Poupança? Que nada, idosos se arriscam na bolsa; veja dicas de onde investir

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12.12.2021, 07:00:00
(Pixabay)

Poupança? Que nada, idosos se arriscam na bolsa; veja dicas de onde investir

Aplicações audaciosas chamam atenção de aposentados que visam receita maior

Poupança é, definitivamente, coisa do passado para quem quer fazer o dinheiro render. E isso vale para todos os investidores. Seguindo o fluxo dos brasileiros que estão descobrindo o potencial das aplicações financeiras diversificadas, o público com mais de 60 anos equivale, hoje, a 10% das pessoas físicas com ações na B3, a bolsa de valores brasileira, de acordo com dados da própria instituição.

A região Nordeste apresenta alta de 400% no número de investidores em comparação aos dados de 2018.  Mas outro dado chama a atenção: segundo informações da iHUB Investimentos, cerca de 61% dos idosos que investem na bolsa têm perfil arrojado, ou seja, aceitam correr riscos maiores para obter retornos mais atraentes.

É o caso de Antônio Hermano Junior, 66 anos, engenheiro aposentado. Ele optou por diversificar a carteira com operações mais arriscadas, como renda variável e ações na bolsa.

“Naturalmente existem riscos, tanto nas operações como nas ações. Ano passado as ações que eu comprei caíram para quase a metade do valor, só depois consegui recuperar. Mas esperei dois anos, tracei uma estratégia para comprar mais ações e baixar o valor médio até conseguir o retorno. É um segmento que tem risco, sim, mas você pode ter um ganho diferenciado em relação a outros tipos de investimento mais conservadores”, explica.

O planejador financeiro CFP Raphael Carneiro alerta que investimentos arrojados são mais indicados para investidores que, como Antônio, têm carteira diversificada. Antes de partir para o investimento de risco, o foco deve ser garantir a preservação do patrimônio, especialmente para quem está começando a investir agora.

“Não é regra, tem investidor 60+ que tem patrimônio grande e pode fazer investimento de risco. Mas quem nunca investiu na bolsa não é a hora de buscar dobrar o patrimônio, é preservar o patrimônio. Muitas dessas pessoas já estão aposentadas e encontrariam dificuldade de repor o valor caso percam em investimentos muito arriscados. O principal passo é manter o que foi conquistado ao longo da vida laboral e potencializar o rendimento”.

Sonia Simon, 68, seguiu essa dica à risca. De perfil mais conservador, a professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) só buscou uma alternativa à poupança quando percebeu que o rendimento já não compensava o baixo risco.

“Busquei meu filho mais velho, que é engenheiro e entende muito mais de investimentos do que eu, para me ajudar. Ele fez todas as contas, as projeções, indicou uma carteira para mim com investimentos em médio prazo, principalmente com títulos públicos, que têm boa liquidez e baixo risco. Depois comecei a diversificar mais com fundos, fiz uma cesta de investimentos numa corretora e apliquei por dois anos”, disse.

“Não tem como fazer esse valor se perder, não pode ser um risco alto. A gente não sabe quanto tempo vai viver, depois dos 60 pode ter até mais 20 anos, não sabemos como será a saúde… Não dá para arriscar perder o dinheiro porque não vai ter energia, emprego, para repor. É preciso ter essa segurança no que está investindo”, completa.

Sonia Simon diversifica investimentos, mas também mantém uma poupança

(Foto: Acervo Pessoal)

Educação financeira

A falta de conhecimento na área das finanças é um empecilho grande para os brasileiros. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), publicada no mês de novembro, 74,6% das famílias brasileiras estão endividadas. Além disso, apenas 58,7% dos brasileiros acima dos 60 anos têm algum tipo de investimento, e, quando têm, a poupança é a preferida para 90,1%.

A própria Sonia não abre mão da poupança. “Por causa da segurança e liquidez. É um dinheiro que é fácil de tirar, e como a rentabilidade melhorou, voltei a manter uma quantia lá”.

