Parcelar compra de comida é 'armadilha' na crise? Saiba como usar o crédito

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26.02.2022, 06:00:00
(Ilustração: Morgana Lima/ Estúdio Grida)

Parcelar compra de comida é 'armadilha' na crise? Saiba como usar o crédito

Seis em cada dez consumidores estão usando a forma de pagamento nas compras no supermercado, aponta Serasa

Qual foi a última vez que seu dinheiro conseguiu pagar a despesa do supermercado à vista? Não se acanhe, se prefere não lembrar. Porque a gente sabe que não está fácil para ninguém e cada ida às compras tem provocado indignação com o preço dos alimentos. É ou não é? Segura na mão do limite do cartão de crédito e só vai.  Parcela, por favor. 

O servidor público José Rodrigues, 55 anos, tem gastado por mês R$ 1,4 mil – o dobro do que era antes da pandemia - e não espera nem a moça do caixa perguntar se quer dividir ou não. “A maioria das pessoas que vejo na fila parcela as compras também. Hoje, para pagar à vista, só compro o pão. O arrocho salarial e descontrole de preços dos produtos é grande. Para tentar sair desse ciclo, tenho comprado o mínimo possível”.  

E José tem razão quando diz que boa parcela dos consumidores está jogando para 30 dias (ou mais) o pagamento das compras no supermercado.  Dados da Pesquisa Anual de Endividamento 2021, divulgada pela Serasa no início desse ano, mostram que seis em cada dez consumidores (69%) estão usando a forma de pagamento para encher a despensa de casa. Não por acaso, o cartão de crédito segue como a principal dívida entre os inadimplentes, para 53% dos consumidores. Em seguida, vem os cartões e crediários de lojas com 34%.  

“Diante de uma economia estagnada, com inflação e taxa de juros em alta e com queda do poder de compra da população, o cartão de crédito acaba contribuindo para pagar contas básicas que, muitas vezes, o salário não consegue cobrir. Esse é o cenário que se vê especialmente na pandemia”, comenta o coordenador da Serasa, Fernando Gambaro.  

Enquanto o dinheiro não cai do céu, a professora Luciana Santos, 49 anos, não nega a angústia que dá parcelar a comida que está comendo hoje e que vai pagar quando o armário da cozinha estiver vazio.  “Já houve situações em que precisei parcelar até o pagamento da fatura, mesmo com juros altíssimos. Vou comprando agora o que posso, de acordo com a necessidade”, afirma.   

Quando a crise aperta 
Em 2021, a inflação encerrou em 10,38%, o maior patamar nos últimos seis anos. A inflação elevada corrói o poder de compra do consumidor, pois os salários não são corrigidos na mesma proporção e velocidade. Junte a isso, uma taxa básica de juros (Selic) de 11,75% e temos aí uma conta que não fecha. 

Professor e coordenador do MBA em Gestão Financeira da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira explica porque o consumidor está pagando tão caro e em parcelas não tão suaves assim:  “A variação cambial, com a consequente redução do poder de compra do real frente ao dólar, também teve um papel relevante no aumento do preço de produtos e serviços no país. Além disso, os alimentos tiveram seus preços impactados pelos reflexos da crise climática, alta de custos com transporte e pela demanda externa, que compra (e paga) em ‘moeda forte’, o que gerou uma certa redução de oferta no mercado nacional”.  

Com renda insuficiente e os preços dos produtos e serviços em alta, a mesma quantidade de dinheiro compra menos produtos. Pagar as despesas em dia e sobreviver ao mesmo tempo, jogou o consumidor no limite – do cartão, do cheque especial, do empréstimo pessoal. A analista de Recursos Humanos Taís Dias, 35 anos, já não consegue pagar à vista compras acima de R$ 200.  

Nos últimos meses, Taís passou a levar marmita para o trabalho e usar o valor integral do vale alimentação para amortizar a despesa com supermercado.

“Inicialmente, a necessidade veio por conta do custo dos produtos. A fatura quando chega assusta. É combustível, manutenção do carro, supermercado. Mais despesas com a conta de luz, gás. Tenho feito o cardápio semanal e vou seguindo esse planejamento como uma estratégia para evitar qualquer desperdício”.  

Os mercados oferecem parcelar em cartões de diversas bandeiras - em estabelecimentos como Redemix, o consumidor pode dividir em até três vezes (confira ao lado). A rede conta com 10 supermercados e 7 atacados instalados na Bahia - 32% das compras por lá são pagas no crédito - 76% à vista e 24%, parcelado. 

