P/L? DY? P/VPA? Entenda de uma vez as siglas do mercado de ações

economia
12.06.2021, 05:16:00
As siglas podem assustar, mas são fáceis de entender (Mikael Blomkvist / Pexels)

P/L? DY? P/VPA? Entenda de uma vez as siglas do mercado de ações

Já abriu um site de ações e não entendeu nada? Calma, não é tão complicado assim

Quem já abriu um site de análises fundamentalistas de ações certamente se surpreendeu com algumas siglas aparentemente bem técnicas. Afinal, o que é P/L? E aquela sigla P/VPA? E que tal esse termo em inglês: dividend yield?

Calma, investidor: no mundo do mercado financeiro, é preciso dar um passo de cada vez. Aqui, na série do CORREIO voltada para quem está iniciando a sua trajetória, você já entendeu as diferenças entre as análises fundamentalista e técnica.

Também fizemos um bom apanhado de sites – alguns gratuitos e outros pagos – que trazem uma coleção de informações administrativas e financeiras sobre as companhias que estão vendendo as suas ações na Bolsa de Valores brasileira, a B3.

E não se esqueça: como muitos especialistas já apontaram nessa série, é fundamental que você consulte um analista ou assessor de investimentos antes de tomar qualquer decisão. Mas, faz bem se informar o máximo possível, até para que a consulta seja em alto nível.

Nesse capítulo, mais uma da série do CORREIO voltada para investidores iniciantes, vamos dar mais um passo. Hora de conhecer o significado de algumas dessas siglas e termos. Afinal, todos são fundamentais para uma boa análise das ações que você deseje comprar.


De onde vêm?

Por regra, todas as empresas de capital aberto – ou seja, aquelas que vendem ações na Bolsa de Valores – do país precisam divulgar, com uma determinada frequência, as informações sobre a sua saúde financeira.

Essas informações são apresentadas em documentos contábeis, conhecidos como balancetes (quando são referentes a períodos mais curtos) e balanços patrimoniais (quando se referem ao exercício de um ano inteiro).

Através desses balanços e balancetes, o público interessado pode entender como está a taxa de lucro da empresa, qual é a receita geral dela, quais são as obrigações, quanto ela tem de dívidas, qual o seu patrimônio geral e muitas outras informações.

A cada trimestre, as empresas listadas na bolsa brasileira divulgam balancetes aos acionistas e investidores interessados. Esses documentos podem ser encontrados no site da própria B3, que já divulgamos aqui, ou na sessão de relacionamento dos sites das empresas.


Como funciona?

Há coisa de 10 anos, se você estivesse interessado nas ações de uma empresa, teria que passar por um longo processo para analisa-la.

Primeiro, teria que pegar esses documentos impressos em algum jornal, na própria empresa ou na Bolsa de Valores. Daí teria que levar a um especialista para que ele realizasse uma série de cálculos, e assim produzisse uma planilha com informações fundamentalistas.

Tudo isso para o caso de uma única empresa e tendo em mãos o balancete de um determinado período. Se quisesse analisar mais de uma empresa e ao longo de anos, teria que recolher, de maneira sistemática, esses documentos e repetir o processo.

Mas, que maravilha é a internet, não é mesmo? Hoje em dia, graças à tecnologia de acúmulo e processamento de dados, existem vários sites que já oferecem essas planilhas fundamentalistas prontas para você. De graça.

Portanto, se você quiser analisar uma empresa em que está interessado, basta acessar esse site. Os indicadores da análise fundamentalista já estarão lá, prontos. E se por acaso a empresa publique um novo balanço, eles serão atualizados quase que instantaneamente.


O que são?

Basicamente, a partir dos balanços e balancetes, é possível calcular e estabelecer dois tipos de indicadores fundamentalistas sobre as empresas.

Os chamadores indicadores de balanço são justamente aqueles calculados apenas com os dados fornecidos pelos documentos contábeis. São cruzamentos para entender como está o fluxo de caixa, o índice de endividamento sobre o patrimônio, entre outros aspectos.

Quando você cruza esses dados do balanço com as informações da Bolsa de Valores, você obtém os chamados indicadores de mercado. Por exemplo: qual é a relação entre o preço da ação de uma empresa com a sua taxa de lucro?


