Roças urbanas: plantações sobrevivem no 'meio' de Salvador

salvador
07.11.2017, 05:00:00
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Roças urbanas: plantações sobrevivem no 'meio' de Salvador

Censo Agro já identificou 17 plantações na cidade; conheça produtores

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No meio de Pernambués, se esconde uma paisagem improvável em Salvador. Entre casas com lajes, construções irregulares e até um ou outro prédio ao fundo, fica uma sequência de terrenos cobertos de verdes, de onde brotam folhas de alface, manjericão, hortelã e até jiló. O nome do local não poderia ser mais adequado: Rua da Horta. 

“Na próxima vez que vocês voltarem aqui, nem sei se vão encontrar mais plantação. O bairro está crescendo, loteando casas, vendendo, vendendo... Daqui a pouco a gente vai terminar vivendo a vida de outro jeito”, lamenta o agricultor José Francisco dos Reis, 54 anos, que há pelo menos 20 anos cultiva hortaliças no local, enquanto observa as moradias ao seu redor. É dele uma das “roças urbanas” já identificadas na Rua da Horta. 

Só lá ficam pelo menos 12 das 17 propriedades rurais já identificadas em Salvador pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) através do 10º Censo Agropecuário – também conhecido como Censo Agro. Embora, num primeiro momento, possa parecer que o objetivo de mostrar “o retrato do setor agropecuário nacional” se restrinja aos grandes produtores do interior do estado, a coleta também pretende revelar a agropecuária da cidade grande. 

O número mais do que dobrou em relação ao último Censo Agro, em 2006. Naquela época, somente oito estabelecimentos agropecuários foram catalogados. E a previsão é passar de 200 propriedades mapeadas, de acordo com o coordenador operacional do Censo Agro na Bahia, André Urpia. 

De fato, é como seu José Francisco apontou: as áreas cultivadas estão ficando menores, devido ao aumento das construções próximas. No entanto, a quantidade de pessoas envolvidas com agropecuária na cidade aumentou.

“Um dos fatores que estamos identificando é essa questão do cenário de desemprego, de recessão, que pode ter feito com que as pessoas tenham tomado a iniciativa de produzir algo facilmente consumido na própria cidade”, explica André.

Segundo ele, embora os resultados iniciais indiquem uma prevalência maior de roças em Pernambués, só o resultado do Censo, previsto para o fim de fevereiro de 2018, deve ser um balanço mais fiel.

Vender na feira
No caso de seu José Francisco, a recessão veio cedo. Natural de Poço Verde, município sergipano com pouco mais de 20 mil habitantes, ele chegou a Salvador na década de 1980. Começou trabalhando como ambulante, mas não deu certo. Decidiu, então, investir na agricultura em Pernambués, onde já morava. 

Em seu estado natal, tinha experiência com plantação de milho e feijão. Aqui, a plantação tinha mais diversidade: alface, couve, cebola. Hoje, só fica no manjericão e na hortelã. “Minha horta começava lá naqueles pés de coqueiro, mas aí fui vendendo a metade, e ficou isso”, explica, enquanto aponta para uma área que seria pelo menos o dobro da atual. 

A venda de parte do terreno, segundo ele, foi motivada pelo próprio desinteresse dos filhos. Os três – dois homens e uma mulher – já na casa dos 20 anos não quiseram continuar trabalhando com a terra. Preferiram seguir carreiras administrativas. O tamanho, hoje, ele já não sabe dizer, mas chega a lucrar entre R$ 300 e R$ 400 por semana. 

“Tiro aqui para vender na (feira da) Sete Portas, na Feira de São Joaquim, nas feiras dos bairros... Depois que a gente vai tirando a despesa, dá para levar a vida, mas não é esse salariozão todo não. Isso aqui já foi bom, criei a família com isso aqui. Não precisou ninguém andar querendo fazer coisa errada, todo mundo viveu com o dinheiro da horta”. Hoje, ele também tem uma banquinha no bairro da Santa Cruz, onde vende todo tipo de legume e verdura – tudo comprado nas feiras.

Falta boa água
Conhecido como Carlito, seu Carlos José de Santana, 65, está iniciando uma nova horta há seis meses, mesmo tendo trabalhado praticamente a vida toda com isso. Por muitos anos, teve uma grande roça no Saboeiro. Agora, planta jiló, rúcula, alface, coentro e couve em um terreno emprestado “pela amizade mesmo”. 

Também sergipano, chegou em Salvador aos 14 anos e continuou com o trabalho no qual começou ainda criança, quando já morava na zona rural de Conceição do Jacuípe, no Centro-Norte da Bahia. Sentiu logo a diferença entre a capital e o interior.

“Aqui a despesa é muita. Aqui é difícil ter adubo, tem que comprar fora. Essa semana comprei um adubo caríssimo. Paguei R$ 35 num saco deste tamanho”, afirma, enquanto gesticula mostrando uma altura de aproximadamente meio metro. 

Mesmo assim, o trabalho na roça – que lhe rende entre R$ 100 e R$ 200 por semana – passou a ser só um complemento. Assim como seu José Francisco, ele mantém uma banquinha de temperos na frente da própria casa. Só que, diferentemente do vizinho, que criou um sistema de irrigação improvisado, tem uma forma mais elementar: com o regador, tira água de um pequeno tanque. “Como aqui é coisa pouca, a gente usa a água da Embasa. Por isso que não vale fazer roça na cidade. Tudo poluído”. 

É a água que o agricultor Cecílio Pereira, 57, que planta no mesmo terreno emprestado que seu Carlito, acredita que seja o maior desafio das roças urbanas. “O mais difícil é água, porque a gente não vai pagar a Embasa para molhar uma hortaliça que não vai pagar nem a água, imagine para sobreviver disso”. 

Seu Cecílio aprendeu a trabalhar na lavoura quando se mudou de Araci, no Nordeste baiano, para Pernambués. Costuma vender em um carrinho de mão que arrasta pelas ruas do bairro. “Tem 20 anos que trabalho com horta e até hoje não passei de um sapato velho furado”, revela. A plantação nunca foi sua principal renda. Aos R$ 50 que costuma conseguir por semana, junta o que render de bicos de capinar terrenos e fazer carretos. 

Maria Francisca dos Santos, 57, em seu terreno de quase 4 mil m² em Pernambués
Maria Francisca dos Santos, 57, em seu terreno de quase 4 mil m² em Pernambués (Foto: Marina Silva/CORREIO)
José Francisco dos Reis, 54, conversa com recenseador do IBGE
José Francisco dos Reis, 54, conversa com recenseador do IBGE (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Carlos José de Santana, 65, está iniciando uma nova horta há seis meses
Carlos José de Santana, 65, está iniciando uma nova horta há seis meses (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Recenseadores do IBGE em pequena propriedade agrícola em Pernambués
Recenseadores do IBGE em pequena propriedade agrícola em Pernambués (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Vizinhos que levam
A maior plantação da Rua da Horta, hoje, fica no terreno que pertence a Dona Maria Francisca dos Santos, 57. São quase quatro mil metros quadrados. É lá que ela cultiva o que aprendeu desde que morava na zona rural de Feira de Santana. Na década de 1980, veio para Salvador trabalhar como empregada doméstica. O desgaste e o escasso retorno financeiro a fizeram desistir logo. Foi quando decidiu plantar lá mesmo, em Pernambués. 

“Aqui dava cada couve... A terra é boa. Dava brócolis, rabanete, alface...”, lembra a agricultora.

Ela vende nas feiras da Boca do Rio e da Sete Portas. Hoje, só tem hortelã e manjericão. O investimento não compensava, ela diz. E, além disso, como revelou o agricultor Antônio Francisco, 62, que trabalha para dona Maria, os vizinhos não ajudam. Para ele, esse é o maior problema de plantar na cidade grande.

“A gente plantava muito coentro, mas não dava mais. Se você colhe 50%, 60% era levado pelos vizinhos. Tentam levar os outros, mas o coentro era mais. Fora o que eles pedem, toda hora pedem ‘um tempeirinho’. Se a gente der, fica o dia todo só para despachar”, diz seu Antônio. 

Natural de Exu, em Pernambuco, trabalhava com agricultura em seu estado. Depois que veio para Salvador, começou a trabalhar na contenção de encostas, pedreiro e até segurança. Há 20 anos, ficou desempregado e foi quando voltou à lavoura – dessa vez, em um centro urbano. Por mês, ele recebe R$ 1,4 mil - usa para sustentar a casa onde mora com a mulher, a sogra e uma neta. “Comigo, não tem esse negócio, não. Em minha frente, procuro qualquer coisa para trabalhar”, diz, antes de voltar à enxada. 

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Áreas rurais são procuradas até mesmo em programas como Google Maps
Desde que teve início, em outubro, o Censo Agro 2017 já chegou a catalogar cerca de 25% das propriedades rurais da Bahia. A previsão é de que a coleta, que foi realizada pela última vez em 2006, seja concluída até o final de fevereiro. 

Em todo o estado, Salvador foi a única cidade que não teve uma ‘lista prévia’ de estabelecimentos a serem visitados, devido às grandes distâncias e dificuldades de acesso a determinadas áreas do município (inclusive pela violência urbana). Aqui, o processo está sendo feito pelos supervisores, a partir de contatos com sindicatos e associações de produtores. 

Além disso, de acordo com o coordenador operacional do Censo no estado, André Urpia, estão sendo utilizadas imagens geradas por satélite e disponibilizadas por softwares como o Google Maps. Nessas imagens, as equipes procuram áreas verdes entre os aglomerados urbanos. 

“São espaços potenciais para fazer o recenseamento. É um trabalho de garimpagem, realmente, então, sem dúvida, esse cadastro que a gente recebe do sindicato tem sido um norte, porque a gente precisa verificar se eles continuam atuando e produzindo, se tem venda, se tem produção e qual é o tamanho dela”, explica Urpia. 

Em todo o estado, cerca de 2,4 mil recenseadores estão atuando no Censo Agro, enquanto no Brasil são 19 mil. Todos os recenseadores utilizam um Dispositivo Móvel de Coleta (DMC), que é um computador de mão habilitado a armazenar e transmitir os dados diretamente para o banco de dados do IBGE, assim como foi feito com o Censo Populacional de 2010.

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