“Entendemos que o cliente precisa ter as mais variadas formas de pagamento para escolher como quer pagar e isso inclui possibilitar que suas compras sejam feitas da forma que se encaixe melhor no orçamento mensal”, pontua o diretor comercial da Redemix, João Cláudio Nunes.  

Para o economista e educador financeiro Edísio Freire, cenários de crise favorecem a compra parcelada de itens de primeira necessidade. “Não é uma prática de agora, mas na pandemia ficou mais rotineira e em proporções maiores, puxada, sobretudo, pelo endividamento e desemprego”.  

E parcelar é vantajoso para o supermercado, complementa Freire. “Abre espaço para vender mais, porque sem essa possibilidade ou o cliente não compraria ou compraria menos. Além disso, muitos mercados possuem bandeira própria de cartão, gerando outro tipo de receita com essa operação”. 

A reportagem procurou a Associação Baiana de Supermercados (Abase) para comentar o movimento do uso do cartão de crédito na compra de alimentos nos mercados, mas a entidade disse que não tinha dados a esse respeito.

Crédito no bolso 
Mas porque o brasileiro recorre tanto ao cartão de crédito? Números da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) apontam que  as compras realizadas por meio do sistema de cartões de crédito, débito e pré-pagos cresceram 33,1% em 2021, somando R$ 2,6 trilhões.

Só a modalidade crédito apresentou o maior valor transacionado no ano passado, registrando R$ 1,6 trilhão, além de um crescimento expressivo de 36,6%. Ainda de acordo com a Abecs, o uso dos cartões do varejo alimentício aumentou 26% no 4º trimestre de 2021, resultado acima do registrado antes da pandemia – foi 18,6% no mesmo período de 2019.

“Os cartões devem alcançar 60% de participação no consumo das famílias no Brasil em 2022. Há três anos, esse indicador era de 38%. É um resultado muito bom para o setor. O seu uso é bastante diversificado, porém existem segmentos que, por natureza, movimentam um volume maior, como é o caso do próprio varejo alimentício”, ressalta o vice-presidente da Abecs, Ricardo de Barros Vieira.  

A maior disponibilidade de crédito é outro fator que favorece a recorrência ao cartão de crédito. Em levantamento divulgado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com o Sebrae, 75% dos consumidores usaram o cartão de crédito nos 12 meses anteriores a novembro de 2021, principalmente nas compras na internet (58%).  

Até aqui, tudo bem. O que chama atenção é que 44% recorreram quando faltou dinheiro para pagar à vista, precisa parcelar (44%) e quando o valor da compra é muito alto (36%). Presidente da CNDL, José César da Costa reforça que o mercado de crédito vem passando por grandes transformações.  

“Os bancos digitais estão atuando como um vetor de concorrência e ajudando a ampliar o acesso a serviços financeiros, facilitando o acesso ao crédito. Esse instrumento também funciona como uma alavanca para a economia, mas cobra um preço: a taxa de juros”, opina.  

Quanto maior a inflação, maior será o uso do cartão para cobrir a perda do poder de compra do salário, como destaca a economista Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).  

“Na hora de pagar a fatura, o consumidor se depara com o crédito rotativo e juros de 349% ao ano, em média, e acaba adquirindo outro cartão para distribuir os gastos. Tem início a engenharia do desespero para não ter o cartão bloqueado e inviabilizar aquilo que passa ser a renda complementar”.  

Dinheiro de plástico?  
No aperto ou no sufoco, o cartão de crédito vai ter suas vantagens e desvantagens para quem decidir usá-lo nas compras do supermercado. Se por um lado, oferece programas de fidelidade ou anuidade grátis, existem as armadilhas que o consumidor precisa driblar diante dessa falsa sensação de disponibilidade de recursos a qualquer instante (confira dicas abaixo).

Por mais que o cartão de crédito permita antecipar o consumo quando não se dispõe de todo o valor para a compra, a especialista da Proteste Associação de Consumidores, Mariana Rinaldi, alerta que o parcelamento de alimentos que precisam ser adquiridos todos os meses pode comprometer (e muito) o orçamento. A recomendação é saber usar.  

