teve medo do governo interferir na vida do hospital. Hoje, evidentemente, não tem como sobreviver sem o SUS (Sistema Único de Saúde). Fomos o primeiro grande contrato que o governo fez. 

***
A coisa que mais me marcou dela, pelos episódios que eu assisti, foi que ela tinha uma fé inabalável que todos os problemas do hospital seriam resolvidos por ela (pela fé). Acreditar que nosso Senhor entende as causas como importantes. Foi a coisa dela que mais ficou comigo. 

Primeiro, a gente vê o quão importante é atender aqueles que não têm. E eu já tinha uma consciência que, na sociedade brasileira, era privilegiado e achava que tinha que criar oportunidades para os mais pobres. 

Ela tinha um senso enorme que não podia deixar pessoas nas ruas. Ela tinha esse ponto e evidentemente reforçou minhas convicções que nós temos obrigação, num país como o nosso, de olhar para aqueles menos favorecidos. É obrigação nossa entender que a gente não tem direito de gastar dinheiro com coisas supérfluas se tem quem precisa de ajuda. 

Tem uma coisa que ela me disse que foi muito importante. Foi uma carta de 1984, oito anos antes de morrer. De certa forma estava entregando a meus cuidados a obra, porque ela achava que eu tinha uma identidade com os princípios das obras. Foi a última mensagem mais importante, mas ela falava sempre coisas importantes. 

A última mensagem que ela me deu, foi já muito doente, quando já não falava mais. Fui visitá-la e ela apertou minha mão com tal força que as unhas dela deixaram marcas na minha mão. Ela tinha realmente um carinho comigo e me via totalmente identificado com a obra. 

Era para cumprir uma função. Ela achava que eu podia ajudar a constituir o sonho da fundação dela, mas fui de muito boa vontade porque, além de ela me pedir, um amigo meu dizia ‘você é a pessoa certa que ela tem que ter lá’. E por isso estou lá 38 anos". 


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