'Pessoal agindo normal': Cidades vizinhas de onde variante Delta chegou ignoram a cepa

bahia
31.08.2021, 05:00:00
Clima em vizinhas de cidades onde variante Delta foi confirmada não mudou (Paula Fróes/CORREIO)

'Pessoal agindo normal': Cidades vizinhas de onde variante Delta chegou ignoram a cepa

Rotina permanece a mesma em cidades próximas a Vereda e Feira de Santana, dizem moradores

É dia de feira livre no centro de Medeiros Neto, no extremo-sul da Bahia. A movimentação no centro cresce desde a manhã e a população está dividida entre aqueles que usam ou não a máscara de proteção. A variante Delta do Sars-CoV-2 (o coronavírus que causa a infecção covid-19) está a 27 minutos de carro, no município de Vereda, mas é como se estivesse a centenas de quilômetros de distância. 

A Bahia registrou quatro pessoas diagnosticadas com a Delta desde o dia 26. Dois tripulavam um navio, o terceiro tem 29 anos e mora em Vereda e o outro tem 52 anos e vive em Feira de Santana. Ambos não estavam vacinados, mas não tiveram sintomas graves. Nas cidades vizinhas a Vereda e Feira de Santana, nada mudou para os moradores.

A Delta foi detectada pela primeira vez em outubro de 2020, na Índia, e é classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como “variante preocupante”, por ter a possibilidade de reinfectar quem já teve covid-19, escapar da cobertura vacinal e ser mais transmissível que outras cepas do coronavírus, segundo estudos preliminares. 

Os bares e lanchonetes de Medeiros Neto, vizinha a Vereda, estão abertos, as festas ainda não acontecem, mas há aglomerações e a crença de imunização coletiva contra a covid-19. “O pessoal está agindo normal, por aqui está sossegado”, contou Heloisa Medeiros, 20 anos, moradora do município. Como trabalha numa farmácia, todos que entram lá são obrigados a usar máscara. “Não fiquei com medo”, disse.

A secretária municipal de Saúde de Medeiros Neto, Júnia Garcia, disse que a principal estratégia para evitar casos da variante Delta na cidade é incentivar a vacinação e fortalecer informações sobre medidas de prevenção

Em Vereda, ruas foram higienizadas e barreiras sanitárias montadas. Ao longo do dia, carros de som alertam moradores sobre a necessidade de manter medidas de higiene e distanciamento social. Duas pessoas que tiveram contato com o morador infectado testaram positivo para a covid-19, mas ainda não é possível dizer se a contaminação foi pela Delta. Já em Feira, não houve mudança nos protocolos de segurança, respondeu a Secretaria Municipal de Saúde, o que só deve ocorrer por meio de decreto. 

A cidade de Teixeira de Freitas está a uma hora de Vereda e é a maior vizinha da região. A rotina também segue inalterada desde a confirmação do primeiro caso da Delta. A Secretaria de Saúde Municipal da cidade tem alertado a população sobre a proximidade da cepa, que é ignorada por parte dos moradores, e pretende montar barreiras sanitárias e realizar um dia D de vacinação. 

“Acredito que muita gente já perdeu o medo. Inclusive escuto jovens ainda pensando que essa doença só é perigosa para idosos. É como se não tivesse ocorrido nada”, disse Luiza Barreto, 24, estudante que mora no centro de Teixeira, e não viu qualquer mudança no dia a dia local.  

A secretária de Saúde do Estado da Bahia em exercício, Tereza Paim, anunciou, na sexta (27), a realização de rastreamento e testagem em massa em municípios afetados e exame de sequenciamento em pessoas com covid-19 que estão internadas em Unidades de Terapia Intensiva (UTI).

Situação de Feira de Santana preocupa

Nas cidades mais próximas a Feira de Santana, há quem ainda não saiba da confirmação do primeiro caso da cepa Delta. “Para falar a verdade, eu não estou nem sabendo disso”, afirmou uma moradora de Conceição de Feira. Mas ela não vê surpresa na falta de reação da população diante da variante. "As pessoas agem como se não estivéssemos vivendo uma pandemia. Sempre foi assim".

O prefeito de Feira, Colbert Martins, disse que o homem infectado morava sozinho e não tinha o costume de usar máscara, ainda que trabalhasse em estabelecimento comercial, onde essa utilização é teoricamente obrigatória. As pessoas que tiveram contato com ele são monitoradas, mas não houve confirmação de novos casos

O fato de Feira de Santana ser ponto de passagem quase obrigatório para se locomover pelo estado preocupa. Segundo explica a infectologista e pesquisadora da Fiocruz Fernanda Grassi, é apenas questão de tempo para a variante Delta ser identificada, por exemplo, em Salvador.

Em julho de 2020, o comitê científico do Consórcio Nordeste classificou Feira como um polo irradiador do coronavírus na Bahia, por ser um dos principais centros de distribuição de mercadorias e de fluxo de pessoas do estado. "Onde a variante Delta chegou, ela predominou e isso é o que estamos observando no Rio de janeiro e São Paulo", comparou Fernanda.

Como a minoria da população baiana - e brasileira - está vacinada com as duas doses, que oferecem uma proteção maior contra a Delta, o temor é ainda maior. "A maior parte das pessoas não está protegida. Isso precisa ser dito. A gente também precisa incentivar o uso de boas máscaras, como a PFF2", frisou.

O professor e escrivão Ronaldo Sérgio Silva dos Santos, 53, mora em Santo Estevão e trabalha em Antônio Cardoso, duas cidades vizinhas à Feira. Depois da confirmação do primeiro caso da variante Delta em Feira, não notou mudança entre os moradores. Na verdade, percebe, a cada dia, um relaxamento. “Uma grande maioria parece viver em plena normalidade, promovendo eventos, esquecendo de medidas preventivas”.

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