Os desafios das empresas para o retorno

coronavírus
04.07.2020, 08:00:00
Distanciamento social integra a grande parte dos protocolos adotados pelas empresas (Foto: Divulgação)

Os desafios das empresas para o retorno

Mudanças de operação, aplicativos que autorizam a ida ao trabalho são só algumas das adaptações na rotina das companhias na pós-pandemia

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Por meio de um aplicativo, os funcionários respondem quatro perguntas sobre suas condições de saúde e na plataforma chega a autorização para se dirigir à fábrica. Se por acaso, alguma informação foi omitida, este mesmo trabalhador, ao chegar ao ponto de ônibus tem sua temperatura medida, antes de subir no veículo. Na unidade da Ford, em Camaçari, a terceira barreira de segurança: a portaria. A temperatura é aferida mais uma vez e ele precisa mostrar o resultado da pesquisa diária, que vai permitir o seu acesso.

A retomada da operação da fábrica completou 15 dias, após três meses de paralisação. “Estamos reiniciando nossa operação de forma gradual, segura e planejada”, afirma o gerente geral da fábrica de Camaçari, Roberto Castro.

Fábrica da Ford,  no complexo de em  Camaçari,  retomou as atividades há 15 dias, após três meses de paralisação
(Foto: Divulgação)

A indústria é só um dos segmentos da economia que estão se transformando com a crise, até retornarem a sua capacidade operacional completa. No plano, não constam apenas as diretrizes de retomada integral, mas também, iniciativas que possam promover um ambiente seguro, diante da pandemia do coronavírus.

Ainda que com a operação reduzida, o segmento é considerado serviço essencial. Por isso, as indústrias baianas não foram suspensas por decreto. Segundo o superintendente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Vladson Menezes, os segmentos que seguraram o desempenho industrial no estado foram o setor de petróleo, a indústria alimentícia e de produtos que conseguiram auxiliar no combate à covid-19.

“Com base em uma pesquisa que fizemos junto ao setor industrial baiano, mais da metade das empresas aderiram à suspensão dos contratos de trabalho (52%). Em relação à redução salarial, 42%  aplicaram algum percentual de diminuição da carga horária, prevista na Medida Provisória 936. Esperamos que a MP seja mantida por mais um tempo, assim como medidas de crédito e no plano fiscal que possam dar vigor a economia”, reforça Menezes. 

A fábrica de Camaçari e o Centro de Distribuição de São Gonçalo dos Campos que integram o Grupo Boticário, também estão entre as unidades que optaram por um retorno gradual. Lançamentos foram suspensos e toda a produção foi voltada para a fabricação de 216 toneladas de produtos como sabonetes e álcool em gel, que foram doados em todas as regiões do país, inclusive, no estado da Bahia. Lá, o "novo normal" já se tornou, normal. 

 Nas unidades baianas do Grupo Boticário, somente as equipes do administrativo seguem em home office
(Foto: Divulgação)

 Nas unidades baianas trabalham cerca de 1,5 mil pessoas. Somente o administrativo segue em home office,  como afirma o gerente industrial do Grupo Boticário, Felipe Magaldi. “É uma crise inédita. Temos consciência  que as medidas adotadas seguirão sendo o padrão por algum tempo”.

A Braskem também investiu em adaptações nas áreas industriais para viabilizar a operação de forma segura. O avanço da covid-19 impulsionou uma demanda por químicos e resinas termoplásticas aplicadas para o combate da doença , como destaca o diretor Industrial da Braskem na Bahia, Carlos Alfano.

A unidade fabricou seu próprio álcool 70%. “Não houve até o momento, necessidade de redução de carga horária e salário da força de trabalho. A tecnologia viabilizou ações que nunca previmos antes, como até o monitoramento das unidades industriais”.

Segurança  
As três empresas têm em comum a busca de alternativas que possam garantir o funcionamento das atividades mesmo na pandemia. Mas como garantir um retorno seguro  sem comprometer o sistema de saúde público? O setor econômico do estado vive a expectativa de anúncio do protocolo que vai definir o momento adequado para esta volta. 

O documento elaborado pelo governo do estado com a Prefeitura de Salvador vai definir o momento adequado para esta volta. A previsão é que ele seja divulgado logo no início da semana. “A referência que vamos utilizar é em torno de 70% de ocupação. É aceitável 1,5 mil mortes por mês? Uma semana depois, você pode ter certeza que esse número vai dobrar”, diz o governador Rui Costa.

Ainda que alguns setores estejam pressionando para uma reabertura imediata, o prefeito de Salvador, ACM Neto, reforça que não irá ceder a estas pressões. “A decisão de retomada será fruto de um entendimento com o estado. Só vamos abrir o comércio quando for possível abrir”, afirma.  De acordo com os últimos dados divulgados pelas secretarias de Saúde, tanto municipal, quanto estadual, a ocupação dos leitos tem ficado entre 80% e 84%, em Salvador, e 78% na Bahia.

O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia (Fecomércio-BA), Carlos Andrade, insiste que o setor está pronto para reabrir as portas. “Estamos preparados. Temos um protocolo pronto e fizemos essa comunicação para todos os associados. O problema de leitos é com o prefeito e o governador. O que propomos é reabrir tomando todos os cuidados”.

Recuperação
Uma pesquisa feita pela Deloitte Consultoria em 32 segmentos de atividades, com 662 empresas do país, aponta que a expectativa de recuperação dos negócios afetados pela pandemia virá entre 6 e 18 meses após o final do período de confinamento. O estudo ouviu  empresas instaladas na região Nordeste.

Ao longo de mais de cem dias, 68% das empresas preveem a diminuição de custos e despesas. Outro dado que chama atenção está na migração quase imediata dos canais de vendas físicos para os digitais por oito em cada dez negócios (83%).

“A questão sanitária também virou uma prioridade para as empresas. Não é só colocar álcool em gel e colocar na porta. Existe todo um plano de preparação e planejamento”, explica o sócio da Deloitte para a Região Nordeste, Edson Cedraz. 

Vários empreendimentos começam a seguir esta tendência. O Shopping Salvador e o Salvador Norte somavam um fluxo mensal superior a 3 milhões de clientes. Mesmo com a operação total paralisada, os dois registraram 30 mil vendas nos meses de maio e junho por meio do drive thru.

A plataforma digital incrementou o mix de 50 operações, como pontua o diretor Regional de Operações Bahia/Sergipe do Grupo JCPM, Fernando Rocha. “Foi preciso acelerar a entrada de novas tecnologias e  mudar o perfil das redes sociais”, conta.

Com base no levantamento mais recente divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no acumulado no ano (janeiro a abril), comparado com o mesmo período de 2019, os serviços lideram as perdas, com menos 12,3%, seguidos pelo comércio (-8,3%) e a indústria, com queda de 1,8%. No comércio, em abril, só a atividade de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo teve variação positiva (0,8%).

Diante deste cenário, o presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Edson Piaggio,  afirma que a reversão deste quadro depende de vários fatores para além da reabertura das empresas. “O maior desafio é a retomada. O brasileiro tem um apetite de consumo, mas a economia como um todo vai ter que girar”, diz ele.  
 
Ambiente de trabalho 
Apesar de não darem informações sobre o volume de investimentos  destinado à criação destes protocolos de retomada, o fato é que nenhuma empresa será a mesma no pós-pandemia. Na unidade da Suzano Celulose, no município de Mucuri, o retorno do contingente do administrativo que está atuando em home office está previsto para os meses de agosto e setembro. Porém, o profissional pode optar por ser mantido neste regime.

“Entendemos que o home office será uma ferramenta fundamental para ser utilizada ao menos duas vezes por semana pelos colaboradores cujas atividades permitam adotar essas práticas”, pontua a head de Relações Corporativas, Mariana Lisbôa.

Outra empresa que aderiu ao regime home office foi a Coelba. Em quatro dias, adequou 1,7 mil funcionários ao sistema. A empresa também está fazendo, totalmente virtual, o processo de seleção de seus estagiários. Foram mais de 11 mil candidatos inscritos para ocupar as 250 vagas disponíveis em diversas áreas, como engenharia, finanças e jurídica. “Essa mudança nos mostrou que podemos ser produtivos e objetivos mesmo a distância”, ressalta a superintendente de desenvolvimento organizacional, Régia Barbosa. 

Pós-pandemia
Outro setor que tem se movimentado para retomada é o de hotéis, que já começaram a treinar suas equipes, como sinaliza, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Luciano Lopes. “O check-in deverá ter o mínimo contato entre o recepcionista e o hóspede, assim como o café da manhã deve ser alterado de buffet para a la carte ou servidos diretamente no quarto”, adianta.

Nos restaurantes tudo será diferente. “Trabalharemos com menores zonas de contato comum, como os cardápios digitais. Além desta segurança, queremos proporcionar uma experiência positiva ao consumidor”, afirma  o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes Seção Bahia (Abrasel), Leandro Menezes.

E nos eventos, também. De acordo com dados do Movimento Organizado dos Profissionais de Evento da Bahia (Mope-BA), no Carnaval, o setor chega a movimentar R$ 1,8 bilhão. Nos festejos juninos,  R$ 700 milhões. “Vão existir evento de 20 pessoas, com distanciamento social, sem poderem se abraçar, com máscara. Acredito que isso só irá mudar no segundo semestre de 2021”, afirma um dos integrantes do Conselho Deliberativo do Mope-BA, Fábio Toshio Akita.

Perspectiva 
O diretor de Indicadores e Estatística da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI) e presidente em Exercício do Conselho Regional de Economia (Corecon-BA), Gustavo Casseb Pessoti, participa da mediação entre governo e prefeitura para a elaboração do protocolo de retorno das atividades econômicas. De acordo com o economista, o "medo" do consumidor vai impactar muito no processo de volta.

“É muito importante acompanhar a mudança no perfil de consumo e atualizar-se quanto as novas práticas comerciais e de gestão. Sobretudo, entender quais são as preferências desse consumidor e como elas se modificaram em função da pandemia”, diz. 

Essa mudança provocada pelo isolamento social, que o economista destaca, levou startups como a Escoar a crescerem 740% na pandemia. “Tínhamos uma média de 48 pedidos por mês. Essa demanda cresceu em torno de 454% pedidos/mês”, informa  uma das sócias da Escoar, Suzana Calmon.

A startup ajuda a dar vazão aos produtos da agricultura familiar. A rede conta, atualmente, com 17 cooperativas e mais cinco empreendimentos da economia solidária. Entre os mais vendidos está o flocão de milho não transgênico, laticínios, castanhas, produtos de umbu e de licuri. “Criamos através da tecnologia uma cadeia de dados em que identificamos os principais gargalos logísticos das cooperativas e traçamos a melhor solução para deslocamento dos produtos do campo para cidade”.

Empresas que não  têm resistência em mudar o processo produtivo irão sair na frente, conforme acrescenta Pessoti. “Independente de quando estas atividades possam ser liberadas, as empresas vão precisar estar aptas a processos de abrupta mudança e não se acostumar com aquela máxima de que ‘time que está ganhando não se mexe’. A pandemia vai evidenciar isso. Essa mudança é definitiva”, completa o economista. 


MAIS OPINIÕES DO SETOR ECONÔMICO

Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia (Sinduscon-BA) "Essa é uma crise sem referência histórica ou de estudos acadêmicos. Temos procurado entender as mudanças de hábito e de desejos do mercado. Tem se tornado ainda mais importante conhecer o cliente". (Carlos Henrique Passos, diretor de Relações Institucionais do Sinduscon-BA)

Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação (FEBHA) "A maioria optou por abrir em agosto, com 10% a 15% da sua capacidade, para assegurar  a manutenção, visto que dependemos da reabertura dos equipamentos turísticos para que os visitantes retornem". (Silvio Pessoa, presidente da entidade)

Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-BA) "Os sistemas de venda online foram acelerados e colocados em prática. A burocracia começa a ser reduzida e você ganha tempo. Nós avançamos o que talvez demorássemos cinco anos, nós avançamos em menos de um mês". (Marcos Vieira Lima, diretor financeiro da Ademi) 

Federação da Agricultura e Pecuária do estado da Bahia (Sistema Faeb/ Senar) “Mesmo com a pandemia, o produtor rural continuou trabalhando no campo. O agro é uma atividade essencial e que em momentos de crise, como o que vivemos, ganha ainda mais importância”. (Humberto Miranda Oliveira, presidente da entidade)

Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) "O agro restringiu a entrada nas fazendas, adotou o uso de máscaras e outras medidas de segurança e higiene. Sem o trabalho do campo, o resto da cadeia poderia parar". (Luiz Stahlke, assessor de agronegócios da Aiba)


INDÚSTRIA VAI TESTAR 60 MIL PROFISSIONAIS ATÉ SETEMBRO 

Com o objetivo de garantir um retorno mais seguro para os funcionários que estavam afastados da unidade por conta da pandemia , a indústria deve realizar 60 mil testes rápidos para identificar a presença do coronavírus neste trabalhadores. Segundo dados do Serviço Social da Indústria (Sesi Bahia), até o momento, a testagem coletiva foi realizada em 8 mil colaboradores de 200 empresas baianas.