Como se apresentam?

Os indicadores de balanço ou de mercado são inúmeros. Para facilitar, vamos separá-los. Neste capítulo, vamos analisar cinco deles, considerados os mais essenciais para quem está dando os primeiros passos no mundo das ações.


P/L

Talvez o mais básico dos básicos, o P/L (chamado oralmente de “PL”) indica a relação entre o preço da ação negociada na B3 sobre (ou seja, divido por) o lucro líquido da empresa por ação que é negociada.

Ok... Mas o que isso diz para o investidor? O P/L mostra a proporção entre o valor que o mercado está agregando àquela empresa (o preço da ação) e o quanto ela está obtendo de sucesso na sua operação (lucro líquido).

Mas, também, pode mostrar em teoria quanto tempo o investidor precisa aguardar para reaver seu capital investidor. Em outras palavras: se eu comprei uma ação por R$ 10 e aquela empresa obtém R$ 2 de lucro líquido a cada ano para cada ação que ela negociou, quanto tempo eu demoraria para reaver meu capital investido? Cinco anos.

Só que tem uma observação: o P/L considera que a empresa distribui 100% dos seus lucros aos acionistas e que continuará com aquela taxa de lucro atual ao longo dos próximos anos.

Pois é... Infelizmente, nenhum indicador é 100% assertivo. Nesse caso do P/L, ele não considera o potencial de valorização da empresa – que pode aumentar tanto o preço da sua ação como o lucro dela.

Também não considera a taxa de reinvestimento do negócio, ou seja, a parte do lucro que a empresa aplica nela mesma para expandir-se, adquirindo novos equipamentos, contratando mais gente e por aí vai.

O que importa?

Em teoria, uma empresa com P/L alto representa uma ação mais cara, pela qual o investidor levaria muito tempo para recuperar o capital que investiu. Por isso, alguns analistas preferem empresas de P/L baixo.

Porém, entenda: algumas empresas com altíssimo potencial de crescimento, como as chamadas small caps – que você já conheceu nessa matéria – não possuem uma taxa de lucro tão alta. Justamente porque o objetivo delas é redirecionar seus lucros para expandir o negócio.

Sendo assim, essas small caps aparecerão como empresas com um P/L muito alto. E, apesar de inicialmente e em teoria não serem interessantes, é justamente o contrário.

De qualquer forma, é possível interpretar assim: o P/L alto pode indicar que o mercado tem altas expectativas sobre o crescimento daquela empresa a longo prazo. Por isso, estão jogando o preço da ação lá para o alto, apesar do lucro atual ainda ser baixo. Entende?

Da mesma forma, o P/L baixo pode indicar que o mercado está com expectativas ruins sobre a empresa, de que ela não vá manter os lucros atuais, por exemplo. Por isso, estão baixando o preço da ação apesar do lucro atual ainda ser alto.

Bom, e qual referência seguir, mais ou menos? Alguns analistas dizem que, se uma ação for negociada por mais de 20 vezes seu lucro líquido (ou seja, um P/L acima de 20) ela é considerada cara demais e teria que se observar o seu histórico de lucro líquido para ver se vale a pena.

Da mesma forma, uma empresa que tenha um preço de menos de três vezes o seu lucro líquido (ou seja, um P/L menor do que 3) pode ser considerada excessivamente barata, e isso talvez represente que ela tem problemas graves e um descrédito do mercado.

Para ser mais assertivo, faz bem o investidor observar o histórico de lucro líquido das empresas, que são apresentados em planilhas ou em gráficos no sites de análise fundamentalista que já foram citados por aqui.


Dividend Yield (DY)

Esse termo em inglês significa algo como ‘cessão de dividendos’. Ou seja, é uma relação percentual entre o valor que o investidor paga para obter uma ação da empresa e o que ele recebe, na prática, como dividendos e juros sobre capital próprio.

Lembre-se: dividendos são valores pagos pelas empresas aos seus acionistas, calculados de forma proporcional sobre os lucros da companhia. E juros sobre capital próprio são espécies de prêmios pagos aos acionistas e decididos em assembleia geral.

