Quem te viu, quem te vê: baianos refletem sobre a aparência após 1 ano de pandemia

bahia
01.05.2021, 13:34:00
Atualizado: 01.05.2021, 18:33:25

Quem te viu, quem te vê: baianos refletem sobre a aparência após 1 ano de pandemia

Gordo, magra, cabeluda, barbudo, quase todo mundo percebeu ou promoveu alguma mudança de lá para cá

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Ser personagem da minha própria matéria não é fácil. Um ano após o início da pandemia, tomei um susto quando me vi de barbas longas, cabelo grande e bochechas mais acentuadas. Aquele Moysés do espelho não era mais o mesmo de um ano atrás. Rompi qualquer relacionamento com a barbearia e só me dei conta dessas mudanças quando recebi um convite nada comum: "quer encenar a Paixão de Cristo em 2022?"

Nesse primeiro ano de pandemia, o reflexo de nossos rostos e corpos estão bem diferentes do que éramos. Mudamos internamente, sim. E isso reflete no nosso “eu” exterior. Alguns ficaram magros, outros ganharam uns quilinhos. Cabelo branco, colorido, rugas, não importa. Basta se olhar no espelho. Mudamos e não foi pouco.

Eliseu Bélens sempre foi o gordinho da família. Tinha aquelas bochechas que toda tia gosta de apertar. Cresceu, mas continuava fã de Coca-Cola, cerveja e lasanha. Seu primo mais novo, Rafael Almeida, de corpo definido, sempre sacaneava o parente dotado de gorduras localizadas. Porém, a pandemia chegou para inverter tudo.

O advogado Eliseu Beléns perdeu 21 quilos (Fotos: Divulgação)

Eliseu, que completou 32 anos em abril de 2020, resolveu fechar a boca. Perdeu 21 kg em 10 meses. Já Rafael, com 21 anos de idade, ganhou 15 quilos no mesmo período. “Tive muita ansiedade e medo de morrer. Comia e bebia sem parar. Já estou pesando mais que Eliseu e ele agora que aperta minha bochecha. Nós já estamos trocando roupas e faremos uma troca total de guarda-roupa”, disse Rafael, hoje com 85 quilos. Eliseu está com 76.

O ganho de peso não tirou a autoestima de Rafael, mas o corpo pede cuidados. “Fiquei mais gostosinho, picanha tem que ter gordura, né? Mas em quesito de condicionamento físico, o bicho pegou. Tentei voltar a correr, mas sinto logo cansaço. Meu joelho também está doendo”, confessa.

Rafael Almeida ganhou 15 quilos (Fotos: Divulgação)

Já com Eliseu, o próprio risco de pegar covid-19 o fez mudar. Além do antigo peso, ainda tem asma. “Iniciei atividades físicas visando me afastar da obesidade e consegui.  A receita para me manter firme foi adquirir o hábito de praticar atividades físicas. Corre um boato na família de que esqueci meus quilos perdidos no primo mais novo”, brinca.

No reflexo do espelho, o que mais se refletiu foi o peso. Das 11 pessoas que conversamos, sete relataram algum tipo de luta contra a balança, boa parte culpando a ansiedade do momento. Alguns ganharam um pacote completo de modificações. “Engordei, emagreci, envelheci, pintei meu cabelo de rosa, deixei o cabelo natural, cortei a franja, cresci franja, engordei de novo e estou tentando voltar a emagrecer novamente. Parece que vivi uns 3 anos em um ano só”, disse a advogada Raquele Franco.

Raquele admite que o lado psicológico pesou para tantas mudanças. “Passei por término de namoro, transtorno de ansiedade e quase uma depressão. Foi um menu completo. Quem não surtou um tiquinho e mudou um tanto, precisa ser estudado”.

A psicóloga Larissa Dantas alerta que é bom ter cuidado com mudanças repentinas, pois podem significar algum transtorno na mente. "A depressão e a ansiedade podem provocar dificuldades em manter rotinas que antes eram comuns e que passaram a ser acompanhadas por tristeza, irritação, desmotivação e que pode levar a negligência com o corpo e a mente. A OMS alerta para uma nova pandemia de transtornos mentais, por conta da covid-19. É preciso estar atento a estas mudanças repentinas no comportamento para que se busque ajuda especializada".

Daniella Fortuna e Débora Lacerda pegaram a contramão da depressão. Aproveitaram todas as adversidades do coronavírus para mudarem seus hábitos e, consequentemente, a saúde. Em março do ano passado, Débora pesava 90 quilos. Durante a pandemia, a ansiedade piorou e subiu para 95 Kg. Em outubro do ano passado, virou o jogo. “Com a chegada da pandemia, tudo aumentou: o estresse, as crises de ansiedade, o medo de me contaminar e contaminar os meus familiares. Tudo. Engordei mais ainda. Em outubro, com ajuda de minha mãe, fechei a boca e me exercitei, entrei no boxe. Hoje sou outra pessoa”, lembra.

O medo da covid-19 mudou os hábitos alimentares de Daniella Fortuna (Fotos: Divulgação)

Daniella transformou o medo em estilo de vida. “Sempre vivi minha vida no efeito sanfona e só emagrecia na base dos remédios. Sou bancária e, quando veio a pandemia, continuamos trabalhando. Para segurar meu emocional, pensei em estratégias para ocupar a mente. Comecei a caminhar e percebi o quanto estava mal fisicamente. Estava com obesidade grau 3, corria riscos com a covid-19. Sou casada e tenho um filho de 15 anos. Eu não podia morrer! Procurei especialistas, mudei alimentação e fiz exercícios físicos. Foi aí que mudei tudo, incluindo melhor sono, humor, tudo de ruim sumiu. Meu medo de morrer pela covid virou estilo de vida. Sou fitness”, diz Daniella.

A enfermeira Bruna Leal passou por um turbilhão de acontecimentos na sua vida. Malhar era uma religião. Com a pandemia, foi para linha de frente contra a covid-19, mas deixou de se exercitar. A vida passou a ser trabalhar e comer. "Chegava em casa e pedia comida em aplicativo. Não tinha muito o que fazer", lembra.

A enfermeira Bruna Leal engravidou durante a pandemia (Fotos: Divulgação)

Na metade do ano passado, comprou materiais de musculação e passou a treinar em casa. Voltou a emagrecer, mas descobriu que a barriga cresceria novamente. "Quando peguei meu ritmo de malhação, descobri que estava grávida. Estou com um barrigão de seis meses. Parei tudo novamente. Foram muitas reviravoltas na vida, né?", revela. Bruna já foi vacinada e aguarda o nascimento de Henrique.

Cabelo, cabeleira  
O coronavírus também mexeu com a cabeça das pessoas, literalmente. Abandonar a tesoura, descolorir, deixar no natural, vale tudo na arte de dar um tapa no visual. O cabelo virou uma forma de movimento durante esta pandemia. O empresário Cecílio Angelico aproveitou o momento de loucuras e isolamento sociais para fazer o que ele sempre sonhou.

O empresário Cecílio Angelico descoloriu os cabelos (Fotos: Divulgação)

“Resolvi dar um choque de realidade e platinei o cabelo. No fundo, sempre tive essa vontade, mas faltava coragem. Aproveitei a pandemia, em que tudo está meio fora de ordem e descolori. Me senti bem, gostei do resultado e é isso que importa. Se eu teria essa coragem sem ser na pandemia? Provavelmente não”, garante Cecílio.

Carla Thomaz fez o mesmo que Angelico, mas o caminho foi bem diferente. No início da pandemia, a musicista estava na Espanha fazendo especialização e tocava numa banda de forró apenas composta por mulheres. Tudo parecia tranquilo e promissor, até março do ano passado, quando tudo fechou por conta da covid-19. A luta de Carla foi tentar voltar ao Brasil, que só conseguiu em junho do ano passado. Este ano, resolveu mudar o visual.

“Fiz uma mudança de país, uma mudança de relação, mudança de casa, de trabalho e por que não do cabelo? A pandemia colocou o planeta inteiro em estado de transição repentina e a mudança virou rotina.  Passei a entender que tudo é transitório. Quer pintar seu cabelo? Pinte!”, avisa Carla.

Paula Magalhães assumiu os cabelos grisalhos (Fotos: Divulgação)

A mudança também pode significar retroceder. Não como forma de atraso, mas de quebrar parâmetros, assumir uma identidade e retornar as origens. Ou deixar tudo mais natural mesmo. Gabriella Coelho, Paula Magalhães e Franco Adailton quebraram paradigmas, cada um a sua maneira.

Gabriella e Paula tinham uma guerra particular com seus cabelos. A primeira, sob influência do estereótipo do cabelo liso, alisava a cabeleira e não deixava seus cachos naturais surgirem. “Durante a pandemia, trancada em casa, resolvi cortar meu cabelo curtinho, eliminando a química e aceitando minhas ondas e cachos. Dentro de casa, fiquei livre! Nunca mais quero alisar”, disse Coelho.

Já Paula, com seus 39 anos de idade, virou ativista dos cabelos grisalhos. Seu perfil no Instagram incentiva pessoas a abandonarem a tintura e assumir o natural.  “Pinto o meu cabelo desde os 20 anos. Na pandemia, decidi não pintar mais.  Não tinha ideia do quanto essa decisão iria mudar a minha autoestima.  Hoje me sinto mais segura, mais madura e muito mais bonita.  É uma sensação incrível de liberdade!”, diz.

Franco Adailton reforçou sua identidade no black power. Tudo bem que a cerveja o fez ganhar alguns quilinhos, mas foi na cabeça que ele mostrou sua mudança interna. “Meti o black, engordei 10 quilos e acho que estou bebendo mais. Com meu cabelo, passei a mostrar meu posicionamento político e reafirmação da minha cor. Chegar nos lugares e mostrar que meu cabelo enrolado é bonito. Que o preto é bonito. Minha vontade mesmo é meter um dread lion. Antes da pandemia, minha vida era de cabelo raspado. Na juventude, ainda não tinha passado por esse processo de emancipação mental que estou agora”, completa.

Ouvir tantas pessoas em metamorfose constante nesta pandemia é uma injeção de ânimo. A revolução interna te transforma e reflete no que você realmente quer ver no espelho. Voltei a me exercitar e parei de comer besteira. Fiz as pazes com o barbeiro, até aparei barba e cabelo. 

Eu, Moysés Suzart: em um ano, cresceram barba, cabelo e bigode (Fotos: Divulgação)

Nada que pareça com o Moysés antes da covid. Talvez nem queira mais ser aquele, pois o meu reflexo atual já me deixa feliz. Se o mundo nunca mais será o mesmo por conta da pandemia, imagine eu.

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