Obra irregular em igreja histórica revolta moradores do Santo Antônio

salvador
12.05.2022, 05:30:00
Will Marx, arquiteto e morador do Santo Antônio documentou a destruição (Marina Silva/CORREIO)

Obra irregular em igreja histórica revolta moradores do Santo Antônio

Templo é tombado pelo Iphan e não poderia sofrer intervenções sem autorização

A presença de cerca de 10 trabalhadores arrancando pedras que formam o degrau da Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão não passou despercebida pelos moradores do Santo Antônio Além do Carmo. Reunidos, eles impediram que a obra, que era realizada na manhã de terça-feira (10), fosse concluída. A presença de pedras novas, que não teriam relação com a caracterização do patrimônio histórico, indica que elas seriam colocadas no lugar das originais.

Poderia ser uma obra de reparo comum se o alvo da intervenção não fosse uma construção tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), datada da primeira metade do século XVIII. Sendo um patrimônio, qualquer intervenção no local deve ter aval do órgão de proteção, mas a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), responsável pela ação, não possui uma autorização, segundo diz o próprio Iphan. 

O que chamou a atenção dos moradores do bairro foi a forma brutal como as pedras históricas estavam sendo retiradas, o que acabou danificando muitas delas. Quando os residentes se juntaram e exigiram que a obra fosse pausada, técnicos da Conder e do Iphan foram até o local e levaram parte das pedras indevidamente retiradas. Os técnicos não apresentaram nenhum tipo de planta ou projeto de restauração.

"Para mexer em qualquer coisa nesse monumento secular é preciso ter uma planta aprovada pelo Iphan autorizando qual parte vai ser modificada e melhorada. Tem que ser um técnico que assine e se responsabilize por isso", afirma o arquiteto e morador do Santo Antonio, Will Marx.

“Essa obra veio para descaracterizar o bairro, ela tem vários erros. Aqui é um Centro Histórico, deve ter uma reforma para atender os seus requisitos. Tem que haver um restauro e não uma modificação. Isso aqui é um grande erro, eles estavam trocando as pedras da escadaria em vez de reformar”, criticou o artista visual Leonel Mattos, que mora no bairro há dez anos. 
 

Moradores denunciam que as placas seriam instaladas no local das pedras originais. A Conder nega

(Foto: Will Marx/Divulgação)

Descaracterização em curso

A substituição da estrutura original por placas de arenito rosa configuraria descaracterização e não é a forma correta de promover uma restauração, segundo afirma o historiador Rafael Dantas. “A atitude da Conder é absurda e não faz sentido algum. Nenhuma dessas pedras que ficam à mostra devem ser substituídas. Quando é preciso fazer algum tipo de restauração, é preciso ser feito com pessoas capacitadas para analisarem o tipo de pedra e só assim decidir o que deve ser feito”. 

Ainda segundo o historiador, justamente por ser um patrimônio, é preciso manter a integridade estrutural. A Igreja do Boqueirão é tombada individualmente pelo Iphan, além de fazer parte do conjunto do Centro Histórico de Salvador, reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. “O que fizeram foi uma retirada imprudente, irresponsável e irregular das pedras que ficam no adro e escadaria da Igreja. Isso é uma afronta à preservação da nossa memória arquitetônica”, acrescenta Rafael Dantas. 

Os moradores chegaram a especular se o responsável pela Igreja, o padre Ronaldo Marques, havia autorizado a obra. Ouvido pela reportagem, o padre negou que tenha sido procurado pela Conder antes do ocorrido e criticou a ação da companhia: “Nem nos pediram autorização nem nos comunicaram. Aquilo ali não é uma reforma, é uma agressão à Igreja e aos moradores do bairro”, diz. 

Esta não foi a primeira vez que moradores se mobilizam para denunciar obras de descaracterização feitas aos pés da Igreja do Boqueirão. Há cerca de um ano e meio, foi feito um levantamento de pista e substituição das pedras que compõem o piso em frente à Igreja. A justificativa para a obra, que também foi realizada pela Conder, é que a mudança seria feita para dar maior acessibilidade ao local e passagem para cadeiras de rodas. 

