Onde tem Coreia do Sul na Bahia? 'Onda coreana' traz séries e comidas para Salvador

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18.09.2021, 07:00:00
Atualizado: 18.09.2021, 07:53:23
O chef coreano Kion Seo abriu o primeiro restaurante coreano presencial em Salvador. Desde junho, a Kion's Kitchen funciona na Pituba (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Onde tem Coreia do Sul na Bahia? 'Onda coreana' traz séries e comidas para Salvador

Público baiano tem onde comprar produtos sul-coreanos; conheça lista de locais que vai de restaurante a clube de taekwondo

Na casa da estudante Isabele Mercês, 14, o idioma coreano, na verdade, chegou antes mesmo que ela se tornasse fã de k-pop. Foi através dos doramas - ou k-dramas -, as séries e novelas sul-coreanas que também são um braço forte do entretenimento do país. Ao lado dos filmes e dos games, os k-dramas completam os principais aspectos da hallyu. 

Em 2018, a irmã de Isabele apresentou as produções para ela. "No começo, eu não gostei muito porque não conseguia acompanhar as legendas, mas depois fiquei viciada em assistir. Minha mãe se interessou e começou a ver também", conta. 

Apesar de terem chegado no Brasil de forma não oficial - de locadoras especializadas nos anos 1990 até por downloads com legendas feitas pelos próprios fãs -, hoje, os brasileiros já são um mercado importante. Só na Netflix, havia 169 títulos televisivos sul-coreanos legendados e traduzidos para o português, segundo o mapeamento feito pela pesquisadora Krystal Urbano, da Universidade Federal Fluminense (UFF). 

Leia a reportagem principal: K-pop para iniciantes: entenda como a Coreia do Sul transformou a música em diplomacia

"Se antes a gente precisava de um texto dos fãs de pop japonês para fazer circular os k-dramas ou ficava só no ambiente digital, hoje o cenário é totalmente diferente. Tem plataformas licenciadas de produções asiáticas e você tem um segundo braço que é a Netflix", explica. 

Na Netflix, são mais de 160 k-dramas traduzidos para o português brasileiro, a exemplo de Romance is a Bonus Book (Foto: Divulgação)

Isso ajuda a dar uma ideia do tamanho e do alcance da hallyu. Com essa indústria cultural forte, até outros aspectos tradicionais da Coreia do Sul, como a comida e o taekwondo, acabam sendo beneficiados. Para o cientista político Thiago Mattos, esses elementos trazem a ancestralidade do país de forma enraizada. 

“Você tem astros de k-pop fazendo bibimpap (prato sul-coreano à base de arroz) e chama atenção. Elementos como a comida e o taekwondo estão na hallyu, mas não são o veículo dela, por assim dizer. São uma espécie de tempero local para você se imaginar nesse lugar”, diz Mattos. 

Na Bahia
Com a comida sul-coreana, fica mais fácil se imaginar do outro lado do mundo mesmo que a pessoa esteja em Salvador.  Um dos lugares para quem quer ter esse gostinho na Bahia é o Kion's Kitchen, que abriu definitivamente as portas em junho, em Salvador, como o primeiro restaurante físico de comida sul-coreana da cidade. Nascido na Coreia do Sul, o chef Kion Seo, 58, mora em Salvador desde 2013. Ele havia chegado ao Brasil em 2007, para trabalhar em uma empresa de telefonia celular, mas vivia em São Paulo. 

"Fiquei fascinado com a beleza da natureza, com o coração quente, a praia calorosa e a comida muito gostosa. Por isso, fiquei aqui até agora", conta ele, que teve uma escola presencial de língua coreana até o final de 2019. O curso, que funcionava em um prédio na região do Iguatemi, chegava a levar estudantes baianos em expedição para a Coreia do Sul, em períodos de férias. 

Na época, ele já cozinhava para os estudantes e para as famílias, dentro da escola. Assim, a resposta acabou sendo melhor do que eu esperado.

"Por isso, veio o desejo de abrir o primeiro restaurante coreano aqui. Aluguei o espaço em fevereiro do ano passado, mas veio a pandemia e ficamos com tudo parado até setembro. Sofri muito, investi muito, mas agora finalmente pude abrir", conta. 

O chef Kion abriu a Kion's Kitchen em junho deste ano (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Para ele, a demanda por comida e produtos coreanos em Salvador tem muita influência da hallyu. Desde Psy com Gangnam Style até o BTS e o Blackpink, tudo tem ajudado de alguma forma. Kion acredita que o interesse dos brasileiros por seu país deve continuar por um tempo. Por isso, na Kion's Kitchen, tem até karaokê, que é um hobby típico entre o sul-coreanos. 

"No caso do k-pop, as mensagens transmitidas através das letras trazem sinceridade ao falar sobre bullying, depressão, paixões e sobre ser feliz com coreografias enérgicas. No caso do dorama, o conteúdo é sobre reflexões de nossa vida diária, em vez de conteúdo violento ou sexual. A família inteira senta para ver junto", explica. 

Na Kion's Kitchen, a proposta é ter uma experiência sul-coreana do início ao fim: lá, também é possível cantar no  karaokê (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Kion consegue até ver semelhanças entre a culinária baiana e a da Coreia do Sul. "O haemultang é a moqueca coreana. A diferença é que não tem dendê e leite de coco. A comida coreana, além de saudável, tem uma combinação de sabores diferente. E isso é novidade aqui. Salvador abraça outra cultura com carinho e eu agradeço a vocês. O kimchi que fabrico artesanalmente é um sucesso", conta. 

Em casa
Desde outubro do ano passado, os soteropolitanos também podem experimentar os sabores sul-coreanos com o delivery da Casa Coreia, a cozinha afetiva proposta pela chef e empresária Ana Ligia Jung Jo, 35. Mais conhecida como Jojo, ela é filha de coreanos imigrantes que chegaram ao Brasil na década de 1970. Nascida em São Paulo, veio a Salvador por conta do trabalho com o turismo. 

"Na época que meus pais imigraram, não tinha essa tecnologia de hoje. O contato com a Coreia era muito difícil. Não tinha a comida, as novelas, nem as notícias", lembra. 

Na pandemia, com o setor drasticamente afetado, decidiu investir em outra área. Assim, ela, que já fazia comida coreana para os amigos, criou a Casa Coreia ao mesmo tempo que viveu um processo próprio de aprofundamento da cultura sul-coreana. "Faço parte de um grupo de mulheres asiáticas, de feminismo asiático, e percebi que a comida estava presente o tempo todo nesses diálogos. A gente sabe que Salvador tem muita comida com história e isso se aproxima muito da Coreia do Sul", diz. 

Jojo é filha de coreanos e já morou na Coreia do Sul; hoje, ela é chef na Casa Coreia, delivery de comida coreana em Salvador (Foto: Divulgação)

Começou com o tradicional bibimpap, mas, em pouco tempo, o jjajangmyón (um macarrão de soja preto) se tornou o maior sucesso. "É o carro-chefe porque tem muito nas novelas coreanas e as pessoas querem experimentar. Por coincidência, também é um dos pratos mais pedidos na Coreia. Por isso sempre falo que a Coreia e Salvador têm mais em comum do que se imagina". 

A comunidade sul-coreana no Brasil, hoje, é fortemente identificada com o bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Muitos trabalham com as confecções, que são justamente o motivo da fama do bairro. Mas, aqui em Salvador, a presença de outros conterrâneos ainda é tímida. Por isso, ela vê a influência da hallyu de forma positiva. 

Um dos sucessos da Casa Coreia é o kimchi, que é considerado uma das bases da comida sul-coreana (Foto: Divulgação)

Para Jojo, a onda coreana vai além da possibilidade de sua mãe assistir às novelas do país pela Netflix - já que, antes, precisava alugar os capítulos em DVDs numa locadora especializada em São Paulo. 

"Essa expansão da cultura coreana quebra muitos padrões, inclusive o padrão de beleza ocidental e o padrão linguístico. É importante quebrar essa ideia do orientalismo, como diz o escritor (Edward) Said, do oriental como o outro", diz, citando o autor da obra Orientalismo, que analisa a visão ocidental sobre o ‘oriente’. 

"Tenho amigas que são fãs de k-pop, de novelas coreanas e que veem até a masculinidade ocidental de forma diferente da masculinidade asiática. Na Ásia, existe um matriarcado também, porque as mulheres têm muitas decisões importantes dentro de casa", explica. 

Jojo estudou na Coreia do Sul entre os 20 e os 22 anos. O governo sul-coreano estimula que os filhos nascidos fora do país retornem para estudar, aprender a língua e conhecer mais da cultura. "Hoje, o interesse pela Coreia é misto. Tenho meninas de 15 anos que fazem o pedido com permissão da mãe, como tenho senhoras de 80 anos que são clientes, conversam e adoram as novelas também". 

Para quem quer começar no mundo dos k-dramas: uma lista de doramas para iniciantes

  • Itaewon Class - Em um bairro boêmio de Seul, um ex-presidiário e seu grupo de amigos tentam realizar o sonho de ter um bar de rua. Disponível na Netflix. 
  • Romance is a bonus book - Um escritor e editor-chefe numa editora e uma redatora desesperada por trabalho acabam se envolvendo. Disponível na Netflix. 
  • Navillera - Um carteiro aposentado decide aprender balé aos 70 anos. Disponível na Netflix. 
  • Dear my friends - A história acompanha um grupo de amigos nos últimos anos de suas vidas. Disponível na Netflix.
  • Pousando no amor - Num acidente de paraquedas, uma herdeira sul-coreana acaba caindo no território da Coreia do Norte. Disponível na Netflix.
  • Descendentes do Sol - Um capitão das forças especiais se apaixona por uma médica em meio à guerra. Disponível na Netflix. 
  • A Love so beautiful - Uma adolescente vê seu relacionamento com o vizinho se transformar à medida que os anos passam. Disponível na Netflix. 
  • Let's eat - Uma mulher divorciada precisa equilibrar a vida morando sozinha com uma dieta saudável. Disponível na Netflix. 

Onde mais tem Coreia do Sul em Salvador? Uma lista de lugares para quem quer sentir o gostinho de estar do outro lado do mundo sem pegar um avião

  • Kion’s Kitchen - Restaurante coreano com karaokê em Salvador. Rua das Angélicas, nº 270, Pituba. Instagram: @kionskitchen
  • Casa Coreia - Delivery de comida coreana em Salvador. Instagram: @casacoreia
  • Miki Miki Produtos Orientais - Mercearia que vende produtos de países orientais, incluindo a Coreia do Sul. Alpha Mall, Avenida Alphaville, Alphaville I.
  • NippoBrasileiro Produtos Orientais - Loja que vende produtos de países orientais, incluindo a Coreia do Sul. Mercado do Rio Vermelho, box 58, Avenida Juracy Magalhães Júnior. 
  • Tsuki Produtos Orientais - Loja com produtos orientais, incluindo a Coreia do Sul, que vende também utensílios de decoração e roupas. Rua Minas Gerais, nº 70, Pituba. 
  • Lee Taekwondo Clube - Escola de taekwondo em Salvador. Estrada das Pedrinhas, Imbuí, nº 340.
  • Power Taekwondo Club - Escola de taekwondo em Salvador. Rua Itagibá, Patamares. 
  • Mariposa Restô - Temporada de karaokê começou na última quinta-feira (16). Todas as quintas, no Mariposa Pelourinho, no Terreiro de Jesus, nº  17. 
     

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