Quanto custa um sonho? Casamentos estão até 50% mais caros que antes da pandemia

bahia
16.05.2022, 05:00:00
(Foto: Shutterstock)

Quanto custa um sonho? Casamentos estão até 50% mais caros que antes da pandemia

Setor está em alta em 2022 por conta de demanda reprimida, mas crise econômica deixa futuro incerto

Concretizar a festa de casamento dos sonhos está cada vez mais difícil. O primeiro grande obstáculo foi a pandemia de covid-19, que adiou os planos dos noivos. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de casamentos na Bahia, em 2020, foi o menor desde 2003; em Salvador, foi o menor desde 2006. Com a retomada das atividades econômicas, o obstáculo agora é o preço: segundo organizadores e assessores de casamentos, as festas na Bahia chegam a custar até 50% a mais do que antes da pandemia. 

Taiane Bloisi, organizadora da Celebrar Salvador, uma das maiores exposições do mercado de eventos da capital e região metropolitana, explica que diversos itens utilizados nos casamentos estão mais caros, o que impacta no orçamento final. Ela aponta um aumento de 30% em relação há 2 anos.

“Hoje as pessoas fazem eventos menores, com menos convidados, e pagam mais do que pagariam há 2 anos por um evento maior. A gente vê um crescimento considerável em termos de orçamento de buffet, por exemplo, porque o preço dos alimentos subiu muito. Outra coisa que está muito cara é flor. Um fornecedor me disse outro dia que uma flor que comprava por R$7 está custando R$ 25 agora”, destaca Taiane. 

Já a assessora de casamentos Carol Peixinho diz que o aumento pode variar de 30 a 50%, a depender do estilo do casamento. "Não tem como fazer hoje uma festa do mesmo valor que em 2019, tudo está mais caro: gás, gasolina, flores, comida", diz. 

Carol Peixinho aponta alta dos preços de itens que compõem um casamento (Foto: Arquivo Pessoal)

Os noivos Diogo Dumet, 39, e Heloísa Lopes, 33, iriam se casar em outubro de 2020 e adiaram duas vezes o sonho por conta da pandemia. A cerimônia na igreja e a festa estão agora marcadas para agosto deste ano. Por conta do atraso, os noivos estão sofrendo as consequências da crise. Um dos fornecedores iniciais foi à falência e o dinheiro já pago foi perdido. Outros fornecedores, que ainda não tinham sido pagos, acabaram aplicando reajustes e a festa vai sair mais cara do que o planejado. Além disso, a viagem de lua de mel vai acontecer duas vezes.

O casal Diogo e Heloísa comemorando o noivado, em 2019 (Foto: Arquivo Pessoal)

“A gente já tinha pago a viagem para Dubai e Maldivas. Conseguimos remarcar as passagens, mas os hotéis não queriam aceitar porque por lá estava tudo funcionando normalmente; foi um transtorno, mas conseguimos adiar a primeira vez. Quando foi preciso remarcar a segunda vez, não teve jeito e acabamos fazendo a viagem fora de época. Agora estamos planejando outra viagem, mesmo que menor, para a lua de mel”, conta Diogo. 

A assessora de casamentos Michele Azevedo, assim como Carol Peixinho, também estipula um aumento de até 50% nos orçamentos de casamento. Segundo ela, os altos preços estão provocando adaptações das festas. “Os noivos estão adaptando os sonhos, reduzindo as expectativas. São menos convidados, um casamento num porte menor, com uma decoração mais simples. O buffet mesmo tem sofrido muitas substituições; se o salmão está muito caro, troca por outra coisa”, destaca.

Michele Azevedo aponta aumento de 50% nos preços das festas de casamento (Foto: Arquivo Pessoal)

Ana Flávia Nascimento, assessora de casamentos da Quero Casar, destaca a substituição das flores. “Há uma mudança na decoração, que passa a fazer menos uso de flores naturais, substituindo por flores secas e folhagens”. A administradora do espaço de eventos Sítio Canto Verde, Juliana Ornelas, acrescenta a mudança de dias escolhidos. “Muita gente tem procurado casar durante a semana porque, além da dificuldade de encontrar data, tem os descontos para dia de semana e muitos fornecedores estão fazendo promoção também por já estarem com agenda cheia nos finais de semana”.

Michele Azevedo aponta ainda uma preocupação com o peso que a crise financeira vai ter após o fim da demanda reprimida.

