Salvador sextou no vazio

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27.02.2021, 09:00:00
(Foto Nara Gentil)

Salvador sextou no vazio

Centro e redutos da boemia da cidade ficam desertos no primeiro dia de lockdown parcial

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No fim de tarde de uma sexta-feira comum, sobretudo na alta estação, o cenário seria outro em Salvador: clima de agitação nas ruas, praias lotadas até o anoitecer, gente se preparando para “sextar” com uma gelada no boteco escolhido para o “esquente” depois do trabalho ou na sequência do banho de mar, o típico frenesi nos ônibus e estações de metrô que antecedem o roteiro de fim de semana. Corre-corre houve, mas por razão diferente por volta das 17h da sexta-feira (26), quando começou a vigorar o lockdown parcial válido até às 5h da próxima segunda (1º/3).

O comércio de rua foi o primeiro passo na marcha do esvaziamento. No Centro da cidade, onde as sextas costumam ser de calçadas cheias e gente se esbarrando no ir e vir do formigueiro humano, o retrato era outro. A Avenida Sete de Setembro, marcada pelo frenesi de pessoas, mais parecia uma zona fantasma. Bem antes da hora prevista para o fechamento das lojas no decreto baixado quinta-feira (25), poucos clientes circulavam na área. 

Frequentadora do Centro, a babá Letícia Vieira, de 21 anos, se surpreendeu com o cenário de deserto em um dos pontos de comércio mais movimentados de Salvador. Chegou por volta das 16h e encontrou a maioria das lojas com as portas cerradas. “Eu fui pega de surpresa. Achei que fosse encontrar mais lojas abertas, que elas fossem fechar mais tarde. Algumas fizeram isso bem antes das 17h”, disse. 

Enquanto isso, shoppings ainda experimentavam o movimento na última hora do lockdown parcial em todo o estado. Em especial, alimentado por aqueles que deixaram o trabalho às pressas para resolver compras pendentes. Foi justamente isso que fez o administrador Marcelo Maia, 48 anos. Ele largou o batente e correu para antecipar as compras do final de semana. “A gente tem percebido que a ficha das pessoas está caindo, que elas estão vendo que não tem mais jeito. A cidade de noite já está ficando realmente deserta, coisa que não vinha acontecendo”, disse.

Nos supermercados, correria de clientes, com filas para entrar. Sobretudo, perto das 20h, quando o segmento foi obrigado a encerrar as atividades e impedido de vender bebidas alcoólicas até a manhã de segunda, assim como os demais estabelecimentos. A servidora pública Sílvia Assis, de 60 anos, foi um dos que não quiseram passar o final de semana sem uma cervejinha. Por isso,  entrou na maratona para garantir o estoque. 

“Fui comprar porque realmente não tinha nenhuma em casa e depois não seria mais vendida. Eu saí para o trabalho e, no caminho, passei e comprei a cerveja para deixar em casa para o final de semana. É sempre bom ter para quando der  vontade, porque aí eu estou dentro da minha casa e não preciso sair para lugar nenhum”, justificou.  

É também no final da tarde de sexta, período do desejado happy hour da semana, que os bares da cidade costumam receber levas de clientes dispostos à boemia. Dessa vez, a turma resolveu adiantar para aproveitar até o horário de fechamento: 18h. Mas muitos preferiram ir direto para casa, modificando o panorama comum nos dias de “sextar”. 

Redutos como Barra e Rio Vermelho já estavam vazios antes do lockdown parcial. Não era para menos. Enquanto as recentes restrições entravam em vigor, a Secretaria de Saúde do Estado divulgava um balanço com novo recorde de mortos por covid no estado em apenas 24 horas: 137. Pelo quadro atual, é bem possível que “sextar” demore dias para ser o que foi na capital.

Autoridades previram aumento de casos
Há pouco menos de um ano,  foi confirmada a transmissão comunitária do novo coronavírus e, a partir do fim de março, tudo foi  fechado. As portas baixavam gradualmente, enquanto a hashtag  #FiqueEmCasa ganhava o coro das redes . O pensamento era de que aquilo tudo seria superado em 15 dias, talvez 30. Perto do aniversário da pandemia, as únicas coisas que mudaram foram os números de casos, pacientes internados e mortes pela covid-19.

Desde o fim de 2020, autoridades de saúde do estado e da prefeitura já alertavam: após as festas de fim de ano, haveria um salto exponencial da doença. Não deu outra. Até a tarde de sexta, a Secretaria de Saúde da Bahia  contabilizou 674 mil infectados desde o início da pandemia, com 11.625 óbitos. Agora, há aproximadamente 20 mil casos ativos. 

As taxas de ocupação de UTIs subiram vertiginosamente nos últimos dias, afetando até a rede privada. As notícias ruins não param, basta ver que os casos graves afetam cada vez mais a população de menor idade. Se continuar nesse ritmo, lockdown será realidade por tempo indefinido.

60h
É o quanto vai durar o lockdown parcial em Salvador e demais cidades baianas

17h
Foi o prazo definido para o fechamento do comércio de rua entre sexta-feira e a manhã da próxima segunda

18h
É o limite máximo para funcionamento de bares, distribuidoras de bebida, restaurantes, lojas de conveniência e similares enquanto vigorar o decreto

19h
Foi o prazo máximo permitido para shoppings, galerias e centros  comerciais no lockdown

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