O investimento da testagem por pessoa, é de, em média, R$ 100 para o IgM/IgG (detecção de anticorpos) e R$ 280 no RT PCR (exame molecular). “A realização dos testes rápidos em massa é recomendada para a tomada de decisão dos gestores no planejamento das ações para o enfrentamento da pandemia, pois permite conhecer o perfil de infectividade pelo Sars - CoV2 da população da empresa”, afirma a gerente de Segurança no Trabalho do Sesi Bahia, Maria Fernanda Lins.

A Bahiagás está neste processo de planejamento de retomada das atividades e vai aplicar a testagem coletiva como uma medida preventiva. “O maior ganho  é conseguir conter a propagação da doença no ambiente de trabalho. Foi aprovado um contrato específico para a testagem no valor aproximado de R$ 102 mil, voltados para a realização de 800 testes rápidos e 60 RT-PCR, tanto em empregados próprios, bem como nos terceirizados”, destaca o gerente de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Bahiagás, José Gallindo.

“Até o momento, um número muito pequeno testou positivo e nossa área de saúde tem feito a intervenção no mesmo dia do diagnóstico. A realização dos testes em massa é de fundamental importância  para o planejamento seguro da retomada”, completa.

O Ministério Público do Trabalho na Bahia  desenvolveu uma cartilha que também pode ajudar a nortear os cuidados que as empresas precisam ter com a sua força de trabalho. De acordo com o  procurador-chefe, Luís Carneiro, a pandemia incrementou  em 60% o volume de denúncias  comparado ao período antes da crise. 

“Existe uma reorganização do processo produtivo  em que a adaptação é indispensável. A grande parte das queixas são relativas a EPIs, sobretudo, de profissionais da área de saúde, segurança e telemarketing. Há uma preocupação muito forte. As denúncias podem ser feitas no site do TRT-BA”, pontua. 


PEQUENOS NEGÓCIOS SE REINVENTAM PARA SOBREVIVER

Os desafios da retomada atingem também os pequenos negócios. De acordo com um levantamento feito pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-BA), com 317 donos de micro e pequenos negócios baianos, metade dos empreendimentos mudaram suas formas de funcionamento (50,5%).

Houve uma pequena elevação entre os que continuaram funcionando fazendo isso utilizando ferramentas digitais entre a edição mais recente da pesquisa e os dados anteriores, passando de 32% para 35%, sendo os principais canais de venda o WhatsApp (85,8%), Instagram (44,8%) e Facebook (29,6%).

O diretor artístico e produtor cultural de Salvador, Fred Soares, é um dos empreendedores que buscaram os canais digitais diante do impacto da pandemia na receita da sua produtora de eventos. Com os sócios Luiz Antonio Sena Júnior e Luciana Gomes, apostou nas caixas artesanais e criativas como uma alternativa de renda. Em um mês de atividade, a plataforma Um Presente Diferente faturou, em média, R$ 21,6 mil.

Em um mês de atividades na pandemia, a plataforma Um Presente Diferente vendeu 108 caixas artesanais
(Foto: Divulgação)

“A crise tem me ensinado a entender as urgências do outro e não somente enquanto serviço, mas também como mercado”, diz Fred, informando  que toda equipe fez um treinamento virtual para a manipulação de produtos e alimentos, o que acaba agregando ainda mais valor ao serviço agora. “Contratei uma consultoria virtual sobre higienização de alimentos e passamos a seguir estas orientações desde quando começamos”, completa.

A fotógrafa Magali Moraes incrementou em 40% o seu ganho, quando passou a oferecer workshops virtuais de fotos para as redes sociais por R$ 10. “Precisei me readaptar. Não dá para esperar o ‘pós’ chegar para começar a agir. Percebi uma demanda grande de fotografia de empreendedores, que passaram a usar a rede social como principal canal de vendas”, conta ela.


***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas