Olho na tela: uso maior de computador e celular provoca 'epidemia de miopia'

saúde
06.06.2021, 07:00:00
Celulares ficam a 50 centímetros dos olhos, distância não recomendada pelos oftalmologistas (Shutterstock)

Olho na tela: uso maior de computador e celular provoca 'epidemia de miopia'

Entre crianças, o aumento nos casos foi três vezes maior em 2020 em comparação aos cinco anos anteriores; veja dicas para proteger a visão

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Se você está lendo essa matéria pelo celular ou computador, é melhor diminuir o brilho da tela. Em todo o mundo, oftalmologistas relatam a preocupação em relação aos efeitos danosos que o maior uso destes equipamentos tem provocado na saúde visual das pessoas, sobretudo durante a pandemia.

Em abril do ano passado, a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO) fez um alerta sobre os riscos e, agora, mais de um ano depois, o que os médicos previram está se confirmando: tem acontecido uma ‘epidemia’ de miopia, acompanhada de diversos outros problemas de visão e desconfortos nos olhos, principalmente entre jovens. 

Um artigo da revista científica Jaama Ophthalmology apontou que, em 2020, o número de casos de miopia em crianças entre 6 e 8 anos cresceu até três vezes em comparação com os cinco anos anteriores. Mais de 120 mil crianças participaram do estudo.

Mas também tem acontecido com adultos. O trabalho em regime remoto, aulas virtuais e diversão através de entretenimento televisivo ou por meio de redes sociais fez crescer o uso de computadores, tablets, celulares e TV’s, já que estes canais viraram o meio de conexão com o mundo para além das quatro paredes de nossas casas.

Foi há cerca de 20 anos, com a introdução massiva do computador como instrumento de trabalho, que associações médicas começaram a reparar em síndromes resultantes de problemas oculares relacionados a esse uso e catalogaram esse conjunto de sintomas sob o nome de Síndrome Visual Relacionada a Computadores (SVRC).

Membro do conselho consultivo da SBO, a oftalmologista Edna Almodin, responsável pelo alerta, explica que, embora não exista ainda uma estatística oficial, profissionais da área têm relatado grande aumento de pacientes com miopia, visão turva e ressecamento dos olhos nos seus consultórios. Segundo ela, as razões para isso podem estar relacionadas ao excesso de luz LED no olho, à restrição de saídas que dificulta o exercício de enxergar à distância e ainda à deficiência de radiação solar.

No último Relatório Mundial sobre a Visão, feito pela Organização Mundial da Saúde em 2019, estimou-se que 2,6 bilhões de pessoas no mundo têm miopia, sendo que 312 milhões têm menos de 19 anos. Segundo cálculos da SBO, estima-se que até 90% dos usuários de computador por mais de três horas diárias apresentam algum tipo de sintoma relacionado à síndrome visual relacionada a computadores, que pode levar à miopia e outros distúrbios. 

O estudante universitário Breno Bastos, 19, não usa óculos e percebeu no ano passado um incômodo nas vistas que nunca tinha experimentado tão forte antes. Cursando semestre virtual na faculdade, ministrando aulas remotas de inglês e interagindo com amigos pelo celular ou computador, o jovem logo suspeitou que a sensação de vista embaçada, ardor e cansaço nos olhos que andava sentindo fossem consequências de mais horas à frente das telas.

“Fiquei meio preocupado e fui ler matérias sobre isso. Vi que é porque nós piscamos menos por causa da luz da tela e fiz um lembrete mental para não esquecer de piscar”, conta ele. 

É isso mesmo. A oftalmologista Daiane Gil, do Hospital Português da Bahia, esclarece que um indivíduo pisca os olhos, em média, de 10 a 15 vezes por minuto e alguns estudos têm mostrado que quando o usuário fica entretido e passa mais tempo diante das luzes das telas, essa taxa cai para 60%. Como resultado disso, ocorre diminuição da lubrificação do olho, o que, por sua vez, gera ressecamento. 

O piscar dos olhos é naturalmente involuntário, mas é importante que as pessoas façam como Breno, tentem piscar sempre que lembrar porque ajuda a renovar o filme lacrimal, indica o também oftalmologista Amilton Sampaio, presidente da Sociedade de Oftalmologia da Bahia (Sofba) e diretor científico da Sociedade Norte-Nordeste de Oftalmologia (SNNO).

Se você pisca menos, a lágrima evapora com maior frequência e essa falta vai provocar a Síndrome do Olho Seco. “A gente percebe que quanto mais próximo das telas as pessoas  ficam, maiores são as queixas”, diz ele.

Devido a essa proximidade dos equipamentos em relação ao rosto — geralmente, as pessoas ficam a 50 cm do monitor ou tela do celular — o olho acaba sofrendo para fazer a acomodação da visão, situação que vem sendo responsável pelo agravamento de miopia em todo o mundo.

Esse problema visual dificulta que as pessoas enxerguem coisas que estão mais ao longe. O distúrbio surge quando o olho cresce mais do que deveria e atrapalha ver o que está distante. Quando colocamos objetos próximos do rosto, ativamos a musculatura para focar e se esse olho não tem descanso, ele aumenta de tanto contrair para fazer o foco.

Edna Almodin esclarece que primeiro é preciso entender que o olho míope é aquele que o foco do objeto observado não chega até a retina, que é a responsável por transformar o estímulo luminoso em impulsos que serão decodificados pelo cérebro para que a imagem seja lida. “Assim como um corredor tem pernas grossas por trabalhar esse músculo, o mesmo acontece com o olho”, descomplica ela. 

