‘Pedi pelo amor de Deus pra ser atendida’: o drama de quem precisa de saúde na Bahia

coronavírus
23.02.2021, 05:30:00
Pessoas aglomeram na frente do gripário de Paripe esperando atendimento (Daniel Aloisio/CORREIO)

‘Pedi pelo amor de Deus pra ser atendida’: o drama de quem precisa de saúde na Bahia

Baianos relatam medo de enfrentar a covid-19 no momento em que a saúde no estado está à beira do colapso

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Na frente do gripário de Paripe, o semblante de dor de Geane Santana de Oliveira, 35 anos, chamava atenção. Mas não era ela quem estava com sintomas da covid-19 e sim sua mãe, Maria Clara, 65 anos, que na manhã dessa segunda-feira (22) foi admitida na unidade com quadro grave de insuficiência respiratória. Geane ficou na frente do gripário esperando notícias. Enfrentou chuva, sol e a sensação térmica de 33ºC que fazia em Salvador. Como se segurasse a mão da própria mãe, ela apertava o terço que Maria Clara carregava e não pôde entrar na unidade. "Pedi pelo amor de Deus pra ser atendida, pois ela chegou num estado bem mal", recorda. 

Geane é uma das milhares de baianas que enfrentam o medo de lidar com a covid-19 quando a Bahia vive o seu pior momento desde o início da pandemia. Pelo quarto dia consecutivo, a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) registrou nessa segunda o maior número de pacientes internados em UTIs Covid-19 desde o início da pandemia. São 912 pessoas em estado grave ocupando leitos nas diversas regiões do estado. No dia anterior eram 890 doentes. A taxa de ocupação dos leitos de UTI na Bahia é de 80%.  

O medo de Geane é que a mãe seja uma das pessoas que precisem de um dos 20% de leitos UTI que restaram. Pela tarde, ela soube que a senhora de 65 anos ia precisar ser regulada para um hospital de qualquer jeito. “A médica está tentando ver como ela reage para definir qual vai ser o tipo de leito, clínico ou UTI. Ela está com a saturação baixa e usando suporte de oxigênio, para não ficar com falta de ar”, disse.  

Até as 18h da segunda, quando o texto foi fechado, Geane permanecia na frente do gripário. “Tenho que ficar. De filha aqui em Salvador só tem eu. Minhas irmãs moram em Natal”, conta. Ela chegou no local às 7h. Na sexta já tinha ido pela primeira vez com a mãe.

“Ela tinha perdido o olfato, paladar, dor de cabeça e garganta. Só que ela foi liberada. E em casa teve muita dificuldade para respirar e cansaço. Ela não gosta de médico, mas pediu para vir, pois não estava aguentando”, explicou. 

Na frente do gripário, por volta do meio-dia, em torno de 50 pessoas aguardavam o atendimento. A maioria estava aglomerada no pequeno espaço de sombra que tinha. “Isso dá uma revolta. Eles poderiam aumentar o espaço de sombra com algum toldo, não custava nada”, reclamou Vanessa Santos Silva, 31 anos. Ela acompanhava o marido Marcos Alexandre, que nem conseguiu falar com a reportagem por causa dos sintomas que sentia. “Ele perdeu o paladar, está com dor no corpo, dor de cabeça e teve falta de ar a noite toda”, descreveu a esposa. O casal chegou no local às 9h40. Ao meio-dia sequer tinham passado pela triagem.  

Dados  
Até esse domingo (21), os gripários de Salvador realizaram 12,6 mil atendimentos de pessoas com sintomas da covid-19. É desses locais que os pacientes da capital baiana são regulados para serem internados em leitos clínicos ou de UTI em hospitais da cidade, que também recebem pacientes do interior baiano. Até às 18h da segunda, a taxa de ocupação dos leitos de UTI em Salvador era de 82%, sendo que cinco unidades hospitalares estavam completamente lotadas: Itaigara Memorial, Hospital Português, Maternidade Professor Jose Maria De Magalhaes Neto, Hospital Municipal e Hospital do Subúrbio.  

Esse último era o local onde estava internado Armando Cunha Cajazeira, 65 anos. Ele morreu nessa mesma segunda-feira, segundo as filhas Amanda e Gabriela Cajazeira, que foram até o hospital para fazer o reconhecimento do corpo. “Ele ficou internado aqui por 16 dias. Quando chegou, a saúde ainda não estava esse caos, a não ser os gripários que já estavam ficando lotados. Mas aqui a assistência que nós recebemos foi ótima, mesmo com a lotação”, disse Amanda, que levou o pai para o gripário dos Barris.  

