Risco de colapso na saúde volta a preocupar autoridades na Bahia

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24.05.2021, 14:04:00
Aumento no número de casos está acontecendo em todas as regiões do estado ao mesmo tempo (Foto: Arquivo CORREIO )

Risco de colapso na saúde volta a preocupar autoridades na Bahia

Taxa de ocupação dos leitos tem ficado em torno de 80% nos últimos dias

O risco de colapso na rede de saúde voltou a preocupar as autoridades. Com 83% dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e 72% dos leitos clínicos ocupados no estado, tanto o governador Rui Costa e o prefeito Bruno Reis já falam em risco eminente de crise e pedem o apoio da população para evitar o caos.

O fechamento das praias aos sábados e domingos não foi suficiente para evitar aglomerações em Salvador, como as redes sociais comprovaram, e os números da pandemia continuam subindo. Nesta segunda-feira (24), o governador Rui Costa e o prefeito Bruno Reis comentaram sobre o assunto em eventos virtuais diferentes.  

Bruno Reis atualizou os dados da capital e disse estar preocupado com a possibilidade de uma terceira onda de contaminação por covid-19. A ocupação da UTI em Salvador está em 79% e a dos leitos clínicos em 76%. A UTI pediátrica teve aumento de 11% no último fim de semana e está em 70%.

“Se os números crescerem a partir de agora na medida em que cresceram na primeira onda, dificilmente nós vamos evitar um colapso, porque tanto prefeitura como governo do estado já chegaram ao limite máximo de abertura de novos leitos. Não temos mais disponibilidade de locais, de equipamentos, de insumos e de equipes. Saímos de 700 leitos, em conjunto, na primeira onda, para 1.200 leitos, quase dobramos a nossa capacidade”, afirmou.

A cidade amanheceu nesta segunda-feira com 52 pacientes nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) aguardando transferência, sendo que dez deles esperavam por uma vaga na UTI, eram nove adultos e uma criança, e os outros 42 precisavam de uma acomodação na enfermaria, todos adultos. Além desses, outros 74 pacientes já tinham sido regulados nas 24 horas anteriores.

“Já existe uma grande pressão sobre as UPAs e isso confirma que nós podemos estar diante de uma terceira onda ou de um recrudescimento da segunda onda, ou seja, que ela caiu, estabilizou, e agora voltou a crescer. Mas o fato é que os números começam a preocupar”, afirmou.

Apesar da quantidade de pacientes precisando de UTI estar baixa, o crescimento no número de pessoas que precisam de vaga na enfermaria preocupa. Segundo o prefeito, nas duas primeiras ondas a taxa de ocupação dos leitos UTI disparou alguns dias depois do taxa dos leitos clínicos começar a subir.

Medidas
O crescimento nos números levou o governo do estado e os prefeitos a ampliarem o toque de recolher. Ele vai funcionar de segunda à quinta-feira, a partir das 22h, e de sexta a domingo, a partir das 20h. A venda de bebidas alcoólicas estará proibida das 20h de sexta-feira até às 5h de segunda-feira. Além disso, medidas mais duras podem ser tomadas nos próximos dias.

O crescimento acelerado do número de casos preocupa também o governador Rui Costa. Nesta segunda, ele pediu que a população veja a ampliação do toque de recolher como um sinal de alerta, e que todos se conscientizem que usar máscara e fazer distanciamento social ainda é necessário. O gestor contou que pela primeira vez os números da pandemia estão subindo em todas as regiões do estado ao mesmo tempo.

“Quando o crescimento ocorre aos poucos, em uma região por vez, é possível ir equilibrando [as ações de proteção]. Mas quando o aumento acontece de uma vez em todas as regiões, não há o que equilibrar e, portanto, a situação se torna mais grave. É preciso que as pessoas ajudem. Essa medida de trazer o toque de recolher para as 20h sexta, sábado, e domingo, é para chamar atenção a sociedade, para que percebam que a situação está se agravando”, afirmou.

Desde que a pandemia começou, a Bahia registrou 983 mil casos de covid-19, sendo que 20 mil pessoas morreram vítima das complicações provocadas pela doença, até o momento. Em todo o estado, a taxa de ocupação dos leitos de UTI está em 83% e dos clínicos em 72%. Salvador tem 204 mil casos, com 6 mil óbitos. 

Tanto Bruno como Rui criticaram, sem citar o nome de Jair Bolsonaro, o comportamento do presidente e cobraram mais responsabilidade de quem deveria dar o exemplo. No fim de semana, Bolsonaro participou de um passeio com motociclistas no Rio de Janeiro, sem máscara, e em meio a uma aglomeração.

Cenário
A situação na rede privada também não é animadora. Os sete maiores hospitais de Salvador estão com a ocupação das UTIs em torno de 80%. Os dados foram atualizados nesta segunda: Hospital Santa Izabel (78%), Hospital Português (79%), Hospital Aliança (74%), Hospital Cardiopulmonar (76%), Hospital São Rafael (81%), Hospital Jorge Valente (82%), e Hospital da Bahia (81%).

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) também começou a sentir o aumento da demanda. O coordenador de Urgência e Emergência da capital, Ivan Paiva, teme que ocorra saturação da rede privada, como em março, quando os hospitais particulares ficaram lotados e alguns pacientes aguardaram dentro de uma ambulância, por horas, uma vaga na UTI dessas unidades.

“É preocupante porque quando a rede privada não consegue mais atender a demanda, os pacientes são direcionados para a rede pública e todo o sistema fica sobrecarregado. As pessoas precisam se conscientizar. [Nas outras duas ondas] tivemos que acionar nossa reserva técnica de ambulâncias e chegamos a fazer mais de 100 transferências por dia. Estamos nos aproximando novamente desse número”, disse.  

O cenário fica ainda mais tenso quando é observado o comportamento da população. Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), entre janeiro e o último fim de semana, as equipes tiveram que dispersar 423 aglomerações de pessoas na cidade.

Nesse mesmo período, a Sedur recebeu 12.125 denúncias de poluição sonora, realizou 4.158 vistorias, e apreendeu 449 equipamentos. Os bairros mais denunciados foram Itapuã, Paripe, Pernambués e Liberdade. A estudante Rafaela Rodrigues, 25 anos, mora em Paripe, no Subúrbio Ferroviário, e desabafou.

“É horrível pensar que as autoridades precisam mandar fechar as praias e o comércio para que pessoas tenham consciência de ficar em casa, e mesmo com tudo fechado tem aglomeração. [As praias de] Tubarão e São Tomé ficam lotadas com ou sem restrição. Minha vizinha morreu de covid. As pessoas estão brincando com a vida”, disse.

As denúncias podem ser feitas na Ouvidoria da Prefeitura de Salvador, através do número 160. O atendimento funciona 24h e sete dias da semana. Procurada, a assessoria do órgão disse que é importante informar o endereço completo, CEP, ponto de referência e o tipo da atividade que está sendo denunciada, como paredão ou fiscalização de estabelecimento, por exemplo. Em seguida, o registro é encaminhado para as equipes competentes.

A Ouvidoria informou que desde janeiro recebeu 81.815 ligações, que 84% delas foram para pedir informações e que 14% eram denúncias, a maioria relacionada a bares com aglomeração e atividade sonora, ou outros estabelecimentos que estavam descumprindo os decretos. Algumas das regiões mais demandadas são Cajazeiras, Pituba, Itapuã, Pernambués, Liberdade, São Marcos, Fazenda Grande do Retiro, Paripe e Boca do Rio.

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