“Infelizmente, não há cenário de melhora econômica no curto prazo. É importante considerar que o cartão de crédito não deve ser utilizado como um complemento de renda. Fazer um bom planejamento financeiro, monitorando os gastos e pesquisando preços e, se possível, buscar por novas fontes de renda”, aconselha.  

Já para o economista e educador financeiro Edísio Freire, para alguns produtos que têm maior durabilidade o parcelamento é aceitável, como, por exemplo, a compra no atacado de material de limpeza e produtos de higiene - mas a depender da oferta.  

“São coisas que vão durar meses, o que combina com a rotina de compra, evitando sobrepor parcelas. Porém, avalie sempre promoções do tipo ‘leve três, pague dois’. Você realmente precisa? Confira data de validade, observe o volume, em peso ou ml, para não comprar algo numa embalagem menor achando que é promoção”.  

Para quem chegou até aqui, fica mais um conselho: “Muitas vezes, é possível conseguir um preço mais acessível com a compra fracionada de frutas e verduras nas feiras livres, inclusive nos bairros. Vale olhar para mercados menores, perto de casa, em busca de ofertas e pensar em compras coletivas com parentes e amigos em atacado”, completa Freire.


PARCELA OU NÃO? 

. Assaí Atacadista  Em até 2x nos cartões de crédito comuns. Já no cartão próprio, o Passaí, o cliente pode dividir em até 3x.  

. Pão de Açúcar Nas lojas físicas, o parcelamento é feito em até 3x no cartão próprio e limitado para compras de vinhos, cervejas e destilados e nos itens de bazar. Já no e-commerce (www.paodeacucar.com.br) e no app da rede, compras feitas com o cartão próprio são parceladas em 4x, sem valor mínimo, ou em até 12x sem juros em compras a partir de R$ 300. 

. Redemix  Divide em 3x sem juros nas principais bandeiras de cartão.    

. Atacadão No cartão Atacadão dá para parcelar em até 4x, a depender da categoria dos produtos. Nas demais bandeiras, o pagamento é à vista.  

. Atakarejo  As compras  são divididas até 2x em todos os cartões, com parcela mínima de R$ 20. Eletro, 12x. Itens de Bazar, 10x. 

. GBarbosa Parcelamento de alimentos apenas no cartão Cencosud em até 6x. 

. Big Bompreço Não há parcelamentos para alimentos. Exceto, itens de sazonalidade, como no Natal (peru, entre outros) que podem ganhar promoções com parcelamento nos cartões da casa.  Os produtos que permitem parcelamento são das categorias vinhos e destilados (3x nos cartões próprios) e de higiene e limpeza (4x nos cartões próprios).  

. Hiperideal Todas as lojas parcelam em até 3x no cartão Hiperideal, e as lojas da Vila Laura e Litoral Norte parcelam também em outros cartões em até 3x. 

. Mercantil Rodrigues Parcelamento restrito ao cartão Cencosud em até 6x.  

. Cesta do Povo Parcela em até 3x, em qualquer cartão de crédito.  

. Sam’s Club Não parcela alimentos. Só divide produtos de bazar, eletrodomésticos e eletrônicos. O investimento para ser sócio é de R$ 75 por ano e o assinante tem acesso a descontos em produtos do dia a dia.


12 ESTRATÉGIAS NA HORA DE USAR O CRÉDITO NO SUPERMERCADO

1. A gente até queria, mas limite de crédito não é renda 
Não use o limite de crédito como se fosse todo o recurso financeiro disponível para aquele período. Ou seja, não confunda limite de cartão com a renda que ganha.  

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2. Tudo na planilha 
Se fizer parcelamentos é preciso ser ainda mais rígido no controle do orçamento. Evite fazer compras parceladas com pagamentos de juros.

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3. Mais planejamento 
Defina um número máximo de idas ao supermercado por período e não flexibilize esse limite. Vale estipular também um valor máximo de compras em cada ida. Mesmo que seja algo difícil de acontecer, caso sobre algum saldo, deixe aplicado para futuras necessidades, já que o preço dos alimentos tem variado. 

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4. Não compre tudo de uma vez só
Outra dica é optar pelas compras fracionadas. Um valor menor acaba assustando menos e até desestimulando que você faça o parcelamento.  Não há necessidade de comprar tudo de uma vez, compre somente o necessário da semana. 

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5. O lado bom do cartão de crédito 
O cartão de crédito não é tão vilão assim e também tem suas vantagens. Prefira cartões sem cobrança de taxas de anuidade e que oferecem recompensas, como cashback, pontuações e programas de milhagens.  

