Quatro histórias de pessoas que vão sentir falta do São João em 2020

bahia
15.06.2020, 08:00:00
Atualizado: 15.06.2020, 09:43:27
Victor (esquerda, acima), arrastão de João, Éverton 'Bonfim' e banda Forró do Vizin: histórias de São João (Acervo Pessoal)

Quatro histórias de pessoas que vão sentir falta do São João em 2020

Eles vivem intensamente o período junino, mas agora terão que se reinventar

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Tem baianos que simplesmente gostam de São João, e já viveram alguma história na maior festa do interior. Outros, adoram o período junino, e sempre que podem programam uma viagem para a cidade de sua preferência.

Mas tem aqueles baianos que amam o São João. Gente assim tem a cultura junina como parte da sua essência, da sua história. Gente que, quando acaba o Carnaval, ou muito antes disso, já programa onde estará e o que vai fazer nos dias 23 e 24 de junho.

Essas pessoas foram as mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus, que cancelou as festas de São João no interior baiano, deixando um vácuo nesse mês de junho.

Abaixo, o CORREIO traz quatro histórias de pessoas que têm o São João na essência, e que estão dando um jeito para driblar a falta da festa junina em 2020.

E lembre-se: se você também sente falta do São João, o CORREIO tem uma programação de lives com bandas de forró toda sexta-feira no nosso canal do Youtube.


Victor (de jaqueta) já rodou o interior, uma noite em cada cidade (Foto: Acervo Pessoal)

SÃO JOÃO EM CASA COM 40 LITROS DE LICOR

O publicitário Victor Lacerda já viveu todas as experiências possíveis de São João: “Eu não tenho nenhuma lembrança na vida de período junino que não tenha sido no interior. Desde que me entendo por gente minha memória é de arrumar as malas e pegar a estrada”.

Na infância, desde a barriga da mãe, ia à festa de São Felipe. Na adolescência, frequentou festas de camisa, rodando centenas de quilômetro de carro, uma noite em cada cidade. Agora na fase adulta, dono de uma agência de comunicação, trabalha com festas de São João em todo o Nordeste, de Campina Grande a Caruaru.

2020 vai ser o primeiro junho em que Victor não vai fazer as malas, nem vai pegar a estrada. “Eu estava meio que resistindo a tomar essa consciência. Em março, tinha aquela esperança: ‘ok, não vai ter Semana Santa, mas São João ainda dá tempo. Quando fui tomando entendimento da gravidade da pandemia, tive que aceitar”.

“O primeiro sentimento foi de luto. Não por mim, mas por não conseguir imaginar o Nordeste sem São João. É algo que movimenta a economia de muitas cidades, que emprega milhões de pessoas, o momento em que o povo do interior se sente protagonista”, desabafa.

Para driblar a falta do São João, Victor tomou uma atitude um tanto inesperada: começou a fazer licor em casa. “Minha meta é chegar a 40 litros até dia 24. Não me pergunte porque. Já tenho 30”, conta. Ele não sabe o que vai fazer com tanta bebida: “Não é para vender, fiz isso para me conectar com a festa, sentir o cheiro do licor me resgata uma memória afetiva. Vou dar de presente para as pessoas que trabalham comigo viajando no São João”.

Superado o luto, o publicitário vai curtir o São João como pode: com a família, com todo esse licor produzido, acompanhando lives de artistas. “Todo mundo vai se reinventar. O povo nordestino tem essa criatividade. Ninguém vai deixar de curtir a festa, mas vai adaptá-la às limitações. Tenho certeza que a partir do dia 25 vamos ter muitas histórias bonitas para contar”.


Rodrigo (no centro, de chapeu) se apresentou em Valente em 2019 (Foto: Acervo Pessoal)

SUCESSO E SAUDADE EM VALENTE

O São João de 2020 de Rodrigo Marques seria a consolidação do sucesso artístico e também de um sonho. Em 2019, ele se apresentou pela primeira vez com sua banda na festa de Valente, cidade que fica a 250 km de Salvador, onde se acostumou a curtir a festa junina desde a infância.

Para este ano, o vocalista e cantor da Forró dos Vizin projetava ampliar a turnê junina da banda para outras cidades, além de voltar a Valente. “Todas as lembranças que tenho de São João são de lá. O palco na praça, soltar fogos, o sítio da minha família onde a gente todo ano faz um arraiá, a fogueira do meu avô. Essa é a tradição desde que sou criança”, comenta.

O grupo de forró começou em 2018. Rodrigo conheceu os colegas tocando casualmente num chá de fraldas do condomínio onde moram. Por isso, o nome: Forró dos Vizin. Na primeira turnê, já conseguiram um espaço no palco de Valente. “Foi um sonho. Quando subi no palco, lembrei de todas as festas que passei ali. Mudar o ângulo, passando de público para artista, foi muito emocionante. Maior emoção que tive na música, com certeza”.

Fora 2020, Rodrigo só não foi para Valente em um São João: “No de 2018, quando nasceu meu filho, Diogo. Minha relação com a data é tão grande que ele nasceu no dia 24 de junho”.