Igreja do Boqueirão é do século XVIII e pedras arrancadas são as originais

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Entretanto, com a elevação da rua, um dos dois degraus da escadaria da Igreja acabou sendo abocanhado pelo novo piso mais alto. Só restou um degrau, que foi alvo da ação dessa semana. Graças ao levantamento, os moradores relatam que, quando chove forte, a água da rua invade a Igreja.

“O levantamento desse passeio engoliu um degrau da Igreja e foi colocado esse granito na frente, que não tem absolutamente nada a ver com o contexto. Nós solicitamos a troca desse piso e quando eu cheguei aqui ontem (na terça, 10), na minha inocência, achei que estivessem fazendo isso”, conta Fernanda Cabrini, que mora há quatro décadas no bairro.

A arquiteta e também moradora do Santo Antônio Silvana Olivieri cobra que sejam realizados diálogos com os residentes sobre as obras que decidem fazer no conjunto arquitetônico do bairro. “Essa obra começou antes da pandemia e na época eu fiz muita pesquisa para entender se houve discussão, porque fomos pegos de surpresa. Eu descobri que só teve uma reunião em 2018 com um grupo muito restrito de moradores, sendo a grande maioria comerciantes”. 

Rafael Dantas lembra ainda que esse não é o primeiro caso de descaracterização em igrejas do Santo Antônio. “Recentemente, em uma obra muito malfeita, pintaram as pedras da escadaria da Ordem Primeira do Carmo. Isso acontece em muitas ações que envolvem órgãos pelo Brasil”, afirma o historiador. 

O que dizem os responsáveis 

A Conder negou que as placas de arenito sejam as substitutas das pedras originais da igreja, mesmo com as estruturas tendo sido colocadas no local no momento da obra. A Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia informou também que as pedras que foram removidas da escadaria são de pontos específicos e que a substituição tem como objetivo a recuperação das estruturas, para garantir o acesso seguro ao local. Segundo a Conder, um restaurador foi contratado para realizar o serviço de recomposição. 

Ainda segundo a Conder, a decisão sobre a necessidade de recuperação da escadaria foi definida em conjunto com o Iphan, após a realização de visita técnica. Já o órgão de proteção confirma que a visita foi realizada e que a escadaria da Igreja do Boqueirão foi apontada como um local que necessitava de intervenções, mas afirma que não autorizou a retirada e demolição de elementos da escada. 

“Técnicos do Iphan realizaram inspeção no local, determinando a paralisação das atividades até que seja elaborada Nota Técnica com a indicação das intervenções necessárias para a recomposição das peças retiradas e a restauração da escadaria”, diz a nota do órgão. 

A Conder informou que está sendo programada reunião com moradores e com o órgão que cuida da preservação do patrimônio. 

Moradores ficaram assustados com a destruição de parte das pedras

(Foto: Will Maex/Divulgação)

A Igreja 

Localizada na Rua Direita de Santo Antônio, a construção da Igreja do Boqueirão foi solicitada em 1726 pela Irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos ao Rei Dom João. As obras tiveram início no ano seguinte e são símbolo da expansão da fé católica no Centro Histórico soteropolitano. 

“A Igreja está inserida em um sítio importante para compreendermos a própria evolução urbana e arquitetônica da cidade. Ela foi construída em uma região nos caminhos ao eixo norte de Salvador e foi importante marco da expansão da fé católica nos arredores do centro antigo e do núcleo político da cidade”, explica o historiador Rafael Dantas. 

A Igreja tem estilo rococó e interior neoclássico, além de artes baianas em pinturas, esculturas e imagens sacras. Seu tombamento e de todo o acervo interior foi oficializado pelo Iphan em agosto de 1985. O tempo possui dois subsolos, térreo e primeiro pavimento. Todos os sábados são realizadas missas na Igreja, sempre às 9h.

*Com a orientação da subeditora Fernanda Varela.

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