Pra quê tanto dever? Pandemia dobra tarefas para contraturno escolar

educação
23.05.2021, 07:00:00
(Foto: Shutterstock)

Pra quê tanto dever? Pandemia dobra tarefas para contraturno escolar

Seu filho também está sobrecarregado? Especialistas em educação e comportamento infantil alertam para excesso e impactos na aprendizagem

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O primeiro semestre ainda nem terminou, mas Alana de Almeida, 14 anos, já está exausta. “Só neste ano tive mais aulas de tarde do que tive na vida. A escola quer continuar como antes, mas esquecem que não estamos vivendo da mesma forma. Tudo se torna mais cansativo e fica difícil se manter motivada e aprender assim”, conta. Ela está cursando o 9º ano na modalidade remota. 

Oitocentas horas letivas estão dando conta de um currículo inteiro na pandemia? A pergunta ficou para ser respondida em casa. Após cinco horas acompanhando aulas virtuais, não dá para dizer a esses estudantes, que por hoje é só, quando a cobrança pesa mais que a mochila. Pais e alunos se queixam da quantidade dobrada de exercícios - e às vezes até triplicada - de tarefas enviadas para serem feitas em turno oposto.

A mãe de Alana e auxiliar de escritório, Monica de Almeida, reconhece o impacto da quantidade de atividades que a filha precisa dar conta. “Depois das aulas pela manhã, às vezes, ela termina em um horário considerável, porém, em alguns casos, minha filha fica até de noite fazendo o dever de casa. Para mim, essa quantidade se tornou excessiva. Ao levar o assunto para a coordenação, não mudou muita coisa. Apesar de oferecer assistência, sinto que a instituição quer fazer o ensino remoto como se as aulas fossem presenciais”.

No início do mês, a Prefeitura de Salvador autorizou que as escolas municipais e particulares reabrissem presencialmente adotando o esquema de ensino híbrido. A maioria dos pais, entretanto, optou por manter os filhos em casa.  A média de adesão ao presencial na rede municipal foi de apenas 2%, segundo um levantamento feito pela Secretaria Municipal de Educação (SMED). Na rede privada, o Sindicato das Escolas Particulares da Bahia (Sinepe-BA), estima que, na capital, a adesão da Educação Infantil e do Fundamental I foi de 70%, em média.  No Fundamental II e Ensino Médio, 20%. 

Poucas semanas após o retorno, algumas instituições como o Antônio Vieira, no Garcia, Escola Tempo de Criança, na Pituba, Clubinho das Letras, em Ondina, e a Escola Panamericana, em Patamares, suspenderam parcialmente as aulas, por causa do registro de casos de covid em alunos e professores. De fato, ainda não vai ser agora que as aulas online vão deixar de fazer parte da rotina das escolas, mesmo para quem optou por voltar às aulas presenciais.

Seja na modalidade virtual ou presencial, também não é o excesso que vai garantir aprendizagem, como assegura a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Infantil, Crianças e Infâncias (GEPEICI), Marlene Oliveira dos Santos. A especialista destaca que, muito pelo contrário: pode comprometê-la.

“O que ocorre com frequência em várias escolas é a replicação da modalidade presencial para a remota. Porém, a realidade é outra e isso requer uma atualização do currículo e das estratégias de trabalho desses conteúdos. Mais de um ano se passou e o espaço de casa se tornou espaço de estudo e a gente precisa reconsiderar isso. Não dá mais para sobrecarregar crianças e famílias que já estão assoberbadas”, opina.

Tamara Dias é mãe de Ana, 8 anos, que está cursando o 2º ano também na modalidade remota. Além das atividades do livro, vem pesquisa, trabalho, bloco de tarefas impressas e tudo mais o que for de atividade que a professora não consegue fazer no espaço da aula virtual. “Todo dia vem duas a três páginas de uma disciplina, mais duas páginas de outra matéria. Ana reclama do cansaço de que a ‘mão está doendo’ e é um desafio manter ela presa na mesma atividade por muito tempo”, conta. 

A casa pode ser um espaço de laboratório, como defende a especialista em Educação. “Ao invés do dever de casa tradicional, é fundamental trazer outras propostas que sejam também fontes de aprendizagem, como, por exemplo, as experiências que estão sendo vividas na pandemia. São experiências que o estudante pode compartilhar por vídeo, de forma escrita, áudio, portfólio e com isso, a escola trabalha os conteúdos a partir daí. Isso vale mais do que ficar preenchendo papel e está muito mais próximo do contexto que estamos vivendo”.

Faz sentido?
Na corrida do conteúdo, voltar para a sala de aula física não é garantia de menor quantidade de tarefas para fazer no contraturno.  Marcela Cintra tem 12 anos e está no 7º ano do Ensino Fundamental. Por dia, ela recebe seis tarefas para serem respondidas até a próxima aula.

“Sinto que a escola vai tentando suprir a falta das aulas presenciais com toda essa quantidade. Minha filha fica chateada, principalmente com a quantidade de exercícios de português e matemática. Vou tentando ser mais maleável”, afirma a mãe, Paula Cintra.

Assim que as escolas reabriram, ela optou pelo retorno presencial da filha. Na volta, uma surpresa: mais dever de casa. Marcela criou até meme e compartilha sempre que a professora pega pesado com as atividades: ‘vai com calma, meu anjo’, diz na figurinha. “Como ela vai um dia sim, um dia não, traz a tarefa do dia e daquele que não foi. Aumentaram, sim. Tomara que isso se normalize”, completa Paula.

É nesse ponto que é necessário acender o alerta para os efeitos da sobrecarga. Se a escola vai permanecer por um bom tempo em casa, as alternativas precisam ser mais colaborativas. Todas as transformações pelas quais ela passou no último ano, só confirmam que esse modelo do dever de casa, como era antes, não faz mais tanto sentido assim. A coordenadora do curso de Pedagogia da Unijorge, Cândida Andrade de Moraes, orienta que os pais escutem os estudantes para definir o ritmo.

“A tarefa complementar que já é intitulada ‘dever’ de casa pode ser também ‘negociada’, através de diálogo. Conversar com seu filho sobre o que sente com afeto e escuta sensível. Essa atitude ajuda a compreender o ritmo que é possível para cada um no momento”.

Nem toda tarefa de casa precisa ser aquele número grande de páginas que o aluno anota no diário.  Escolas como o Marízia Maior, em Stella Maris, chegaram a receber essas queixas ainda no ano passado, o que levou a instituição, que permanece 100% na modalidade online, a rever essa questão da quantidade de tarefas e reconhecer que não pode mais se limitar ao envio de um monte de questionários.

“Primeiro, foi necessário reduzir a carga de atividades do fluxo normal. Ao tempo em que reduzimos a quantidade, fortalecemos o que é relevante”, explica a coordenadora pedagógica, Karla Castro. Com essa experiência, teve dever de casa até usando o TikTok: "A atividade foi para a disciplina de literatura. Precisávamos falar sobre alguns escritores brasileiros e os alunos tiveram que produzir vídeos, na plataforma, que explicassem sobre a vida e a história dessas personalidades”.

O que vem acontecendo em alguns contextos é que os deveres que eram para fazer em sala de aula, agora são passados para casa. É o que aponta a psicóloga infantil e professora da Uniruy, Roberta Takei. “O suposto tempo livre, não é mais tão livre assim. Isso realmente torna a rotina dos estudantes e dos pais cada vez mais estressante. O impacto se dá diretamente na motivação dos alunos, que acabam, muitas vezes, não dando conta dessas tarefas, ou fazendo de qualquer forma só para cumprir um protocolo”.

Na Escola Cresça e Apareça, no Rio Vermelho, o dever de casa é fora do livro com atividades de arte, culinária e trabalhos manuais, tanto no ensino híbrido como no remoto. Segundo a educadora e gestora da instituição, Mariana Morgenroth, as atividades são escolhidas para serem feitas com a família.  “As crianças construíram com seus pais em casa, livretos com os seus direitos e também sua própria fábrica de brinquedos. Conseguimos alunos engajados e pesquisadores. O trabalho colaborou bastante para a introdução do estudo no turno oposto com interesse, ludicidade e criatividade”.

Limite
O Ministério da Educação (MEC) não prevê nenhuma recomendação ou orientação sobre um limite para as tarefas no contraturno. A questão não é quantidade, mas qualidade. “A quantidade de tarefas ideal é aquela que consegue ajudar a fixar os assuntos, mas não sobrecarrega o aluno e nem o faz perder a motivação pelos estudos. Ela deve ser adequada à idade, contexto social e as condições impostas pela pandemia. Que estimulem no estudante a vontade de se apropriar daquele conhecimento”, orienta a psicóloga Roberta Takei. 

Leia também - Duas séries em uma: como a rede pública vai se adequar ao ensino remoto?

O caminho está em reconfigurar o conceito de ‘dar conta’. “Os parâmetros pré-pandemia não existem mais, então não daremos conta dos conteúdos como antes. O momento é de readaptação. Melhor diminuir a carga, mas garantir uma aprendizagem eficaz”, aconselha.

Pais suspendem atividades extras
Não deu para manter as aulas de inglês. O reforço escolar só  permaneceu, porque ia ficar impossível dar conta de tanta atividade. “Minha filha diz que não aguenta mais, que está cansada, que a cabeça dói, tudo incomoda. Tive que suspender as atividades extras por conta da sobrecarga do dever de casa”, lamenta a representante na indústria farmacêutica, Luciana Goes.

Ela é mãe de Amanda, 9 anos, aluna do 4º ano do Ensino Fundamental I. “Na modalidade remota, ela ficava quatro horas na aula e, depois, levava mais três horas para fazer a quantidade triplicada de tarefas. Atualmente, ela já está de volta ao presencial”. 

A psicóloga infantil e professora da Uniruy, Roberta Takei, reforça que o aprendizado não pode se transformar em uma experiência estressante e negativa. É justamente aí que mora a desmotivação. “O conselho é ter muita paciência. E não cobre seu filho em excesso. O momento é atípico e desafiador para todos”, recomenda.


CINCO DICAS PARA AJUDAR NAS TAREFAS 

1. Rotina
A criação de uma rotina ajuda na organização do tempo e do espaço.

2. Paciência
Sem paciência não tem como orientá-los. Cuidado com a cobrança em excesso.

3. Observação atenta
Observe se existe um bloqueio em participar das aulas, se comunicar com os colegas e conversar sobre  assuntos da escola.  Busque orientação com a coordenação pedagógica. 

4. Espaço de aprendizagem
Não condene possíveis erros ou tarefas incompletas. Inclusive, compartilhe com a criança quando você também apresentar alguma dificuldade com a tarefa. 

5. Ritmo
Tão importante quanto observar é ouvir seu filho. A escuta sensível sempre é um caminho para compreender o ritmo que é possível para cada estudante.

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