Na quarta-feira, o Banco Central reajustou a taxa Selic, que impacta o rendimento na poupança, para 9,25% ao ano, sétimo aumento seguido em 2021. Apesar disso, o economista e professor Edval Landulfo acredita que a poupança deve servir para reserva de emergência.

“É fundamental que investidores com mais de 60 anos tenham uma reserva de emergência, uma reserva de oportunidade e, também, uma reserva de projetos e sonhos. A reserva de emergência deve ser equivalente ao valor do salário ou renda mensal por seis meses ou um ano. Porque, se qualquer coisa acontecer, o dinheiro está na mão. A de oportunidade é para comprar um imóvel, um terreno. E de sonhos para realizar projetos pessoais”, enumerou.

Para o economista, é melhor priorizar títulos públicos ou fundos imobiliários que têm boa liquidez e, principalmente, segurança. “Estamos numa inflação de dois dígitos, a poupança não acompanha. E quando a gente tem uma carteira de renda fixa, como tesouro direto, ou LCI e LCA (Letra de Crédito Imobiliário ou Agronegócio) dá para ter um retorno interessante. Se organizando, gastando menos do que ganha e usando parte do dinheiro para investir, aos poucos você sai da reserva de emergência e migra para a reserva de oportunidade ou sonhos”.

Planejador Financeiro CFP Raphael Carneiro, orienta que antes de investir em ações, é importante conhecer bem o mercado

(Foto: Acervo Pessoal)

Evite cair em cilada

O perfil arrojado de boa parte dos idosos investidores na bolsa, citado no início da matéria, pode ser explicado, em parte, por falta de conhecimento e pressa por retornos financeiros maiores em menor tempo. E isso pode fazer com que o risco não compense.

“Para você começar a investir em ação, você tem que estudar e conhecer o mercado. Não acontece com um passe de mágica. E você tem que traçar estratégias também, senão o risco de perder o valor investido é enorme. E se perder o valor investido numa fase da vida em que você não tem facilidade para recuperar patrimônio ou construir novamente pode ser muito ruim”, explica Raphael Carneiro.

Edval enumera outras “ciladas” para evitar na hora de aplicar dinheiro: “Investimentos que aparecem com taxas muito atrativas de retorno são normalmente golpe ou pirâmide, que são ilegais. Estamos com uma inflação alta, dificuldade de crédito no mercado e demanda reprimida, qualquer retorno prometido acima de 1% é suspeito”.

Para quem, ainda assim, se sente seguro para investir de forma mais arrojada, Antônio divide a receita que serviu para ele. “Tenho previdência, tenho títulos públicos. Uma parte vai para risco e a outra parte a gente vai manter a segurança, o que não dá é para colocar todos os ovos numa cesta só”.

Dicas de investimentos:

TÍTULOS DE RENDA FIXA

O que são?

Possuem prazo e o investidor já sabe o quanto terá de retorno caso espere até a data de vencimento. O rendimento pode ser prefixado, com uma porcentagem, ou atrelado a um índice, como Selic (taxa básica de juros), CDI (taxa interbancária) ou IPC-A (inflação).

Como assim?

Se você adquire, por exemplo, um título de renda fixa com prazo de um ano e retorno de 120% da Selic, ele vai te pagar ao final do ano 11,1% (ou seja, 120% da Selic, que hoje é de 9,25%)

Tesouro Direto

Trata-se de um ‘empréstimo’ da pessoa física ao Governo Federal, que pode pagar na data de vencimento ou a cada semestre. Têm a vantagem de oferecer títulos que pagam de acordo com o IPC-A, ou seja, o investidor não perde dinheiro para a inflação.

CDB

Certificado de Depósito Bancário, título que é emitido por bancos e instituições financeiras. Geralmente pagam uma porcentagem sobre o CDI, que é a taxa de juros entre os bancos.

LCA e LCI

Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) ou Imobiliário (LCI). O investidor ‘empresta’ dinheiro para que um desses setores econômicos financiem suas atividades. Também costumam ter títulos atrelados a uma porcentagem sobre o CDI.

Debêntures

São títulos de dívida emitidos por empresas privadas, porém geralmente de algum setor ligado à infraestrutura do país – transportes, energia elétrica, telefonia etc.

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