“Estamos aí esperando o que vai acontecer com o cenário econômico do país porque estamos num momento incerto, e a situação financeira impacta diretamente no setor de festas porque é algo supérfluo. As pessoas não vivem sem comida, mas vivem sem festa de casamento. Na hora de cortar os gastos, o setor de eventos é o primeiro a ser prejudicado”, ressalta. 

Apesar da crise, mercado está aquecido em 2022

Dados da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado da Bahia (Arpen-Ba) mostram que, de 2020 para 2021, na Bahia, o número de casamentos civis cresceu 25% (de 43.711 para 54.937). De 2021 para 2022, no entanto, considerando o período de janeiro a abril, o número caiu em 15%, de 17.834 para 15.009. Mas quem é do ramo aponta que muitos casaram no civil durante a pandemia e, agora, estão casando nas igrejas e realizando festas.

Esse é o caso de Mirella Mattos, 29, e Marcel Andrade, 29. Os dois se casaram no civil em março de 2021. “Decidimos esperar para fazer a festa com a grandeza que sempre planejamos”, diz Mirella. A festa aconteceria em março de 2021, mas, com a pandemia, foi adiada para julho de 2021 e, com os números de casos ainda altos, foi remarcada novamente para julho de 2022. Agora, eles esperam, finalmente, poder realizar o sonho. “Queremos concretizar e comemorar a nossa história de 12 anos junto com as pessoas que mais amamos”, acrescenta. 

Mirella e Marcel decidiram esperar para realizar a festa dos sonhos (Foto: Arquivo Pessoal)

O padre Luís Simões, da Igreja Nossa Senhora da Vitória, uma das mais requisitadas para casamentos em Salvador, apresenta os números do crescimento. De janeiro a abril de 2019, somente um casamento foi celebrado lá. No mesmo período deste ano, já foram sete cerimônias. Mais 11 casamentos estão confirmados para acontecer no local ainda em 2022. 

"No ano todo de 2019, tivemos 30 casamentos, acredito que, em 2022, vamos superar esse número. De fato vemos a retomada acontecendo. Em 2020, foram somente seis casamentos o ano todo e, em 2021, 14", diz. 

Assim como as cerimônias nas igrejas, as festas também têm alta procura. Segundo a administradora do espaço de eventos Sítio Canto Verde, Juliana Ornelas, só não foi possível recuperar o prejuízo da pandemia ainda por conta da crise, mas o mercado de casamentos em 2022 está aquecido. “Esse início de ano foi muito bom, principalmente fevereiro e março. Em março eu tive 200 pedidos de orçamento, mas já cheguei a ter 400 em um mês antes da pandemia”, acrescenta. 

Juliana Ornelas revela ter agenda cheia para o espaço Sítio Canto Verde em 2022 (Foto: Arquivo Pessoal)

A assessora de casamento Ana Flávia Nascimento conta que 2022 já teve um aumento de 70% no número de casais buscando orçamento na comparação com 2021. Mas faz a ressalva. “Entre a busca e o fechamento há um grande espaço aí por conta do cenário econômico, que tem segurado essa retomada, sendo um fator determinante para os casais”, coloca. 

Juliana Ornelas afirma que muitos casais adaptaram o planejamento da festa e realizaram o evento durante a pandemia mesmo, mas, muitos decidiram esperar. O local tem casamentos que foram adiados por conta da pandemia marcados até 2023. Esses eventos se acumulam agora com os novos. “Cerca de 70% da nossa agenda de 2022 já está fechada e, considerando esses primeiros meses do ano, já temos 30% a mais de eventos marcados do que a quantidade de antes da pandemia”, diz. 

A assessora de casamentos Carol Peixinho também diz que existe uma demanda alta agora "semelhante ou até maior que a de antes da pandemia". A agenda de 2022 já está 85% comprometida. "De junho a agosto ainda tenho alguns fins de semana, mas, de setembro a dezembro só tenho domingo livre ou então dia de semana".

Mas, ela faz a ressalva de que, de fato, a maior parte dos casamentos marcados para este ano é fruto de reagendamentos provocados pela pandemia. "Só vamos equilibrar as coisas e entender o real cenário quando finalizarmos os casamentos reagendados, liquidarmos a devolução de contratos cancelados e tivemos uma agenda só para novos casamentos", coloca. 

