Salvador recebe apenas um pouco mais de três mil ampolas de Coronavac

coronavírus
30.04.2021, 05:00:00
Atualizado: 30.04.2021, 06:35:01
Nova remessa de vacinas chegou às 11h desta quinta em Salvador (Nara Gentil/CORREIO)

Salvador recebe apenas um pouco mais de três mil ampolas de Coronavac

Lote não garante a 2ª dose dos 36 mil que precisam fechar esquema vacinal

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Salvador recebeu 3.330 doses da Coronavac para dar continuidade à vacinação contra a covid-19 na cidade. O problema é que 36 mil pessoas precisam receber a segunda dose desse imunizante, para completar o esquema vacinal que garante a imunidade contra o coronavírus. Ou seja, as ampolas recebidas não são suficientes para atender todo esse contingente. Na manhã desta quinta-feira (30) a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) chegou a confirmar, via assessoria de imprensa, que a capital não receberia nenhuma das 6,8 mil ampolas de Coronavac do lote que o Ministério da Saúde entregou na própria quinta-feira. 

A explicação da assessoria da Sesab para que Salvador não recebesse doses de Coronavac foi que, em 6 de abril, 40 mil ampolas da reserva técnica do estado foram liberadas para a capital não interromper a vacinação. Essa entrega extra, por sua vez, seria em parte descontada na remessa desta quinta. À noite, quando confirmou que a cidade receberia 3.330 doses da vacina, a Sesab informou que juntou as 6,8 mil doses entregues pelo MS pela manhã com um pequeno estoque remanescente que estava guardado no estado.

Na quarta-feira, 28, o MS havia divulgado que distribuiria na quinta, 29, 104 mil doses do imunizante chinês para todos os estados brasileiros, depois que o Jornal Nacional divulgou reportagem mostrando que 18 cidades, em 14 estados, estavam com a vacinação suspensa por conta da falta da Coronavac. Nesta quinta, 29, também, o MS distribuiu cerca de 5 milhões de ampolas da vacina Oxford/AstraZeneca para todo o país. A Bahia recebeu 329.500 doses dessa substância e Salvador ficou com 69.900 no rateio do lote entre os municípios do estado.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde disse que não há prazo para envio de mais vacinas para a Bahia ou qualquer outro estado. "O Ministério da Saúde atende de acordo com a quantidade recebida pelos laboratórios e, assim que tiver mais vacina, vai ter uma nova pauta de distribuição. A última pauta foi divulgada ontem [anteontem] e dependemos da entrega dos laboratórios", disse a pasta.

Ainda segundo o MS, o Brasil deverá receber nesta sexta-feira, 30, seu primeiro lote do imunizante do laboratório norte-americano Pfizer, mas ainda não há prazo ou informações sobre a distribuição das doses entre os estados da federação.

Cidades sem vacina

As 329.500 doses da vacina de Oxford destinadas à Bahia estão sendo distribuídas para 388 cidades do estado. Outros 29 municípios ficaram de fora porque não atingiram 85% no percentual de primeiras doses aplicadas. A Sesab não divulga a quantidade de vacinas distribuídas para cada cidade.  

O voo com o novo lote de imunizantes aterrissou no Aeroporto Internacional de Salvador por volta das 11h desta quinta-feira, 29. A quantidade de Coronavac enviada pelo governo federal é o menor lote desde o início das remessas, em janeiro. As quase 6,8 mil vacinas são sete vezes menos do que as 42 mil doses que chegaram em 22 de abril e que, até então, ocupavam o lugar de menor lote já recebido pela Bahia. Por outro lado, as 329.500 doses da AstraZeneca é o maior enviado até agora ao estado.  

Interior 

De acordo com a coordenadora de Imunização do Estado, Vânia Rebouças, cerca de 15 mil doses da Coronavac serão distribuídas entre os municípios. Além das 6,8 mil enviadas pelo Ministério da Saúde, outras 8 mil eram da reservada da Sesab para a segunda aplicação. Segundo a pasta, esse armazenamento foi feito antes da recomendação do Ministério da Saúde para distribuir todo o lote para a aplicação como primeira dose.  

Na época, o governo federal previa que o ritmo de chegada das novas doses seria acelerado, o que não se concretizou. Nessa semana, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga admitiu que há preocupação com a falta da 2ª dose da vacina Coronavc.

Das 10 maiores cidades baianas, além de Salvador, pelo menos outras quatro tiveram que interromper a vacinação da segunda dose de CoronoVac nas últimas semanas por falta do imunizante: Vitória da Conquista, Itabuna, Jequié e Ilhéus. Nessa última, as doses terminaram na terça-feira (21) e, segundo a prefeitura, são cerca de 3,5 mil pessoas que estão com risco de atraso na aplicação da segunda dose por falta de vacina  

"O município está na expectativa de receber novos lotes. Com expectativa e acúmulo de pessoas que precisam tomar essa segunda dose no prazo correto. Estamos numa pendência com a população, pois não há um parecer de quando vai receber. O bom é que o próprio Ministério da Saúde e a Sesab informaram que não há problema em atrasar um pouco a aplicação do reforço”, disse Jeovana Catarino, diretora do departamento de Vigilância em Saúde de Ilhéus.

