Ponto H? Técnica promete turbinar vaginas para melhorar prazer masculino

entre
18.09.2021, 11:00:00
Atualizado: 18.09.2021, 11:32:29
Colagens de Quintino Andrade com Creative Commonses

Ponto H? Técnica promete turbinar vaginas para melhorar prazer masculino

Inexistente na anatomia feminina, região é criada para aumentar o prazer do homem; médicas desaconselham

Em julho, apareceu a primeira paciente interessada. Depois, vieram mais sete. Todas perguntaram: “Faz o ponto H?”. “Elas já chegam falando: aquele ponto na parede da vagina, doutora”, conta a ginecologista Ana Cristina Batalha. O chamado ponto H não existe na anatomia original da mulher. Ele é construído, na parede posterior da vagina, para, teoricamente, dar maior prazer sexual ao homem.

“Acho complicado vender orgasmo e que, nesse caso, nem será o seu”, critica a médica.

O ponto H surge com  pontilhados criados pela aplicação de ácido hialurônico na parede exterior da vagina. A promessa é de que essas pontinhas artificialmente colocadas por até R$ 2 mil aumentariam a fricção do pênis com a vagina e, assim, o prazer durante o sexo. Mas, só o do homem. Para elas, não há diferença. Em consultórios baianos, as interessadas pelo ponto H começaram a aparecer em julho.

“Benefício para a mulher, nenhum. Alguém vai injetar algo no pênis deles?”, questiona Cristina. As oito pacientes que a procuraram ouviram dela: “Não faço”. “E tento convencer que não vale a pena”, completa a médica.

A aplicação de ácido hialurônico é permitida sob indicação médica. Neste caso, o  composto é utilizado em áreas íntimas com ressecamento ou flacidez, por exemplo. “Dentro da vagina, para esse fim [ponto H], não indico e nem acho saudável”, aconselha Batalha.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia vai na mesma direção, como sugere uma cartilha divulgada em 2018: “prometer a “perfeição” e garantir que isto vai melhorar a vida sexual é uma farsa”. Sobre o ponto H, ainda não há nenhum direcionamento. O Conselho Regional de Medicina da Bahia respondeu que não se manifestaria, pois desconhece o assunto. 

Há o risco de fibrose permanente 
Há um perfil comum entre as mulheres que buscam o ponto H: são mais ‘experientes’. E a primeira pergunta que Márcia Cunha, ginecologista e presidente da Sociedade Baiana de Ginecologia, faz a quem a procura: “Por que você está buscando esse método?”. As respostas são desde agradar o namorado ou marido a aumentar a performance sexual delas.

“Às vezes, o que falta é autoestima e muitas mulheres acham que vão resolver a parte sexual dessa forma”, opina Cunha

A vagina é uma região bastante vascularizada, enervada e repleta de bactérias. O ácido hialurônico é uma substância inerte, mas o furo com agulhas pode atingir vasos, gerar sangramentos,  hematomas e levar a fibroses permanentes. O processo  precisa ser repetido a cada seis meses, tempo de absorção do ácido pelo corpo.

A Sociedade Baiana de Ginecologia é contra o procedimento. Até o surgimento do ponto H, a moda da vez era o ponto G: aplicação de 1 ml de ácido hialurônico a 4cm da entrada da vagina, na região superior, para deixá-la maior.

A busca pela vagina estética
A busca pelo ponto H vem acompanhada da popularização da cosmetoginecologia - ramo que utiliza tratamentos estéticos relacionados à vagina. Há casos em que a hipertrofia dos lábios íntimos, por exemplo, pode levar a processos infecciosos ou que o alargamento vaginal após o parto compromete a vida sexual da mulher. “Existem técnicas que são feitas para a parte anatômica e fisiológica, caso a mulher tenha algum problema”, alerta Cunha. 

Em 2018, ano do último levantamento, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica apontou que 25 mil intervenções íntimas foram realizadas no país.

“Há uma ideia de que procedimentos como o ponto H vão melhorar a vida sexual, mas não é isso. É uma questão de entender o relacionamento, o emocional”, opina a ginecologista e sexóloga Jaqueline Maia Ferraz, que atende em Vitória da Conquista e recebeu quatro pacientes curiosas sobre o assunto. 

A questão, no caso desse ponto, não é só estética. “A objetificação e sexualização são voltadas ao prazer masculino, mulheres têm só os consultórios como locais onde podem falar sobre vagina”, diz Marcelle Jacinto da Silva, professora na Universidade Federal do Ceará, onde apresentou a tese de doutorado Estudo Sociológico da Produção Discursiva sobre Autoestima Vaginal e Empoderamento Feminino.

O padrão da “vagina perfeita” - com lábios externos pequenos e rosada - reflete, segundo Jacinto, “racismo, pedofilia e machismo”. E o ponto H, que ela desconhecia, reforça, mais uma vez, o “prazer masculino”:

“Uso o termo autoestima vaginal, que não quer dizer só sobre como você se vê, mas como o outro te vê, como o outro te interpreta”.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas