Professor acusado de estupro em Paripe era considerado ‘carismático e religioso’

salvador
27.05.2021, 05:00:00
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Professor acusado de estupro em Paripe era considerado ‘carismático e religioso’

Vizinhos de escola relataram choque com denúncia: ‘acima de qualquer suspeita’

Carismático, atencioso e religioso. Assim era tido até outro dia um dos professores da Escola Adventista de Paripe na Rua Maceió, onde a instituição funciona há mais de dez anos. No entanto, quando veio à tona o caso de violência sexual supostamente praticado por ele contra uma ex-aluna durante as aulas, a comunidade local ficou estarrecida.

“Meu Deus! Custei a acreditar. Um homem acima de qualquer suspeita. Ele é casado com uma mulher linda e é sempre atencioso com todo mundo. Sempre estava na igreja. Era um exemplo para tudo mundo. Se realmente ficar comprovador que ele fez tudo isso, será uma grande decepção para a família dele, para a escola, para a igreja e para todos nós que o admirávamos”, declarou uma das moradoras da rua, entrevistada na manhã dessa quarta-feira (26). 

O professor é Natanael Borges, acusado de violência sexual contra uma ex-aluna entre os anos 2016 e 2018, período em que ela cursava o 6º e o 7º anos. A garota, que tinha apenas 10 anos quando tudo começou, relatou que teve as partes íntimas tocadas pelo acusado nos corredores da escola e na própria sala de aula. 

Ainda pela manhã, o Ministério Público estadual (MP-BA) divulgou que ofereceu à Justiça denúncia contra Natanael pelo crime de estupro de vulnerável. Ele já havia sido indiciado pelo crime no último dia 11, pela Polícia Civil, através da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Criança e o Adolescente (Dercca). 

Em mais uma tentativa de falar com o professor, o CORREIO esteve na Escola Adventista de Paripe a fim de obter informações que pudessem levar ao paradeiro dele, mas a instituição permaneceu fechada a manhã inteira. Um homem que fazia uma obra no prédio disse que no local não havia ninguém além dele. Logo depois, o CORREIO recebeu a informação extraoficial de que acusado não está mais em Salvador. 

A escola divide muro com uma igreja, onde o professor Natanael costumava frequentar. A presença da equipe no local chamou a atenção da comunidade, que por sua vez resolveu falar sobre o caso.

“Ele não era pastor, mas tinha participação ativa nas ações da igreja, como distribuição de pães e donativos. Uma pessoa bastante temente a Deus. Está difícil a gente acreditar, mas como diz aquele velho ditado: ‘quem vê cara, não vê coração’”, disse um morador.

Uma senhora contou que conhecia o professor há mais 20 anos e ficou espantada quando soube que o acusado era alguém tão próximo.

“Foi um choque! Quando falam aqui sobre o assunto, pensei que a pessoa em questão era um funcionário sem ligação nenhuma com a igreja. Nunca passou pela minha cabeça que era ele. Estou decepcionada”, comentou ela.

O professor sempre foi visto cercado por crianças e adolescentes, mas até então ninguém havia dito algo que pudesse manchar a imagem dele. “Pelo contrário. Se era uma pessoa que todo mundo gostava e tinha confiança era ele. Depois das aulas, ele ficava rodeado de jovens na porta da escola. Cansei de ver isso. Ele também era responsável pelos escoteiros mirins. É uma prova que a gente não pode confiar em ninguém”, declarou outra moradora. 

Apesar do andamento da investigação, que resultou no indiciamento e na denúncia do acusado à Justiça, houve morador que acreditou na inocência do professor. “Não é possível. Ele é um homem da igreja. Com certeza, essas crianças foram induzidas pelos pais para inventar uma mentira dessa”, afirmou um homem. 

Nota
A escola, instituição tradicional em Salvador, faz parte da Rede de Educação Adventista, que adota um ensino baseado em princípios bíblicos. Procurada pela reportagem, a Rede de Educação Adventista, que atua há mais de 120 anos no Brasil com Educação Infantil ao Ensino Superior, informou que ao tomar conhecimento dos fatos, afastou e demitiu o professor Natanael Borges.

"A escola afastou o professor suspeito e, posteriormente, realizou a demissão. E está colaborando com as autoridades policiais, inclusive prestando esclarecimentos", iniciou a entidade.

"O professor foi ouvido pelo conselho escolar e alegou inocência. A escola continuou apurando responsabilidades. O afastamento aconteceu por ocasião de uma comunicação detalhada da parte da mãe (de uma das alunas)", continua o comunicado enviado pela unidade de ensino.

A Rede de Educação Adventista disse ainda que o comportamento vai de encontro aos princípios ensinados pela escola e "exatamente por isso a escola está colaborando com as autoridades policiais prestando esclarecimentos e colaborando com as apurações". 

A unidade também informou que vai reestruturar a central de relacionamento já existente, para melhorar o diálogo com pais e alunos, inclusive com aqueles que já fizeram parte da instituição. "A ideia é ampliar possibilidades de escuta e de assistência aos pais em situações semelhantes. Além disso, como parte do Plano de Ensino, já ocorre o trabalho com temas que combatem toda e qualquer forma de abuso Isso envolve o cuidado na adoção do material didático, que reforça a conscientização aos alunos, como, também, a realização de oficinas, palestra, escolas de pais, e formações docentes que abordem esses temas importantes para a formação integral do indivíduo".

Por fim, a Adventista informou que "a escola vê com grande preocupação, e se coloca à disposição e incentiva os pais a apresentarem denúncias para ajudar na apuração e no enfrentamento ao problema".

O CORREIO tentou contato com o professor por uma rede social, mas não obteve sucesso, porque o perfil foi deletado. A reportagem também tentou o contato de advogados do professor, mas, novamente, sem sucesso. 

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