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6. Cuidado com o parcelamento 
Ligue o alerta com o parcelamento na pegada ‘o máximo que puder’. Ele vai estourar seu o orçamento e inviabilizar a capacidade de pagamento integral da fatura. 

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7. Só o necessário
Evite estocar itens, que não serão consumidos tão rapidamente. Isso pode ser um investimento desnecessário, fazendo com que falte dinheiro no final do mês. O ideal é organizar um cardápio semanal, verificando sempre o que já há na despensa, de modo a otimizar os ingredientes e não desperdiçar nada. 

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8. Faça as contas 
Parcelar alimentos no cartão dá uma falsa impressão de maior disponibilidade de recursos, já que eles precisam ser adquiridos todos os meses. Então, uma despesa que é dividida em três parcelas, no período de três meses, o valor da fatura equivale ao valor total de um mês. No final,  é trocar seis por meia dúzia.  

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9. Apps e descontos
Utilize os aplicativos das lojas para se certificar das oportunidades de promoções, aproveitar ofertas e descontos. Faça parte também dos programas de fidelidade.

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10. Na prateleira do supermercado
As marcas estão mudando suas embalagens constantemente, principalmente com relação ao volume. Por isso, fique mais atento ao peso ou ml de cada produto comprado, para não acabar levando um item que está com embalagem menor, mas com o mesmo preço. 

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11. Quantos cartões de crédito?
Tenha no máximo dois cartões de crédito, direcionando um deles para gastos com supermercado. Isso vai te dar mais controle financeiro. Vários cartões abrem espaço para o endividamento. 

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12. pegadinha 
Viu uma promoção, mas o mercado fica distante? Pode ser que a oferta não compense o deslocamento. É ligar o radar também para aquelas promoções de itens que você não costuma consumir, por mais apelativo que seja o desconto. Sempre analise se a diferença de preço vai trazer mais gastos, a fim de evitar que o barato saia caro.


APPS QUE PODEM AJUDAR 

. Pinngo O aplicativo vai te ajudar a consultar os preços de um produto em específico e escolher o lugar mais barato.  É só apontar a câmera do seu celular para o código de barras do produto que quer comprar e apertar o ‘scan’.  

. Preço da Hora Bahia A partir de uma base de dados de notas fiscais eletrônicas processadas todos os dias no Estado, o app traz cotações de preço em tempo real e indica também qual o estabelecimento onde o consumidor pode encontrar aquela oferta. 

. Facily No app de compras coletivas, quanto mais pessoas participarem da compra, menor será o preço que cada um vai pagar.  

. Gelt Toda sexta-feira, novos produtos com cashback são exibidos no app com o valor para cada um deles. Depois é só comprá-los em qualquer loja física ou supermercado do país. Quando o consumidor alcança R$ 100 de cashback acumulados, ele pode sacar o valor em um caixa da rede 24Horas.   

. Apps de Lojas Grandes redes contam com aplicativos que ajudam o consumidor na busca por ofertas, como, por exemplo, o Grupo Pão de Açúcar e o Assaí.    

*Todos os apps estão disponíveis nos sistemas  Android e iOS 


ONDE ECONOMIZAR EM FEIRAS LIVRES PELA CIDADE - DAS 6H ÀS 18H

. Sete Portas 
Avenida Cônego Pereira 

. Jardim Cruzeiro
Rua Rezende Costa 

. Fazenda Grande do Retiro 
Rua Melo Morais Filho  

. São Caetano 
Rua Desembargador Mário Lisboa Sampaio 

. Iapi
Rua Conde de Porto Alegre 

. Japão/ Liberdade 
Rua Gonçalo Coelho 

. Cosme de Farias
Rua Wenceslau Galo 

. Cruz da Redenção 
Ladeira do Mulambu 

. NE de Amaralina
Rua Reinaldo de Matos - Final de Linha 

. Vale das Pedrinhas 
Rua Antônio Balbino 

. Mussurunga 
Rua C, Quadra B 

. São Cristóvão 
Praça da Matriz

. Tancredo Neves
Rua Pernambuco / Rua Paraíba 

. Don Avelar 
Largo dos Oratorianos 

. Periperi 
Rua das Pedrinhas 

. Plataforma 
Rua Antônio Balbino 

. Fazenda Coutos
Rua 60, Quadra 59 - Final de Linha
 

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