Saudade, a realidade: um resumo com bossa da trajetória de João Gilberto

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06.07.2019, 23:43:46
Atualizado: 07.07.2019, 04:31:04
Descontraído, João toca para desbundados do Festival de Águas Claras, no início dos anos 80 (Foto: Divulgação)

Saudade, a realidade: um resumo com bossa da trajetória de João Gilberto

Órfãos do pai da bossa nova desfrutarão eternamente de seu espólio rítmico

‘Ícone máximo’, ‘maior de todos’, dois superlativos sinônimos que demonstram a dimensão de João Gilberto Pereira de Oliveira, falecido hoje, aos 88. Dois oitos, como que símbolos de infinitos, noções do eterno que começara a se tornar Joãozinho em 1958, com a chegada do ‘Chega de Saudade’. A realidade é que em 1948, Juazeiro, Norte da Bahia, ainda não sabia que o filho esquivo de quase 18 seria pai.

Embora os três herdeiros biológicos atuais, é a paternidade da bossa nova que confere a João Gilberto o status de estrela máxima de nossa música. “O maior artista de todos”, registrou o primogênito Caetano Veloso, ainda atordoado, à tarde. “O maior gênio da música brasileira”, reforçou Gal Costa, uma das filhas preferidas, para brilhar nas noites seguintes.

Chega de Saudade, o álbum seminal da bossa nova (Foto: Divulgação)

Coube a João Marcelo Gilberto, um dos biológicos, iniciar a sinfonia do adeus. "Meu pai morreu. Sua luta foi nobre. Ele tentou manter a dignidade à luz da perda da independência. Agradeço minha família (o meu lado da família) por estar aqui por ele", postou, misturando luto e ressentimento.

Em família
Nos tempos de Joãozinho de Patu, como era conhecido o filho de Martinha do Prado Pereira de Oliveira, a dona Patu, havia mais paz em casa: junto com ela, as irmãs e o pai, o comerciante Juveniano Domingos de Oliveira, morou em Juazeiro até 1942, quando se mudou para estudar em Aracaju, aos 11. Aos 15, de volta, ganhou um instrumento do pai, momento de um dos maiores encontros da história: João e o violão.

Voltando à família real de agora, passou os últimos tempos envolvido em um imbróglio entre parentes. Há dois anos, a cantora e filha Bebel Gilberto, que é do ‘outro lado’ de João Marcelo, moveu um processo de interdição ao pai, justificado pela idade avançada e a situação financeira complicada - chegou a ser despejado.

Bebel, João Gilberto e João Marcelo (Foto: Arquivo Pessoal/João Marcelo)

Encontrava nos colos da atual namorada, Maria do Céu, e, principalmente, da neta, Sofia, 3, a calma que suas canções trazia aos outros.

As cidades
Além da passagem estudantil em Aracaju, começou a trilhar a rota do sucesso fora da Bahia. Em 1955, foi breve a Porto Alegre (RS), onde estudou mais harmonia, e depois deu tchau a caminho de Diamantina (MG), onde morou meses com uma das irmãs, então recém-casada. 

Começava a encontrar ali a batida perfeita, em algumas experimentações feitas até no banheiro, num período de quase absoluta introspecção. Ainda passou por Juazeiro de novo, onde comandou o conjunto vocal Enamorados do Ritmo, e depois pintou em Salvador, onde arranjou trampo no cast da Rádio Sociedade.

Estátua de João em Juazeiro (Foto: Divulgação)

Foi nesse caminho que nasceu ‘Bim Bom’, a primeira canção com a inconfundível batida do ritmo batizado lá fora como jazz daqui de dentro. A música chamou a atenção do produtor musical Roberto Menescal, que levou João ao encontro de Tom Jobim, e a história da música mudou. Fundia-se ali a cadência bonita do samba com a bagunça sofisticada do tal jazz.

No Rio, seu porto final, a classe média chamou a novidade de bossa nova. Tinha cheirinho de bebê, de fato, o bim bom ressoando como surdo, pandeiro e tamborim.

João entre os parceiros Tom Jobim e Vinícius de Moraes em 1962 (Foto: Divulgação)

Por aqui
Em 2008, parecendo já prever o adeus derradeiro de 10 anos depois, os baianos se estapearam por um ingresso para vê-lo de novo no Teatro Castro Alves (TCA): entradas esgotadas em 40 minutos! 

Apesar das tantas aparições nesse palco, tinha dez anos que ele não tocava em Salvador, e um mês que Dorival Caymmi havia falecido. Foi um tanto óbvio, como poucas coisas de João, ele cantar ‘Você já foi à Bahia?’

Das outras passagens marcantes, a reabertura do teatro, após o período de uma copa, é uma das mais lembradas. No banquinho, ladeado por Gal e Maria Bethânia, aquele retorno de João, em 1993, foi tão marcante quanto o de Romário contra o Uruguai.

Vaia de bêbado
De fama, João nunca teve do que reclamar. Depois de ‘O Amor, O Sorriso e A Flor’, que trazia como destaque ‘Samba de Uma Nota Só’, e ‘João Gilberto’, que veio com ‘O Barquinho’, sucessos locais, deslanchou. Em 1962, no Carnegie Hall, em Nova York, conquistou a América, abrindo para em 1963, ‘Getz/Gilberto', com o saxofonista americano Stan Getz, se tornar um clássico.

O álbum traz de brinde ‘The Girl From Ipanema’, com participação de sua então esposa Astrud Gilberto. Já de companheira nova, Miúcha, em 65, veio um dos prêmios mais importantes: Grammy de melhor álbum para ‘Getz/Gilberto’, seguido de tantos outros prêmios entre um beque e outro com a turma dos Novos Baianos.

Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João Gilberto e Milton Banana: a turma por trás do Getz/Gilberto (Foto: David Drew Zingg/Divulgação)

Completada a odisseia até 2001, ganhou mais um, na categoria World Music, com ‘João Voz e Violão’. Vamo considerar esse segundo Grammy, então, uma resposta ao desrespeito com que foi tratado, dois anos antes, na inauguração de uma casa de shows em Sampa. Ao lado de Caetano, reclamou do sistema de som, do ar-condicionado, enfim, do que sempre o irritava, e acabou vaiado. Teve a elegância de dar língua e aceitar os pitos apenas de quem não tava mamado: “vaia de bêbado não vale”. Viva vaia! Viva, João!

[Abafa o caso, mas aqui no TCA também rolou situ semelhante, bem antes! Mas "aqui é a Bahia, terra primeira", estação primeira do Brasil, e as coisas se resolveram para a gente de João].

Luto
Respeito e admiração restabelecidos, o governador Rui Costa decretou três dias de luto oficial pela perda de João. "Hoje, sua morte silencia a música. (...) Os baianos têm orgulho de João Gilberto e por isso preservaremos seu legado. Que Deus conforte todos neste momento de dor".

O prefeito ACM Neto também prestou homenagem. “Não tem quem não lembre com carinho de uma canção interpretada por João Gilberto, baiano que revolucionou a música brasileira. Só temos a agradecer pela genialidade e sensibilidade deste artista que muito contribuiu para divulgar Salvador e a Bahia em todo o mundo", recitou.


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