O casal Diogo Dumet e Heloísa Lopes, citados no início da reportagem, também estão entre os que preferiram esperar para não se render às restrições da pandemia. O sonho do casal sempre foi o casamento na igreja e uma festa grande. O pedido de casamento foi em novembro de 2019 e a data foi marcada para outubro de 2020. A primeira remarcação foi para setembro de 2021 e a segunda, para agosto de 2022. “Com fé em Deus este ano esse casamento sai!”, diz Diogo. 

“Fomos em alguns casamentos adaptados e concluímos que, se fosse para ser daquele jeito, a gente preferia esperar e fazer da forma que idealizamos. Eram festas sem banda, com poucos convidados, lugar marcado nas mesas, tinha que ficar todo mundo sentado. Não gostamos e achamos melhor esperar”, explica. 

Mas a espera gerou alguns transtornos. “Esse processo de remarcação foi bastante complicado porque tínhamos muitos fornecedores já contratados e precisamos encontrar sempre datas em que todos estivessem disponíveis. E tem a questão emocional, são muitas incertezas, adiamos para datas em que não tínhamos a certeza de que poderia de fato, acontecer. Além disso, tem o pessoal cobrando da gente, perguntando quando o casamento ia sair”, diz o noivo. 

Celebrar Salvador 

Aconteceu neste sábado (14) e domingo (15), a quarta edição do evento Celebrar Salvador, uma das principais feiras do mercado de eventos em Salvador e Região Metropolitana. Apesar de contemplar festas em geral, o Celebrar Salvador tem como foco os casamentos. O evento aconteceu no Congrats Hall, na Avenida Paralela e foi organizado pela Soteropolitanas Produções. A edição deste ano reuniu 30 expositores. 

“A nossa proposta é reunir em um mesmo espaço diversos fornecedores, facilitando para quem está planejando celebrações. Temos expositores dos segmentos de buffet, beleza, acessórios, decoração, foto e vídeo, convites, espaços para eventos, entre outros”, destaca Tati Pugliesi, uma das organizadoras do evento.

Taiane Bloisi, também organizadora do evento, destaca que esta edição foi mais movimentada do que as demais. "A gente estima um aumento de 20% de público. No domingo, principalmente durante a noite, o evento costuma esfriar, mas, nesta edição, estava bem movimentado, os fornecedores todos em atendimento nesses períodos. Vemos aí o setor voltando ao normal depois da pandemia, o que nos deixa muito animados", diz.

Taiane Bloisi (à esquerda) e Tati Pugliesi (à direita), organizadoras do Celebrar Salvador (Foto: Divulgação)

Taiane faz um balanço do evento. "Tivemos muita procura por fornecedores de papelaria, com os convites, e também serviço de fotografia e filmagem. Outra coisa que saiu muito foi o serviço de lista de presentes e o de assessoria de casamento. São os setores que mais funcionam para feiras porque comida as pessoas preferem degustar e os espaços de eventos as pessoas querem visitar, por exemplo", acrescenta.

Tati Pugliesi conta que, além das mesas de negociação, o evento trouxe atividades paralelas. "Nesta edição, tivemos desfile de noivas, que é algo que o público realmente espera e se programa para ver, e fizemos também um talk show com Alexandre Takei, da Casa Dez, que falou sobre a escolha dos espumantes para os eventos. Essa é uma dúvida recorrente do público na hora de organizar o cardápio de bebidas das festas".

A partir do Celebrar Salvador deste ano, Taiane Bloisi afirma que já foi possível identificar mudanças no setor, como a retomada de tendências que foram deixadas de lado por conta da pandemia. "Temos agora uma procura equilibrada entre locais fechados e abertos. Por conta da pandemia, os casamentos durante o dia ao ar livre estavam sendo mais procurados. Agora, as igrejas voltaram aí a compor a demanda tradicional do casamento na igreja e depois a festa", afirma.

(Foto: Paula Fróes/CORREIO)
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)
(Foto: Paula Fróes/CORREIOFoto: Paula Fróes/CORREIO)
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Outra mudança identificada foi o maior prazo para o planejamento do casamento. "A gente estava com um perfil de noivos buscando o casamento para datas mais próximas, seis meses no máximo. Acredito que muito por conta da espera que a pandemia procurou e também pela incerteza que ainda existia das medidas restritivas voltarem. A partir do evento, a gente já observa um retorno à normalidade, casamentos sendo marcados para 2023 e 2024", acrescenta.

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