Riscos e vantagens de investir no exterior: será que vale a pena?

economia
24.04.2021, 05:58:00
Colocar seu patrimônio em dólares pode te proteger das oscilações da economia (Pixabay)

Riscos e vantagens de investir no exterior: será que vale a pena?

Queda do real tem despertado interesse em ações estrangeiras; é algo seguro?

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Crise econômica incessante desde 2014. Como efeito, o real só se desvaloriza no cenário internacional. Com a chegada do coronavírus, tudo se agrava e o dólar chega a quase R$ 6. A taxa de juros brasileira sofre sucessivos cortes, batendo em 2020 apenas 2% ao ano.

Nos últimos anos, e especialmente nos últimos meses em meio à pandemia, o brasileiro presenciou uma série de motivos para desconfiar da economia do seu país. Sobretudo, passou a duvidar das vantagens de deixar o seu patrimônio investido por aqui.

Ao mesmo tempo, a tecnologia evoluiu anos em questão de meses. O mesmo ocorreu com a legislação. De repente, pipocam em sites, redes sociais e vídeos milhares de propagandas de corretoras com uma proposta arrojada: dar ao cliente o acesso às bolsas mais lucrativas do mundo na palma da mão, por meio do seu smartphone.

Natural, então, que milhões de brasileiros estejam agora pensando seriamente em diversificar os seus investimentos. Por que não trocar o real pelo dólar? Por que não comprar ações das maiores empresas do mundo, em bolsas de valores das principais economias do planeta?

Parece atrativo, né? Mas claro que não são apenas vantagens, existem algumas desvantagens também. E, antes de fazer qualquer movimento, é preciso conhecer profundamente onde você está 'metendo' o seu 'bedelho'.

Em mais um capítulo da série sobre investimentos do CORREIO, vamos entender os pontos positivos e negativos de investir fora do Brasil. E até que ponto isso é de fato vantajoso para você.

“É preciso avaliar qual é o perfil do investidor. Ou seja, o que ele conhece do mercado, qual é o seu patrimônio e quais são os seus objetivos. A depender disso, pode ser interessante investir em ações negociadas no exterior, mas também pode valer mais a pena adquirir ativos que são vendidos aqui no Brasil, mas que também ‘dolarizam’ o seu patrimônio”, diz Raphael Carneiro, planejador financeiro e sócio da consultora Petra Capital (@raphaelcarneiro.planejamento).

O que está acontecendo?

Raphael aponta motivos para que, a cada dia, mais e mais brasileiros estejam analisando o investimento em outros países: “Existe um lado econômico. A taxa de juros mais baixa da história aqui no Brasil é um deles. Apesar da taxa dos Estados Unidos também estar baixa, há uma confiança maior no mercado de lá. O real está cada vez mais desvalorizado e o dólar cada dia mais valorizado”.

“Além disso, a instabilidade, tanto política como econômica, do Brasil. Isso faz com que as pessoas procurem uma proteção para o seu patrimônio. Saber que parte dele está dolarizado é saber que há uma estabilidade maior para momentos de crise”, explica o especialista.

Comprar diretamente ações negociadas em bolsas estrangeiras já era algo ao alcance dos brasileiros, não se trata, portanto, de uma novidade. Porém, o leque de corretoras que oferecem esse serviço aumentou significativamente, aumentando assim a competitividade.

A maioria dessas corretoras são fundadas por brasileiros e sediadas em países de interesse, sobretudo os Estados Unidos. E o público-alvo não é nenhum outro senão os seus compatriotas.

Segundo Raphael, também existe uma 'febre' em torno disso: “Virou uma moda. As corretoras que possibilitam que o brasileiro invista diretamente, comprando ações fora do país, estão agindo pesado no marketing para poder tornar isso comum, um hábito”.

“São influenciadores digitais falando, muitos deles pagos, muita propaganda. Então, se tá todo mundo falando sobre isso, as pessoas vão fazendo, muitas vezes sem nem pensar direito se aquilo faz ou não algum sentido”, completa o consultor.

Vantagens

Existem, sim, muitas vantagens. A principal delas é 'dolarizar' o patrimônio, ou seja, transformá-lo do real para dólares. Isso oferece uma maior segurança do seu valor, já que a economia estadunidense é mais estável do que a brasileira, assim como a inflação de lá é mais controlada.

“Além disso, há a possibilidade dupla de rendimento, que é a do dólar e a da própria ação. Quer dizer, se a ação não se valorizar, mas o dólar sim (em relação ao real), então você ganha. Se a ação subir e o dólar não, você ganha. E se os dois ocorrerem juntos, você ganha duplamente”, explica Raphael.

O que essas corretoras, que estão fazendo forte propaganda, oferecem é a chance de comprar de forma direta as ações das bolsas estrangeiras, como se você estivesse comprando a ação de uma empresa do Brasil na B3.

Obviamente, essa é também uma vantagem, pois permite que você tenha acesso às companhias que mais crescem no planeta, como Apple, Amazon, Microsoft, Netflix, Alphabet (dona do Google), entre outras gigantes da tecnologia.

“Quando a gente fala em investir no exterior, em 99% dos casos estamos falando de comprar ações das empresas dos EUA, que é a maior economia do planeta”, diz Raphael.

Desvantagens

Mas é claro que existem pontos negativos, e que precisam de muita atenção. O primeiro deles são as taxas. Quando se envia dinheiro para uma conta no exterior, você está fazendo uma remessa. Ou seja, está adquirindo moeda estrangeira.

Com isso, terá de pagar o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que é de 1,1% do valor, além do chamado 'spread' da moeda estrangeira, que é a porção do valor do câmbio que fica com a instituição financeira que realizou a troca de moedas.

“Em vez de um dólar sair a R$ 5,51, que é a cotação dele atual, ele acaba saindo por R$ 5,60, por exemplo. Quando se fala na proporção de um patrimônio, ou seja, de uma boa quantidade de dinheiro, você acaba perdendo uma quantia grande”, explica Raphael Carneiro.

O segundo ponto negativo é a tributação. No Brasil, qualquer dividendo – o lucro das empresas, que é repassado aos acionistas – é isento do Imposto de Renda. Mas, para o caso de ganhos no exterior, a Receita Federal cobra até mesmo dos dividendos.

“Qualquer valor que caia na sua conta de lá você terá que declarar para a Receita Federal daqui. E aí vai seguir a tabela progressiva do Imposto de Renda. Até R$ 1.903,99 por mês você está isento do IR, mas se passar disso terá que pagar (no mês seguinte) através do Carnê-Leão”, explica o especialista.

“Aí você pensa: 'ah, mas R$ 1,9 mil é muita coisa'. Mas com a taxa de câmbio atual, não é. Atualmente, são 345 dólares. A depender do quanto você investe, pode-se chegar a esse valor num mês”, completa.

O consultor aponta que esse é um erro comum entre investidores: “Muita gente pensa que você só paga o Imposto de Renda no Brasil quando traz o dinheiro de volta para o país, mas não é assim. Se passar o valor da isenção você precisa recolher até o mês seguinte”.

Não para por aí. O ganho de capital com a venda de ações também é tributado, caso passe do valor de isenção. Para ativos adquiridos no Brasil, a isenção é de até R$ 20 mil negociados num mês. Para os ativos estrangeiros, a isenção é de R$ 35 mil. Porém, lembre-se: em dólares, isso dá pouco mais de US$ 6 mil.

Caso o investidor tenha filhos e deseje permanecer com aquelas ações por muito tempo, é preciso ficar atento a outro detalhe. O imposto de transmissão de patrimônio na Bahia, por exemplo, é de 4% a 8%. Já nos Estados Unidos, são cobrados 40% nos principais estados.

Por fim, o especialista alerta que o investidor pode não conhecer a fundo as empresas das quais está comprando ações. “A gente sabe e tem informações das grandes empresas como Apple, Disney, Coca-Cola… Mas as pessoas não seguem detalhadamente a saúde financeira de empresas menores ou de remos menos conhecidos, das quais elas acabam também comprando ações”.

Por isso, o investimento em ações negociadas em bolsas estrangeiras é mais recomendado àqueles que têm o costume de acompanhar o mercado financeiro internacional e saibam analisar a saúde financeira das companhias através dos dados que elas apresentam.

E agora?

No final das contas, investir em bolsas estrangeiras é algo vantajoso? A resposta, como sempre, é: depende do perfil do investidor.

“Para quem ganha pouco e quer apenas rentabilizar e aumentar seu patrimônio aos poucos, é melhor procurar um investimento por aqui mesmo, no Brasil. Existem formas de 'dolarizar' o seu patrimônio e investi-lo fora do país, mas com ativos que são negociados na própria B3, como fundos, BDRs e ETFs (veja os detalhes abaixo)”, diz Raphael Carneiro.

“A média do investidor baiano, segundo pesquisa da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros), é de R$ 2 mil de renda mensal. Então, para quem ganha em torno disso, não vale a pena investir fora do país, não faz sentido. Porque, só de IOF e 'spread' do dólar, você vai perder uma parte do patrimônio”, completa o especialista.

Para aqueles que ganham mais e têm bom conhecimento do mercado financeiro, pode ser vantajoso, já que seus ganhos têm chance alta de ficarem dentro das taxas de isenção. Ainda assim, é preciso avaliar se não existem opções melhores negociadas na própria B3.

Já para aqueles que possuem um patrimônio elevado, e que com isso fatalmente cairiam em uma das taxas de tributação, é preciso avaliar com calma, junto a um consultor, se vale a pena. Adquirir ativos 'dolarizados' e que são vendidos na B3 pode ser muito mais vantajoso.

Outras opções

Fundos – Na bolsa brasileira existe uma variedade enorme de Fundos de Investimentos que aplicam o dinheiro dos cotistas em ativos no exterior, ou seja, colocam o patrimônio em dólar e assim têm o mesmo efeito de protegê-lo das oscilações da economia brasileira. É a forma mais simples de investir fora do país, já que, por serem negociados na B3, estão sujeitos à tributação brasileira.

BDRs – Antes vedada a investidores qualificados, essa opção foi recentemente colocada à disposição de todos os investidores 'pessoa física'. Quem investe numa BDR (Brazilian Depositary Receipts) está adquirindo um recibo de uma ação vendida em bolsa estrangeira – ou seja, é um 'direito' adquirido sobre uma ação vendida em outro país. Na prática, dá ao investidor o acesso às ações das maiores empresas do mundo, mas com um ativo negociado na B3 e sujeito às tributações do país.

ETFs – São fundos negociados no Brasil que replicam índices de bolsas estrangeiras. Por exemplo: é possível adquirir um ETF que replica o S&P 500, índice que reflete a valorização das ações das 500 principais empresas negociadas na bolsa dos EUA. Portanto, o investidor que optar por esse ativo está apostando na valorização de toda a bolsa do país escolhido.

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