Quais os segredos do sucesso das empresas familiares?

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31.05.2021, 06:00:00
Atualizado: 31.05.2021, 06:05:00
A ausência do plano de sucessão compromete a existência de 70% das empresas familiares no Brasil (Shutterstock/reprodução)

Quais os segredos do sucesso das empresas familiares?

Especialistas explicam importância do plano sucessório para as empresas familiares continuarem após morte do fundador

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Considerados pilares da economia nacional, de cada 100 empresas familiares, apenas 30 conseguem continuar existindo após a primeira sucessão. Desse total, apenas cinco sobrevivem à terceira geração. Um dos principais responsáveis por isso é a ausência de um plano de sucessão familiar que, em tese, deveria ser contemplado no próprio planejamento estratégico dessas empresas.  O Correio ouviu especialistas que explicam o que é e como esse plano de sucessão pode ser desenvolvido.

De acordo com a especialista em Direito Societário, professora de Direito Empresarial do Sebrae e sócia da HSVL Advogados, a advogada Sheila Shimada, o plano de sucessão familiar consiste na organização da gestão do patrimônio da família e da perpetuação dos negócios dentro do contexto da família e de suas particularidades. 

“Esse plano considera as peculiaridades de cada família, como é feita a sua constituição para que depois consiga refletir um melhor modelo de sucessão empresarial dentro das suas empresas que atenda às necessidades daquela família em questão”, esclarece.

Organismos

A advogada reforça que é preciso considerar que a empresa é o resultado da interação do relacionamento entre as pessoas, um organismo vivo com órgãos que são diferentes e importantes para o funcionamento do sistema como um todo. 
“Sendo assim, devemos considerar a dinâmica desses relacionamentos, como se desenham, como se desenvolvem e interagem para que somente depois seja possível replicar um modelo eficaz de gestão para as empresas”, reforça. 

Para ela, só depois de verificar como se desenha a dinâmica da família, quais são seus valores fundamentais, os pontos de atenção, as fragilidades e pontos de possibilidade de aplicação de políticas de flexibilidade, é possível desenhar um modelo de governança corporativa exclusivo para aquela família, que seja capaz de fazer com que as empresas geridas por aquele núcleo familiar sobrevivam às gerações e, consequentemente, a empresa ganhe força no mercado.

Sheila Shimada salienta a importância de construir o plano sucessório  levando em consideração os valores familiares na empresa  (Foto: J. Mantovani/Divulgação)

O advogado Victor Macedo salienta ainda que o plano de sucessão possibilita que a transição do controle de uma empresa seja realizado baseado em critérios objetivos, evitando o risco de decisões baseadas em caráter meramente subjetivo, em predileções infundadas, minimizando os imprevistos na continuidade das operações, que podem afetar negativamente a condução do negócio. 

Desafios

Para ele, o aspecto emocional, o tratamento informal e a possibilidade de sobrepor preferências pessoais aos elementos técnicos dentro dessas gestões são desafios e exigem extrema cautela na construção de um planejamento sucessório. “Para conferir maior transparência e solidez na perpetuação da empresa famíliar é fundamental organizar, projetar e alinhar eventuais substituições nas posições de gestão da empresa, sempre com um pensamento de longo prazo e adotando mecanismos para a preservação dos pilares que mantém o negócio”, orienta. 

Mestre em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e especialista em Recuperação de Empresas pelo INSPER, Matheus Cayres Mehmeri Gusmão destaca que o plano de sucessão deve ser elaborado sob enfoque preventivo, antes do surgimento de conflitos familiares, evitando desgastes e preservando a plena atividade produtiva. 

Matheus Gusmão reforça que o plano sucessório seja elaborado de forma preventiva para evitar os impactos noscivos de um desaparecimento repentino na vida do negócio (Foto: Divulgação)

“Quanto antes for elaborado e discutido o plano de sucessão, maior será a probabilidade de se obter benefícios para a sociedade empresária alvo da operação, como, por exemplo, a redução de conflitos entre familiares, minoração do risco de ações judiciais e de insolvência, decorrentes da mudança de gestão”, reforça. 

Holdings

Sheila Shimada reforça que é possível, no plano de sucessão, criar holdings patrimoniais para os membros da família para que seja realizada a blindagem patrimonial dos membros, holdings de participação, protocolos de família, criação de offshores, governança corporativa, estatutos sociais ou acordo de sócios e todos os instrumentos necessários para que a gestão da empresa seja feita da melhor forma possível a fim de atender aos interesses da família.

Vale salientar que as holdings são empresas cuja atividade principal é deter participação acionária em uma ou mais empresas, ou seja, ela detém a maioria das ações de outras empresas e controla sua administração e suas políticas.

“Por fim, é importante lembrar que nem sempre é necessário que a família faça a gestão da sociedade/empresa. Muitas vezes essa gestão e administração pode ser feita por profissionais desde que eles respeitem os valores e as diretrizes estabelecidas pelos membros familiares”, completa a advogada.

Victor Macedo destaca que a elaboração dos planos sucessórios exige o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, onde, além do advogado, haja sinergia com a contabilidade da empresa e de outros profissionais demandados na construção do plano. 
“A orientação jurídica permite a segurança da implementação das fases e hipóteses elencadas no plano de sucessão, sem os entraves que a ausência da expertise pode causar”, pontua. Pode ser necessária a atuação de outros profissionais, sobretudo quando há outros instrumentos essenciais à execução do planejamento, como os Tabeliães de Notas (para doações, declarações, etc.).  

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