Residências mais ricas em Salvador têm renda 61 vezes maior que as mais pobres

salvador
16.10.2019, 16:53:00
Atualizado: 17.10.2019, 06:28:22
Desigualdade social pode ser percebida pelas ruas da cidade (Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Residências mais ricas em Salvador têm renda 61 vezes maior que as mais pobres

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios foram divulgados nesta quarta-feira (16)

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O cenário é de disparidade. Em Salvador, as residências mais ricas apresentam uma renda 61 vezes maior do que aquelas de famílias mais pobres. Os dados foram colhidos durante todo o ano de 2018 e integram a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

Para calcular a diferença, é considerada a chamada renda per capita das residências. O número considera todos os rendimentos de uma casa, divididos pelo número de habitantes maiores de 14 anos. Os rendimentos, nesse caso, incluem não só os salários dos moradores, mas qualquer outro tipo de rendimento como aluguéis, pensões, ou valores advindos de programas sociais como o bolsa família. 

Os dados coletados geram o chamado Índice de Gini que, segundo o IBGE, mede a desigualdade de forma ampla. O número varia de 0 a 1 - quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade. Em 2018, o índice baiano ficou em 0,524 contra 0,565,  em 2017. A redução de 0,041 tirou a Bahia do primeiro lugar no ranking da desigualdade no país, deixando o estado com a 9ª posição.

Brasil desigual

No geral, a PNAD Contínua mostra que a desigualdade de renda no país alcançou patamar recorde em 2018, dentro da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012 pelo IBGE. 

A metade mais pobre da população, quase 104 milhões de brasileiros, vive com apenas R$ 413 mensais, considerando todas as fontes de renda. No outro extremo, o 1% mais rico - somente 2,1 milhões de pessoas - tinha renda média de R$ 16.297 por pessoa, em 2018. Ou seja, essa pequena fatia mais abastada da população ganhava quase 40 vezes mais que a metade da base da pirâmide populacional.

Em todo o país, 10,4 milhões de pessoas (5% da população) sobrevivem com R$ 51 mensais, em média. Se considerados os 30% mais pobres, o equivalente a 60,4 milhões de pessoas, a renda média per capita subia a apenas R$ 269.

Veja a evolução do ìndice de Gini no país e por região:

Mesmo passada a crise econômica, a desigualdade se agravou. A renda domiciliar per capita dos 5% mais pobres caiu 3,8% na passagem de 2017 para 2018. Ao mesmo tempo, a renda da fatia mais rica (1% da população) cresceu 8,2%.

"O índice de gine é um índice geral, que considera diversos aspectos na hora em que mede a  desigualdade. Por ser um número de certa forma abstrato, não fica tão fácil visualizar exatamente o que ele representa, por isso também fazemos um ranqueamento analisando os salários, já que o rendimento de trabalho acaba correspondendo a 70% da renda per capita”, explica a supervisora de difusão de informações do IBGE na Bahia, Mariana Viveiros.     

Considerando apenas os rendimentos de trabalho, a Bahia ocupa o 6º lugar no ranking.  Quando o assunto é o salário médio de quem ganha mais, o valor chega a ser 48 vezes maior em relação às remunerações mais baixas. No ano passado, a média salarial para os mais ricos foi de R$ 6.196 por mês, contra R$ 129 da média dos mais pobres. 

Apesar da disparidade, a desigualdade social na Bahia caiu. A renda dos mais ricos diminuiu em 10%, reduzindo assim a diferença na distribuição, na comparação entre 2017 e 2018.

Ao analisar a disparidade, o economista e professor universitário Edísio Freire explica um dos aspectos que podem causar tamanha diferença: “Isso também é resultado do que chamamos efeito 80/20. 80% da renda na mão de 20% das pessoas. A Bahia tem uma grande parte da população com pouca renda, e pouca gente ganhando muito, como grandes empresários, políticos, grandes executivos. Por conta desse desequilíbrio, na hora de fazer as estatísticas essa desigualdade acaba aparecendo”, explica. 

A coordenadora do IBGE, aponta que o efeito levantado pelo professor é uma realidade de todo país e destaca um outro aspecto que pode ajudar a acentuar a desigualdade no estado. “Na Bahia, temos apenas cerca de 10% das pessoas adultas com nível superior completo, que é algo que ajuda a alavancar a renda per capita”, destaca.  

Embora haja um registro de queda, motivada por um déficit de 18,5% no rendimento dos 10% dos que ganham mais no estado, a diferença entre os salários de ricos e pobres na Bahia ainda é grande. Na pesquisa anterior, com dados colhidos em 2017,  os 10% mais ricos na Bahia ganhavam o equivalente a 58,5 vezes o salário dos 10% mais pobres. Era a segunda maior desigualdade nessa comparação, perdendo apenas para o Piauí (59,2 vezes).

O perfil de maiores atingidos com essa perda salarial é formado por homens, trabalhadores que se declaravam brancos e aqueles com maior nível de instrução. Com isso, no ano passado, reduziram-se também as desigualdades salariais por sexo, cor ou raça. Bem menos afetada, a diferença de rendimentos por nível de instrução também mostrou um leve recuo. 

O estudo compara, ainda, os rendimentos segundo alguns parâmetros específicos. A remuneração de quem tem nível superior, por exemplo, caiu  22,1%. A queda, porém, não é representativa se comparada com o salário de quem completou apenas o ensino médio. O salário médio de quem completou os estudos universitários é quase três vezes maior que o de quem não passou por uma faculdade: R$ 3.830 contra R$ 1.355

Renda média

Outra redução importante, segundo a pesquisa, foi na renda média dos baianos. Entre 2017 e 2018, na Bahia, a renda média real total da população - que inclui salários, rendimentos provenientes de aposentadorias, programas sociais, aluguéis, aplicações dentre outras formas de renda -, caiu 5,8%, passando de R$ 1.486 para R$ 1.400. 

Com a mudança, a Bahia passa a ser o estado com a 4ª renda média mais baixa do país, superando apenas Alagoas, Piauí e Maranhão. O movimento de queda, percebido pelo estado, foi contrário ao do país, onde a renda média aumentou. No Brasil, o rendimento médio real de todas as fontes cresceu 2,8% entre 2017 e 2018, de R$ 2.107 para R$ 2.166.

A queda na Bahia foi também a 3ª mais profunda entre os estados, menor apenas que as verificadas no Amazonas (-10,2%, de R$ 1.733 para R$ 1.557) e no Amapá (-7,2%, de R$ 1.904 para R$ 1.766).

Mais pobres

O Índice de Gini da renda domiciliar per capita no país subiu de 0,538 em 2017 para 0,545 em 2018, patamar auge na pesquisa. Os mais pobres ficaram mais pobres, os mais ricos ficaram mais ricos, confirmou Maria Lucia Vieira, gerente da Pnad. Para a pesquisadora, o fenômeno tem relação com a crise no mercado de trabalho, que afetou especialmente o extrato de trabalhadores com menor qualificação e menor remuneração.

"Continuam no mercado de trabalho aqueles que ganham mais", justificou Maria Lucia Vieira.

Quando começou a melhora na geração de vagas, os desempregados que conseguiram retornar ao mercado de trabalho passaram a ganhar menos em funções semelhantes ou a atuar em postos informais, que também remuneram menos.

"Quando as pessoas perdem seus trabalhos, elas vão arrumar outras ocupações em que elas consigam ter alguma remuneração. Se o momento tem mais demanda por trabalho do que oferta, as pessoas acabam aceitando trabalhos com remunerações mais baixas", explicou a gerente da Pnad.

Massa de renda

Com mais pessoas trabalhando, a massa de renda de todas as fontes cresceu de R$ 264,9 bilhões em 2017 para R$ 277,7 bilhões em 2018. Como a concentração de renda aumentou, os 10% mais pobres detinham apenas 0,8% da massa de rendimentos, enquanto que os 10% mais ricos concentravam 43,1% desse bolo.

Se considerados apenas os trabalhadores com renda do trabalho, a fatia de 1% mais bem remunerada recebia R$ 27.744 mensais, o que corresponde a 33,8 vezes o rendimento dos 50% dos trabalhadores com os menores rendimentos, que recebiam, em média, R$ 820, menos que o salário mínimo em vigor no ano. A diferença foi a maior da série histórica da pesquisa.

O índice de Gini da renda do trabalho também registrou piora na passagem de 2017 para 2018, subindo de 0,501 para 0,509 no período, o patamar mais elevado da série.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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