Com a pandemia do novo coronavírus, Rodrigo teve que mudar planos profissionais e pessoais. Apesar de adiar os projetos da banda recém-criada, o músico defende os cuidados com a saúde e tem certeza que o São João vai acontecer, ainda que um pouco longe do tradicional.

“A gente estava justamente nesse processo de negociar com as prefeituras. Quando começaram a cancelar o São João, ficamos desnorteados. Foi aí que começou a onda das lives e vimos uma oportunidade, entramos de cabeça. Graças a Deus, temos obtido um retorno muito positivo do público”, comenta.


Todos os anos, João (de vermelho, à direita) reúne a família em São Felipe (Foto: Acervo Pessoal)

SÃO FELIPE, O MELHOR LUGAR DO MUNDO

João Santos Filho tem 50 anos, quase todos fazendo o São João mais tradicional possível em São Felipe, no Recôncavo, cidade a 185 km de Salvador. “Sou nascido e criado ali. Só fui uma vez para Serrinha, que é a terra da minha esposa. Fora isso, nunca passei um São João fora de São Felipe. Não troco aquele lugar por nenhum outro no mundo”, conta.

João mora na capital há 15 anos. Ir para o interior naquela semana específica de junho é uma tradição estendida para toda a família: “É o momento de reunir e rever todo mundo. É tanta gente que vai para lá que não cabe todo mundo na casa de minha mãe. Temos que alugar umas duas casas para abrigar todo mundo. Teve ano que foram 20, 25 pessoas”.

Além da reunião familiar, em São Felipe eles celebram a tradição: “No dia de São João mesmo (24), a gente faz o Arrastão dos Bazzukas. Junta os amigos e saímos de porta em porta tocando sanfona, zabumba e triângulo. E as pessoas fazem questão de receber a gente. Desde quando me entendo por gente, sempre foi assim, com meu pai à frente”.

Por conta da pandemia, 2020 ficará marcado em São Felipe pela quebra dessa tradição. Algo que fez João e sua família sentirem muito: “Quando caiu a ficha de que não teríamos São João esse ano, foi muito triste. Minha família que mora em São Felipe estão sentidos demais por não receber os parentes. Fica um vazio grande, porque é o momento em que todos os netos e irmãos conseguem se reunir”.

“Mas todo mundo sabe que o momento pede o sacrifício. É triste mas o importante é que essa pandemia acabe logo. A gente sente mais pelo comércio da cidade, que ganha muito com o São João. Feirantes, que plantam amendoim e milho para vender nessa época, gente que produz licor. É um baque muito grande”, lamenta João.

João e família, no entanto. Prometem descontar em dobro em 2021. Tanto, que ele já está de olho no calendário: “Oxe, ano que vem o feriado vai ser maior. Dia 24 vai cair numa quinta-feira, então vai emendar com sexta, sábado e domingo. Dá para fazer uma arrastão ainda maior”.


Éverton é figura certa nas festas do interior do estado (Foto: Acervo Pessoal)

O 'BONFIM' QUE NÃO É DE BONFIM

Éverton Santos é nascido e criado em Salvador. Nunca morou em Senhor do Bonfim, e não tem um parente sequer que viva lá. Ainda assim, seu apelido entre todos os amigos é ‘Bonfim’. Tudo por conta de uma paixão inexplicável pelo São João da cidade do Norte baiano.

A relação começou há mais de 15 anos, quando Éverton estava no colégio: “Uma amiga era de Bonfim e chamou todo mundo da sala para passar o São João lá. Foi o primeiro ano do Forró do Sfrega (festa de camisa da cidade). Foi muito bom. Desde então, todos os anos vou para lá”.

Com o tempo, Éverton começou a organizar excursões para Senhor do Bonfim. Reservava os ônibus, alugava as casas, fechava pacotes com restaurantes. Chegou ao ponto das pessoas da própria cidade acharem que ele era de lá. “Cheguei a fechar um hotel inteiro para meus amigos. Fiquei famoso na cidade, quando eu chegava era uma festa”, conta.

Na última semana, o profissional de relações públicas fez um post em seu Instagram lamentando a falta de São João em 2020. “Fiz porque minha ficha só está caindo agora. No começo dessa pandemia eu ainda tinha esperança das festas acontecerem. Vou sentir falta de tudo, até mesmo de pegar o carro e passar horas na estrada naquele engarrafamento gostoso”, brinca.

Ele acredita que, apesar do luto, muita gente vai dar um jeito de curtir o São João. Afinal, é uma tradição: “Todo mundo vai ter que se adaptar, rapidamente e forçosamente. Estou decorando minha casa toda com bandeirolas, vai ter bolo de milho, de carimã, licor. Não vou curtir com os amigos, mas com o pessoal da família”.


Próximas lives do CORREIO

Dia 13/06  Flor Serena 
Dia 19/06  Zelito Miranda
Dia 20/06  Adelmário Coelho

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