Em outras palavras: se uma ação está sendo negociada na bolsa por R$ 100 e a empresa daquela ação pagou aos acionistas R$ 10 de dividendos nos últimos 12 meses, qual o dividend yield? 10%. Ou seja, 10 dividido por 100.

O que importa?

Um dividend yield (DY) alto, em teoria, mostraria uma empresa que oferece retornos altos e em curto prazo para o investidor que procura ser beneficiado com proventos.

Porém, esse indicador não é necessariamente um bom indício para quem está procurando uma empresa para investir a longo prazo.

É bom lembrar que pequenas empresas, como as chamadas small caps, têm como objetivo reverterem seus lucros, quase que em totalidade, para a expansão do próprio negócio. Adquirindo mais equipamentos, contratando mais funcionários, abrindo mais lojas etc.

Portanto, empresas com esse perfil, que geralmente são as de maior potencial de crescimento de mercado, possuirão um DY muito baixo. Simplesmente, porque não priorizam o pagamento de proventos aos seus acionistas.

O objetivo de empresas com esse perfil agressivo, de reinvestimento dos seus lucros, é premiar os seus acionistas a longo prazo. Ou seja, com a expansão dos negócios, as ações negociadas na Bolsa de Valores serão valorizadas. E, no futuro, seus donos poderão lucrar com a venda delas.

Empresas que apresentam um alto dividend yield geralmente são aquelas chamadas por Blue Chips ou Large Caps. São as companhias que já atingiram um estágio elevado de maturação e de domínio do mercado em que atuam.

Por não terem mais um espaço de crescimento tão grande e por já obterem altos lucros, essas empresas podem, sim, distribuir dividendos maiores. Assim, seus acionistas não serão tão premiados pela valorização das ações.


P/VPA

Basicamente, o P/VPA indica a relação entre o preço da ação negociada na bolsa sobre (dividido por) o patrimônio líquido por número de ações emitidas pela empresa.

Difícil de entender? Vamos por partes. O patrimônio líquido é um conceito contábil, referente à diferença entre todos os ativos e todos os passivos da empresa.

Ativos são todos os bens e direitos de posse da empresa. Ou seja, os imóveis, os veículos, os equipamentos, o dinheiro em banco ou a receber. Já os passivos são todas as obrigações que a empresa possui: salários a pagar, alugueis, impostos, dívidas e por aí vai.

Ou seja, o patrimônio líquido é tudo o que a empresa de fato tem, o quanto ela vale de forma intrínseca.

A sigla VPA representa esse patrimônio líquido da empresa dividido por cada ação que ela negociou na bolsa. Em outras palavras: se uma empresa tem patrimônio de R$ 100 mil e negociou 1 mil ações, cada ação faz referência a R$ 100 do patrimônio líquido dela.

Sendo assim, o VPA seria o valor esperado que a empresa teria na bolsa, já que é uma referência direta entre a quantidade de ações que ela vende e o patrimônio real que a companhia possui.

Portanto, o P/VPA é uma comparação do quanto ela está sendo vendida de fato na Bolsa de Valores (o preço de cada ação) pelo valor que ela de fato possui de patrimônio.

O que importa?

O P/VPA é uma boa indicação de quanto a ação está sendo sobrevalorizada ou não pelo mercado em geral. Afinal, é uma comparação direta entre o valor atribuído à empresa na Bolsa de Valores e o valor real dela através dos balanços contábeis.

Se esse índice é igual a 1, representa que a empresa está sendo negociada exatamente pelo valor que ela vale. Se for menor do que 1, o mercado está pagando um preço inferior ao seu patrimônio líquido. Se for maior do que 1, o mercado está aceitando pagar mais pelo patrimônio da empresa.

Mais uma vez, esse indicador não leva em consideração a perspectiva de crescimento futuro e de valorização da companhia, o que é algo fundamental. Não é incomum encontrar ações que estão sendo negociadas muito acima do seu patrimônio líquido.

Quando isso acontece, ou seja, quando o P/VPA é alto, pode indicar que o mercado tem uma expectativa alta sobre aquela empresa, de que ela pode obter lucros e crescimento constante a longo prazo.

Por isso, é fundamental para essa análise considerar o histórico do patrimônio líquido das empresas, algo que também está presente em várias planilhas e gráficos disponibilizados nos sites de análise gratuitos e pagos.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas