Pedagogia tipo exportação e antirracista atrai alunos e professores de outros estados

salvador
20.06.2021, 05:00:00
Atualizado: 21.06.2021, 14:42:59
Bárbara Carine e Maju Passos criaram um espaço capaz de fortalecer crianças, dentro de uma perspectiva emancipadora e diversa (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Pedagogia tipo exportação e antirracista atrai alunos e professores de outros estados

Pioneira, a Escola Afro-Brasileira Maria Felipa, em Salvador, dissemina modelo inovador de educação para garantir sua sustentabilidade na pandemia

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A curiosidade não é saber onde fica a Disney, mas, a Nigéria. Heroína preferida? Quem pensou na Mulher Maravilha, precisa conhecer a história de Dandara. O desenho da aula de hoje, foi a fogueira de Xangô. Nas homenagens ao Dia da Mulher, Mariele Franco (presente). Português, Inglês, Libras e noções de Yorubá. Na aula de dança, obisana sana, uma brincadeira comum entre as crianças de Gana. Na porta da sala, na plaquinha que sinaliza qual a turma, ninguém vai encontrar G2 ou G3 como identificação, só o Reino Daomé, Império Ashanti e o Império de Kush. Essa escola existe?  

“Enquanto esperávamos no jardim, minha filha pegou uma folha da árvore, empunhou como uma espada e me pediu para tirar uma foto dela imitando Maria Felipa. Com isso, eu quero ilustrar uma enorme satisfação de vê-la, aos 4 anos, conhecer essa história e como isso contribui para o entendimento dela sobre gênero, raça e sobre quem admiramos”, afirma a antropóloga Christiane Falcão, mãe da pequena Lia.  

Mesmo morando em Aracaju (SE), a escola onde Lia estuda fica em Salvador e, até o momento, é a única afro-brasileira bilíngue de educação infantil no país. O nome da instituição é em reconhecimento à importância histórica da heroína preferida de Lia, porém, pouco lembrada nos livros didáticos tradicionais: escrava liberta, da Ilha de Itaparica, que lutou contra as tropas portuguesas durante a Independência da Bahia.  

A inovação em oferecer um projeto pedagógico centrado em uma educação antirracista e sob óticas africanas e indígenas, agora ultrapassa fronteiras do espaço físico e do ensino presencial. Isso porque, desde o início do ano, a Escola Afro-Brasileira Maria Felipa (@escolinhamariafelipa), começou a expandir o modelo de educação na modalidade remota para crianças de outras cidades fora do estado, além de cursos de qualificação para professores dentro dessa metodologia.  

“A ideia de socializar a nossa perspectiva pedagógica surgiu logo que a escola começou a se fortalecer nas redes sociais. As pessoas tinham muita curiosidade em entender esse processo, solicitavam muita informação à distância, mas não sabíamos ainda como operar essa possibilidade. Porém, a pandemia colocou pra gente que tínhamos que aprender a fazer isso na marra, no olho do furacão”, ressalta a sócia, idealizadora da escola e professora adjunta do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Bárbara Carine.  

Tainá, 5 anos, quer saber mais sobre a história de Iemanjá
Tainá, 5 anos, quer saber mais sobre a história de Iemanjá (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)
Vanessa Amorim é mulher trans e ensina libras na Escola Maria Felipa
Vanessa Amorim é mulher trans e ensina libras na Escola Maria Felipa (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)
Grupo 5? Pode chamar de Império Ashanti
Grupo 5? Pode chamar de Império Ashanti (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)
'Que meu filho Ayo compreenda, tenha consciência de ser um homem branco nessa sociedade, filho de uma mulher preta', deseja Maju Passos, uma das sócias da escola
'Que meu filho Ayo compreenda, tenha consciência de ser um homem branco nessa sociedade, filho de uma mulher preta', deseja Maju Passos, uma das sócias da escola (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)
A educação étnica-racial tem como foco a valorização e reconhecimento de diferentes grupos, entre eles os afro-brasileiros e indígenas.
A educação étnica-racial tem como foco a valorização e reconhecimento de diferentes grupos, entre eles os afro-brasileiros e indígenas. (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

A escola tem, ao todo, 36 alunos matriculados do Grupo 2 ao 1º ano do Fundamental I com crianças de cidades como Aracaju (SE), Recife (PE), Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Vitória da Conquista (BA).  A mensalidade custa R$ 870, mas todos os alunos tem desconto de 10%. Nas qualificações online para professores, a média é de 50 a 250 educadores inscritos por edição. A próxima, inclusive, ocorre de 28 a 30 de junho.  

