Polícia investiga se homem que decapitou esposa foi vítima do Tribunal do Crime

salvador
17.05.2022, 19:01:00
(Arisson Marinho/CORREIO)

Polícia investiga se homem que decapitou esposa foi vítima do Tribunal do Crime

Caso aconteceu na região do Vale das Pedrinhas

Wellington Ribeiro Luís e Cristiane moravam há dois meses no Vale das Pedrinhas, um dos bairros do Complexo do Nordeste de Amaralina. Na noite desta segunda-feira (15), durante uma briga, Wellington decapitou a esposa. Ele foi morto logo em seguida por traficantes armados de fuzis e metralhadoras, que entram no imóvel, executaram Wellington e o deixaram ao lado corpo da mulher. A polícia investiga se é mais um caso ligado ao "tribunal do crime".

Essa é uma das hipóteses para a morte de Wellington. De acordo com um policial civil que atua na região do Nordeste de Amaralina, essa possibilidade é levantada em casos de crime onde alguém faz "justiça com as próprias mãos".

No caso específico do complexo, onde há forte atuação de uma facção criminosa, é comum esse tipo de retaliação a quem comete crimes como os de Wellington contra Cristiane, já que isso acaba atraindo policiais para a região. 

"Quando alguém faz algo que possa trazer as forças de seguranças para os locais onde eles costumam agir, eles resolvem aplicar agressões, intimidações, expulsar moradores, tomar casas, e em último caso, situações extremas, como punição que vem em forma da morte dos envolvidos. A rua onde o casal morava é uma 'boca-de-fumo' muito movimentada, então trabalha-se com essa hipótese (de Wellington ter sido morto pelo tribunal do crime)", explica o policial, que preferiu anonimato.

"Imagina quando os caras deixaram de faturar ontem à noite por causa dessa morte?", emendou ele. O crime aconteceu na Travessa Langor, Rua Raimundo Viana.

Outra pista que indica que Wellington pode ter sido julgado pelo conhecido "tribunal do crime" é o fato de que ele tinha marcas de facadas e tiros pelo corpo.

"Muito provavelmente ele foi julgado e condenado, digamos, a sofrer na mesma intensidade que a mulher antes de morrer, por isso tanta demonstração de agressividade. O 'tribunal do crime' é assim: 'olho no olho, dente por dente'", completou o policial. 

Apesar dos indícios, ainda não é possível afirmar que o caso se trata realmente de uma vítima do tribunal do crime. A investigação está em fase inicial, segundo informa a Polícia Civil. 

Em nota, o órgão informou que a Delegacia de Homicídios (DH/Atlântico) investiga a morte de Wellington e Cristiane. "Conforme informações iniciais, o casal estava discutindo, e ele efetuou golpes de arma branca na mulher que morreu no local. Logo após o feminicídio, um grupo armado efetuou disparos de arma de fogo contra o homem que também não resistiu", diz nota.

Já a Secretaria da Segurança Pública disse que "dispõe de diversos canais para a comunicação de crimes de qualquer natureza, inclusive de forma anônima, para que a população possa atuar ao lado das polícias na elucidação dos casos". Acrescentou ainda que, sobre as duas mortes registradas no Vale das Pedrinhas, "as investigações estão em fase inicial e que a Polícia Civil está empenhada em esclarecer a dinâmica dos crimes, a relação entre os homicídios, os autores envolvidos e se há a participação de algum grupo criminoso na ação".

Facção domina o Nordeste
O complexo do Nordeste de Amaralina é formado por quatro bairros (Santa Cruz, Nordeste, Chapada do Rio Vermelho e Vale das Pedrinhas) e é quartel-general da facção Comando Vermelho (CV) na Bahia. "Os moradores têm conhecimento que têm que respeitar as regras. Além de não atrair a atenção da polícia, que é a principal determinação deles, todos têm que deixar as portas das casas abertas, para que eles possam se abrigar em caso de perseguição com a polícia. Esses casos de fazer refém é por conta disso", completou o policial. 

O Comando Vermelho se estabeleceu na Bahia a partir de aliança com o extinto Comando da Paz (CP). Territórios antes dominados pelo CP passam a ser área do CV, inclusive o complexo do Nordeste de Amaralina.

A aliança entre a CP e o CV não surgiu somente do interesse da organização carioca. Os traficantes Joseval Bandeira, o Val Bandeira, e Leandro Marques Cerqueira, o Leandro P, queriam há bastante tempo eliminar o líder da facção Ordem e Progresso (OP), Thiago Adílio dos Santos, o Coruja. Apesar de terem o CV como fornecedor de armas e drogas, a CP e a OP são rivais – a OP é uma dissidência da CP e tem o controle do tráfico na Liberdade, Iapi, Cidade Nova, Santa Mônica e Sieiro. Todos esses bairros já foram um dia as principais áreas atuação do CP fora do complexo do Nordeste de Amaralina, quando ainda o seu principal fundador, o traficante Éberson Souza Santos, o Pitty, estava vivo – ele morreu em 2007 num confronto com polícia. 

"Com essa nova formação, tendo o CV à frente de tudo, os traficantes daqui passaram a copiar os métodos das organizações, que até então, eram de fora. Passaram a ser organizar mais, a pandemia foi um exemplo disso. A ideia de fazer o dinheiro girar do tráfico foi nos paredões, pois não se podia fazer festas por causa das medidas restritivas. Assim surgiu os tribunais do crime na Bahia. Essa prática era exclusiva do eixo Rio-São Paulo e hoje está no país inteiro", declarou o policial. 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas