Ônibus continuam sem entrar no São Gonçalo do Retiro; rodoviários alegam insegurança

salvador
31.01.2018, 11:25:00
Atualizado: 31.01.2018, 15:25:02
Desde terça (30), moradores do São Gonçalo do Retiro estão sem o serviço de ônibus (Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Ônibus continuam sem entrar no São Gonçalo do Retiro; rodoviários alegam insegurança

Motoristas e cobradores temem que coletivos sejam incendiados

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Os ônibus continuam sem entrar no bairro de São Gonçalo do Retiro. Segundo o Sindicato dos Rodoviários, na manhã desta quarta-feira (31), os motoristas e cobradores mantiveram a decisão, alegando insegurança. Eles temem que os ônibus sejam apedrejados ou incendiados. “Os rodoviários disseram que não viram policiamento no local e por isso eles temem a insegurança”, declara Daniel Mota, presidente do sindicato. 

A situação persiste deste terça-feira (30), quando um suspeito foi morto em um tiroreio entre policiais e bandidos. Desde então, os ônibus que circulam no bairro fazem final de linha nos bairros de Nossa Senhora do Resgate e Saboeiro. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) confirmou o reforço no policiamento no bairro. Informou ainda que até agora não houve nenhum registro de violência na região. 

No início da manhã, voltou a circular a informação de que um suposto toque de recolher no bairro, mas o sindicato negou. “Os estabelecimentos comerciais estão abertos. O problema lá é o transporte público que continua sem entrar por falta de policiamento”, disse Mota. 

Já o bairro da Mata Escura, que também teve suspensão no transporte público na terça (30), amanheceu sem o serviço. No entanto, o policiamento foi distribuído no pouco mais de um quilômetro de extensão da via principal do bairro. Só no final de linha, o CORREIO encontrou cinco equipes da 48ª Companhia Independente de PM (CIPM/Sussuarana).  Lá, os ônibus voltaram a circular normalmente a partir das 8h.

Policiamento em Mata Escura garante circulação de ônibus (Foto: Mauro Akin Nassor)

Desde sexta-feira (26), o policiamento foi reforçado na Mata Escura e Jardim Santo Inácio. A Companhia de Patrulhamento Tático Móvel (Patamo) do Batalhão de Choque e outras equipes foram deslocadas para o local, após criminosos queimarem um ônibus na região. O incêndio ao coletivo ocorreu a menos de 500 metros do local onde a menina Geovanna Nogueira da Paixão, 11 anos, foi baleada ddurante incursão da PM. A garota morreu.

Áudio
O CORREIO esteve na Mata Escura esta manhã e conversou com o comandante da 48ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Sussuarana), major César Souza Ferreira. Segundo o comandante, o toque de recolher foi orquestrado por uma pessoa aleatória, sem envolvimento direto com o tráfico. Em um áudio enviado por meio do aplicativo WhatsApp, um homem fazia ameaças a comerciantes. 

"Pela morte dos pivetes, quem abrir [o comércio] vai fechar na bala, é sem ideia. Tem que respeitar, o luto é de três dias pelas mortes dos irmãos", dizia o áudio de 1 minutos e 25 segundos. O conteúdo disseminado no bairro, no entanto, é tido como falso pela polícia. O comandante explicou, ainda, que a ideia do responsável pelo áudio era creditar a ameaça a um traficante conhecido como Alanzinho, que comanda algumas localidades de Mata Escura.

Um segundo áudio, onde um homem se identifica como o próprio Alanzinho, desmente o primeiro e dá aval para que os comerciantes abram suas portas. "Pode avisar pra todo mundo abrir tudo, porque quem falou isso foi um laranja, querendo aparecer. Ainda usou meu nome esse laranja. Quem tá falando aqui é Alanzinho, esse cheiro mole aí não é de nada, a gente não está aqui pra frustrar morador nenhum", diz. Ao CORREIO, o major afirmou que o áudio atribuído a Alanzinho é verdadeiro. 

"Acontece muito desse tipo de áudio ganhar uma circulação e gerar esse pânico todo. Estamos aqui para devolver a sensação de segurança aos moradores", salientou o major.

Embora o clima seja de normalidade na Rua Direta, principal do bairro, moradores evitam falar sobre o assunto. Sem se identificar, uma comerciante disse que fechou porque preferiu não pagar para ver. "A gente vai arriscar? Não dá. Melhor perder um dia de trabalho do que a vida. Ainda bem que foi só por ontem mesmo", se limitou a dizer.

Um morador do bairro, que também preferiu não se identificar, contou que é constante a guerra entre traficantes nas regiões da Baixinha, Rua Direta e Babilônia, todas em Mata Escura. "A gente não abandona a casa porque não tem outra pra ir. É muito arriscado. A polícia aqui, às vezes é até bom porque eles [traficantes] dão pra trás", disse à reportagem.

Confrontos
De acordo com a SSP, no último domingo (28) um adolescente de 15 anos, que tinha sido apreendido na sexta (26) com drogas, e que seria integrante de uma quadrilha que atua na região, foi atingido numa troca de tiros com a polícia. Ele foi socorrido para o Hospital Geral Roberto Santos, mas não resistiu aos ferimentos. 

Com o adolescente e comparsas que fugiram foram apreendidos uma espingarda calibre 12, munições, pinos com cocaína, 96 pedras de crack, um carregador para pistola calibre ponto 40, entre outros materiais.Por meio de nota, a SSP afirmou que as providências para garantir a circulação dos ônibus na Mata Escura e região já foram adotadas.

"O policiamento permanece reforçado pela Companhia de Patrulhamento Tático Móvel (Patamo), Rondesp Central, 48ª e 23ª Companhias Independentes de Polícia Militar (Sussuarana e Doron), garantindo a segurança dos rodoviários, moradores e comerciantes da região. Equipes do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa e da 11ª Delegacia (Tancredo Neves) também atuam na área, com diligências na busca pelos autores dos áudios que circularam, amedrontando a população".

A secretária também confirmou outra morte de um homem não identificado no Retiro, na manhã de terça (30). A autoria e motivação do assassinato ainda é desconhecida.

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