“A Maria Felipa acabou se tornando referência no Brasil de educação antirracista em virtude do grau de articulação do nosso projeto pedagógico e dos marcadores ideológicos que a escola carrega com parâmetros e diretrizes curriculares nacionais”.  

Modelo inovador 
A ‘exportação’ do modelo e esse movimento de dentro para fora se tornou uma alternativa de manter a sustentabilidade da escola, que como outras instituições de ensino da rede privada - principalmente, as de educação infantil - perderam alunos durante a pandemia.  Em 2020, a instituição começou o ano com 42 crianças matriculadas, destas, 10 bolsistas. Ao longo do ano, a escola teve 11 cancelamentos de matrícula, um impacto que deixou um déficit financeiro mensal de mais de R$ 10 mil.   

“O impacto no primeiro ano era absurdo. Foi muito importante descobrir que a escola é muito para além dela mesma. Começamos no meio do ano passado com as qualificações online que deram um retorno positivo de R$ 15 mil, que nos ajudou bastante naquele momento. Nossa escola está no terceiro ano de existência e vimos escolas que tinham décadas fecharem. Tivemos muito medo da falência”. 

Professora na cidade de Apucarana (PR), Luana Leal é uma das profissionais de educação que se interessaram pela proposta dos cursos da Maria Felipa para educadores que buscam uma abordagem antirracista. “Essa revolução, que estamos batalhando bastante para acontecer, implica numa mudança de pensamentos e de posturas”. 

A escola já tem em seus planos o desenvolvimento de um modelo de consultoria para levar a abordagem étnica-racial para outras instituições, até porque a legislação brasileira obriga o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira na educação básica – ainda que muitas escolas tradicionais não cumpram esta determinação como deveriam. Além disso, a Maria Felipa apostou na criação de uma lojinha virtual, a @loja.mariafelipa, com camisas, canecas bijuterias que remetem a cultura afro-brasileira e tem uma vakinha na plataforma de financiamento coletivo Catarse para ajudar alunos bolsistas.  

“Ao mesmo tempo em que enxergamos a chance de socializar nossa perspectiva educacional e ser semente disso, pensamos também em oportunidades para manter a sustentabilidade econômica e financeira da escola. A gente não quer ter só uma Maria Felipa no Brasil, quer que esse conceito se espalhe”, reforça a sócia da escola, Bárbara Carine.  

Vanessa Amorim é mulher trans e ensina libras na Maria Felipa. Nas aulas, espaço para a inclusão e o respeito a diversidade.

“As crianças aprendem de forma lúdica e igualitária a desenvolver uma nova língua, observando de perto uma professora que representa várias minorias e resistência histórica. No meu plano de aula eu sempre trago uma situação social, em que eles se vejam de repente, no parque, numa praça e se deparem com a realidade de uma pessoa surda”. 

A transformação é percebida pela produtora e mãe de Tainá, Carolina Moura, que observa a filha, de 5 anos, querendo saber mais sobre Iemanjá. “A gente já vê isso no discurso dela, na fala, nos exemplos. É incrível e nós, pais, estamos aprendendo junto com ela a história da África que nos foi negada”, opina. 

Representatividade 
Pai de Vicente, de 5 anos, o fisioterapeuta Erick Olgim queria para o filho uma educação onde ele se sentisse representado. “Somos uma família negra e moramos em Porto Alegre. O ensino remoto nos deu a possibilidade de encontrar um projeto pedagógico que traz história que não é contada nas escolas convencionais. Meu filho reconhece outros sotaques, outras formas de se expressar e enriquece a sua própria cultura”.  

A preocupação de Erick com a representatividade foi a mesma de Bárbara Carine e da sua sócia e gestora administrativa, Maju Passos, quando criaram o modelo da escola, pensando muito na formação que queriam para os seus filhos. A ideia e a proposta de uma instituição de ensino disposta a quebrar padrões de uma educação eurocentrista (centrada na concepção europeia), nasceram dessa inquietação, como conta Maju:  

“Barbara idealizou o projeto com o desejo de criar um espaço para que a filha dela, uma menina negra, não sofresse racismo. Já eu chego depois, para não deixar que meu filho se torne um racista. Que ele compreenda, tenha consciência de ser um homem branco nessa sociedade, filho de uma mulher preta. É um conceito que dá chance de construir através de uma educação diferente, um outro futuro”.  

Educação totalmente diferente da que a afroempreendedora e mãe de Maya, Milla Costa recebeu quando era criança, quando não via nenhuma princesa negra protagonista de história infantil.  

“Minha pequena tem 3 anos e já se reconhece uma menina negra, de cabelos bonitos, diz que é uma preta empoderada e ela fala isso para outras crianças. A educação afrocentrada só faz fortalecer esses valores”. 

Em uma das atividades, a escola abordou a história de Xangô, um poderoso rei e guerreiro que governava o reino de Oyó. A Fogueira de Xangô é comemorada no candomblé entre os dias 25 e 29 de junho, que dentro do calendário cristão é o mesmo período em que ocorrem as festas de São João e São Pedro. “As aulas e as atividades mostraram como nós cultuamos o orixá no candomblé, suas cores, elementos e tudo isso é importante para Maya ter orgulho da religião dela, que é filha de Xangô. É a gente ouvindo a nossa história dentro de uma instituição educacional”, afirma.

Desafios 
A construção de uma proposta pedagógica que incorpore as questões referentes aos temas da cultura indígena, quilombola, das populações LGBTQIA+ e das populações historicamente discriminadas e apagadas dos currículos escolares é um desafio para todas as instituições de ensino.  É o defende a antropóloga, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos, Jamile Borges.  

“As populações indígenas e afro-brasileiras nos legaram um vasto conhecimento nas áreas da saúde, da agroecologia, da sustentabilidade, das relações interpessoais e da arte. É preciso que nossas escolas construam projetos político-pedagógicos que incorporem esses saberes como parte dos currículos escolares e não somente como uma data no calendário”. 

Enquanto na educação étnica-racial, o projeto pedagógico é construído a partir de um comprometimento com essas questões, os velhos métodos das escolas tradicionais insistem em um modelo colonizador, que ensina que Cabral descobriu o Brasil, o dia do Índio é 19 de abril ou o que o significado da Consciência Negra só deve ser lembrado em 20 de novembro.  A doutora em Sociologia e professora da Faculdade de Educação da UFBA, Edilza Sotero, comenta que o caminho para a transformação é longo, porém, mais que necessário, é empoderador.   

“A escola tradicional é aquela que ignora o caráter multirracial da sociedade brasileira. Nesse modelo escolar, muitas violências são produzidas de forma cotidiana, reforçadas pelo silêncio e o racismo sutil (ou nem sempre tão sutil). Além do currículo, a educação étnico-racial precisa permear todo o processo de ensino-aprendizagem. É mais que uma metodologia. Ela relaciona epistemologias, políticas e práticas educativas”, completa.  


UMA ESCOLA ANTIRRACISTA É POSSÍVEL?

O que é 
A Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) rompe com lógicas e discursos que reforçam e naturalizam as desigualdades, ao compreender o processo de ensino e aprendizagem, a partir da valorização e reconhecimento de diferentes grupos étnico-raciais, entre eles os afro-brasileiros e indígenas. 

Foco 
O respeito à diversidade de raça e gênero, a valorização de pertencimentos e de diferentes narrativas e visões de mundo colocam no centro do processo educativo, as contribuições dos povos que formaram o nosso país. 

Referência decolonial 
Outra ruptura está na formação deocolonial, ou seja, com uma proposta educacional baseada na desconstrução de uma perspectiva branca, racista, machista e preconceituosa, normatizada pelos marcos civilizatórios e pela colonização europeia. 

O que diz a legislação? 
No Brasil, após a promulgação da lei 10.639, em 2003, modificada cinco anos depois pela lei 11.645/08, o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena se tornaram obrigatórios na educação básica. A aprovação da lei é fruto de um longo processo de demandas do movimento negro brasileiro e de outros movimentos sociais. 

Currículo 
O projeto pedagógico é construído considerando o reconhecimento história e a memória das populações que foram escravizadas, revisando conceitos como raça, racismo, alteridade e identidade. Também são adotados materiais pedagógicos, como livros de literatura infantil, por exemplo, que coloquem a identificação étnica-racial no protagonismo, ou seja, com crianças negras e indígenas como personagens principais assim como suas famílias, cultura e religião. 

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