“Quando demos entrada, por volta de 12h30, tinha cerca de 150 pessoas na frente para serem atendidos. Mas quando foi 17h ele passou na frente de todo mundo, pois estava com muito desconforto respiratório. Viram que a situação estava grave. Um dia depois foi regulado para cá e logo depois intubado. A esposa dele também o tinha acompanhado nos Barris e ela só saiu de lá umas 22h”, completou. 

Coincidentemente, foi tambem por volta das 12h30 que Tamara Jesus, 32 anos, chegou no gripário dos Barris com o seu marido nessa segunda-feira. Lá ela pegou a ficha 198, mas o atendimento ainda estava no número 50, o que dá 148 pessoas na frente. O marido preferiu voltar para casa e ficar sem atendimento. “Eu vou ter que ficar, pois foi o próprio pessoal da empresa que mandou eu vir. Estou com tosse, dor na pálpebra e corpo dolorido. Faltei meu dia de trabalho para isso”, disse.  

Essa questão trabalhista era compartilhada por várias pessoas que estavam no gripário. Vanessa Lidia, 34 anos, estava com dor de cabeça, coriza e sem o paladar. Ela admite que, se não fosse pelo seu local de trabalho – uma clínica de saúde particular -, preferiria ficar em casa, mesmo com os sintomas. “Eu tenho que estar 100% para trabalhar lá e não posso perder o emprego. Mas esse caos na saúde assusta muito”, conta.  

Vanessa preferiu sentar afastada da maioria das pessoas no gripário dos Barris (Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

Cristiane Batista, 34 anos, compartilha dessa ideia. Ela trabalha num shopping da capital baiana e acredita que tenha se contaminado no transporte público. Para ir de Fazenda Coutos até o gripário dos Barris ela foi de ônibus. “Nossos coletivos estão sujos e lotados. A própria população também não respeita. Acho que tinham que fazer medidas mais severas, pois tem muita gente relaxada, infelizmente”, defende a moça, que sentia dor de cabeça, no corpo, coriza e cansaço. Sentada no chão do gripário, sua aparência era visivelmente abatida. “Tenho fé que vou melhorar. Vamos sair dessa”, diz confiante.  

Fé de que vai melhorar é o que sustenta Cristiane (Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

Privados  
Não é só o setor público de saúde que sofre com a pandemia. Nessa segunda-feira, alguns hospitais particulares de Salvador e Lauro de Freitas ultrapassaram a marca dos 90% de ocupação dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes com Covid-19. Alguns como o Hospital da Bahia, Aeroporto e Jorge Valente atingiram 100% de ocupação. A realidade está tão difícil que tem pacientes com planos de saúde indo procurar o setor público de atendimento, segundo o prefeito Bruno Reis. “[Eles] não estão conseguindo hospital e estão vindo para as nossas unidades”, contou o prefeito.  

Já os hospitais Santa Isabel, Português e Teresa de Lisieux atingiram, respectivamente, 95%, 87% e 85% de ocupação, segundo informado ao CORREIO. Os hospitais Aliança, Cardiopulmonar e São Rafael também foram procurados, mas não responderam. No entanto, segundo apuração do G1 Bahia, a ocupação nessas unidades de saúde é de 97% no São Rafael, 95% no Aliança e 90% no Cardiopulmonar.  

“A gente percebe que o perfil de gravidade está maior e isso assusta muito. Apesar da gente já ter um tempo vivendo essa realidade, nos deparamos com algumas surpresas. A sensação é que o vírus está infectando mais e deixando as pessoas mais doentes”, disse uma profissional de saúde que trabalha num hospital privado com 100% de ocupação nos leitos de UTI. “Estamos com cirurgias eletivas sendo suspensas e leitos sendo de última hora transformado em UTI para dar suporte aos pacientes internados”, conta.  

O coordenador de infectologia do Hospital Aeroporto, Antonio Bandeira, confirmou que a unidade está com 100% de ocupação nos leitos de UTI e em situação complicada. “Estamos vivendo uma nova fase com crescimento de casos. As unidades de saúde estão sobrecarregadas. Nos hospitais privados elas já vinham sendo pressionadas há duas semanas. Os casos de covid-19 não param de chegar. As emergências estão sobrecarregadas, recebendo casos graves que acabam não conseguindo ser absorvido nos leitos de UTI e tendo que receber suporte de oxigênio na própria emergência”, disse em vídeo gravado para as redes sociais do hospital.  

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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