Com a pandemia, o fato de as pessoas estarem gastando menos tempo ao ar livre tem provocado uma perda no exercício de enxergar à distância.

A pedagoga France Carneiro, 38, fez exame oftalmológico em novembro passado e ficou surpresa quando viu o resultado. Acostumada a ter uma alta de grau que variava de 0.25 a 0.5 a cada ano, quase não acreditou quando viu que dessa vez tinha aumentado 1.25.

Para ela, duas hipóteses podem explicar o que aconteceu. A primeira é o fato de ela ter demorado mais de renovar o exame porque, por medo de aglomerações, evitou sair para consultas e deixou para resolver o assunto mais para o fim do ano. A segunda é que ela realmente aumentou o uso de notebook porque começou a fazer uma pós-graduação EAD. 

Atenção especial com a criançada

Este conjunto de situações está afetando consideravelmente crianças e jovens, que estão com os olhos ainda em desenvolvimento. Daiane Gil conta que, no seu dia a dia, observou que não apenas tem recebido mais pacientes apresentando miopia como pelo menos 90% dos seus pacientes já míopes retornaram aos consultórios com grau aumentado de forma muito mais abrupta.

Uma grande preocupação paira nas discussões entre os oftalmologistas. Amilton Sampaio diz que já tem sido demonstrado que estas síndromes têm reduzido a produtividade das pessoas no âmbito de trabalho e nos estudos e Daiane explica que, na pandemia, tem sido um desafio ainda maior o papo com os pais sobre o fornecimento precoce de tablets e celulares para crianças pequenas. 

A médica aponta que o uso excessivo de tablets e celulares, sobretudo na primeira infância, tem efeitos adversos no desenvolvimento visual das crianças. O problema é que, devido à suspensão do funcionamento de muitas creches e escolas, os eletrônicos realmente têm sido uma alternativa para o aprendizado e é também uma ferramenta importante para que os pais consigam manter as crianças ocupadas enquanto trabalham.

Daiane diz ainda que, atualmente, há protocolos médicos muito bem estabelecidos que desincentivam a oferta de eletrônicos para crianças com menos de 2 anos e que as que têm de 2 a 5 anos só devem usar apenas uma hora por dia. Acima de 5 anos, pode-se passar até duas horas. “O que estamos vendo é que as crianças estão passando o dobro desse tempo e é preciso incentivar planos B, apresentar outras brincadeiras, como baralho, jogos de tabuleiro”, indica.

“A gente fala de miopia com pavor não é pelo uso do óculos, é pela problemática de maior risco de descolamento de retina, de ser um fator de inibição social. A pessoa, a criança míope, enxerga bem apenas de perto, então ela tem a interatividade limitada porque interage apenas com o que está perto dela. Nas classes sociais mais baixas, quem não tem condições de comprar óculos ou não pode dar um tratamento na lente é chamado de lerdo, burro, olho de garrafa. A gente precisa levar esse problema a sério”, alerta.

Mas então o que fazer? 10 dicas para cuidar da saúde visual

1. Faça pequenas pausas de 2 a até 10 minutos a cada hora de uso de celulares, computadores e tablets. Durante esse intervalo, fixe o olhar à distância. Foque em objetos mais distantes, observe a sua estante, olhe para fora da janela, tente mirar o infinito. Os turnos de mais de 4h no computador devem ter pausas maiores.

2. Aumente a frequência do piscar. Ao piscar, você renova o filme lacrimal, lubrifica a córnea e diminui a sensação de olho seco.

3. Configure os seus eletrônicos para a luz amarelada. Ela é mais confortável e menos prejudicial. Nos celulares da marca Apple, essa configuração chama-se Night Shift e nos da Samsung, Filtro de Luz Azul. No notebook e tablet, evite o brilho máximo.

4. Faça também o controle da iluminação do seu ambiente de trabalho. O reflexo da luz solar vinda das janelas causam o fenômeno do ofuscamento (glare), que prejudicam a qualidade visual da leitura. Para melhor conforto, deve-se conter a entrada de luz natural com cortinas. Mas, veja bem, não é indicado trabalhar no escuro. Se o ambiente ficar muito escuro, diminua o brilho das telas e use uma luminária acessória. Busque um equilíbrio que te forneça conforto visual.

5. Use colírio hidratante sem cortisona de 2 a 4 vezes por dia. Consulte o seu médico para usar o produto mais indicado para sua necessidade.

6. Evite ambientes muito secos. O ar do ventilador e ar-condicionado diretamente nos olhos causa a evaporação da lágrima e olho seco.

7. Aproveite o isolamento para evitar ao máximo o uso de lentes de contato. Prefira os óculos sempre! O material da lente de contato dificulta ainda mais a lubrificação dos olhos.

8. Se você for encomendar um óculos novo, considere colocar filtro de luz azul na sua lente. Essa tecnologia ajuda a proteger os olhos dos malefícios do uso exacerbado de telas.

9. O ideal é que as telas de computador fiquem posicionadas a aproximadamente 20° abaixo da direção do olhar. Recomenda-se que esteja distante de 50 cm a 70 cm do olho. 

10. Faça avaliação com seu oftalmologista regularmente. O ajuste do grau é importante para uma boa qualidade visual.

Fonte: Sociedade Brasileira de Oftalmologia, e médicos Edna Almodin, Daiane Gil e Amilton Sampaio

Confira também alguns dos sintomas da SVRC:  

Olho seco;

Visão embaçada;

Ardência;

Coceira;

Olhos vermelhos;

Fotofobia;

Fadiga ocular;

Sensação de cansaço visual;

Dor de cabeça frequente;

Sensação múltipla de desconforto;

Dor ao redor dos olhos;

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