No entanto, no início do ano, o Instituto Butantan afirmou que não tinha como garantir a eficácia da Coronavac se a segunda dose fosse adiada. Isso acontece, porque o estudo que desenvolveu a vacina se baseou na aplicação de duas doses em um intervalo de duas a quatro semanas, ou seja, até 28 dias. Os especialistas alertam que seguir o calendário de imunização à risca é o ideal, mas concordam que atraso de poucos dias não vai trazer grandes problemas.  

"Ainda não sabemos o tempo exato que é aceitável um atraso. A Coronavac tem uma melhor eficácia quando a segunda dose é aplicada 28 dias após a primeira. Podemos imaginar que uma ou duas semanas não tenha efeitos tão grandes, mas mais que isso, não podemos garantir que a segunda resposta será ótima", diz a infectologista Fernanda Grassi, da Rede Covida.  

Em Santo Antônio de Jesus, a 200 quilômetros de Salvador, há menos de 60 doses de Coronavac disponíveis, segundo a vigilância epidemiológica do município. O problema é que, para hoje, 800 pessoas estão programadas para receber a segunda dose e a prefeitura acredita que também faltará a vacina do laboratório Sinovac/Instituo Butantan na cidade.  

“Amanhã [hoje, sexta-feira, 30] vai chegar, mas ainda não sabemos a quantidade. Acreditamos que o déficit será maior do que eles vão enviar”, lamentou a Vigilância Epidemiológica do município. “Não dá para entender o motivo disso estar acontecendo. O povo chega para tomar a segunda dose e a gente vai aplicando. Amanhã vamos sentar, fazer estudo e comparar todas as notas fiscais para entender o que veio de primeira dose, o que veio de segunda e como chegamos nesse cenário”, disse a administração municipal.  

Em Guanambi, a realidade de apreensão com a falta de doses é parecida. Segundo a prefeitura, foi encerrada nesta semana a aplicação da segunda dose dos idosos com 67 a 72 anos.

“Para a próxima semana, a partir da terça-feira (4), temos previsão para vacinar as idades de 65 e 66 anos, também com a segunda dose da Coronavac, mas pelo que nos foi informado pelo Núcleo Regional de Saúde, apenas 60% da demanda necessária chegará”, diz a prefeitura local. 

O Instituto Butantan disse que um novo lote de Coronavac estará disponível para o governo federal a partir do dia 3 de maio.  

Em Salvador faltou 1ª dose em alguns postos

Todo o estoque de Coronavac existente em Salvador - antes da Sesab reservar mais 3.330 doses para a cidade - se esgotou nesta quinta-feira, 29. Pela manhã, além da falta de segunda dose de Coronavac, também houve confusão na aplicação da primeira dose das vacinas, tanto da Coronavac quanto da AstraZeneca. Em pelo menos três postos houve relato de falta de vacina para os profissionais da educação que estão sendo imunizados: Fundação Bahiana para Desenvolvimento das Ciências, em Brotas, na Vila Militar de Dendezeiros e no Centro Universitário Jorge Amado (unijorge), na Avenida Paralela.  

Na Bahiana era permitida a aplicação da 1ª dose da Astrazeneca em idosos, pessoas com Síndrome de Down, pacientes em hemodiálise, transplantados, rodoviários, trabalhadores da limpeza urbana e pessoas com deficiência permanente. Já na Vila Militar e Unijorge eram os trabalhadores da saúde, autônomos, agentes de segurança e salvamento, doulas e trabalhadores da educação os grupos permitidos para serem vacinados.  

No entanto, com a falta de doses, houve gente que não conseguiu ser imunizado. A funcionária de uma escola particular que preferiu não se identificar contou que percorreu os três postos em busca de vacina, dirigindo da Paralela até o Dendezeiros e depois para Brotas, sem sucesso. À reportagem, a Secretaria Municipal da Saúde de Salvador (SMS) afirmou que foram enviadas novas doses para esses locais e que a vacinação seguiu até às 13h. 

Na quinta-feira, 29, só quem tomou o reforço da Coronavac foram as pessoas que fizeram agendamento pelos serviços Hora Marcada e Vacina Express. No entanto, houve relatos nas redes sociais de pessoas que tentaram fazer esse agendamento desde anteontem e não conseguiram.

A SMS explicou que, com o anúncio da iminente escassez da Coronavac, as pessoas correram para agendar e as vagas acabaram logo.  

Cidades que não receberam vacina:  

São Félix 
Conceição do Almeida 
Quixabeira 
Cravolândia 
Belmonte 
Irajuba 
Crisópolis 
Cardeal da Silva 
Piraí do Norte 
Barra 
Ibirapitanga 
Mirangaba 
Santa Luzia 
Barra da Estiva  
Sebastião Laranjeiras  
Itororó 
Igrapiúna 
Nilo Peçanha  
Senhor do Bonfim 
Jucuruçu 
Firmino Alves 
Planaltino  
Lajedo do Tabocal 
Campo Formoso 
Wenceslau Guimarães  
Aramari 
Antônio Cardoso 
Paratinga 
Cairu 

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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