Saudade de outros carnavais: sem poder brincar, foliões relembram rituais pré-folia

salvador
11.02.2021, 05:00:00
Atualizado: 11.02.2021, 07:20:24
Folião com fantasia bem colorida e emplumada na Mudança do Garcia, em 2009 (Antônio Queiroz/Arquivo CORREIO)

Saudade de outros carnavais: sem poder brincar, foliões relembram rituais pré-folia

Se não fosse a pandemia, Salvador já estaria repleta de ambulantes  e de gente à caça de fantasias 

Já pintou o verão, calor no coração’, mas a festa não vai começar. Por conta da pandemia do novo coronavírus, não há previsão para o Carnaval acontecer em 2021. Em tempos normais, Salvador já estaria em festa, com toda a movimentação típica do período. Mas, dessa vez, é diferente. Quem diz que o ano novo só começa depois da folia, vai ter de descobrir outro jeito de renovar as energias. O que resta para este fevereiro atípico é a saudade da muvuca e do empurra-empurra atrás do trio. 

Os indícios de que Salvador tinha virado a cidade do Carnaval, a essa altura, estariam por toda parte: camarotes montados nos circuitos, ambulantes acampados para garantir os melhores pontos, lojas exibindo fantasias nas vitrines, cambistas no entorno do Centro de Convenções, glitter colorindo tudo e, até o desagradável cheiro forte de urina sinalizaria o reinado de Momo. Em 2021, para matar saudades, os stories do Instagram estão povoados de memórias de anos anteriores, emocionando os foliões.

Por aqui, tudo começa cedo. Antes da abertura oficial da folia, que seria nesta quinta-feira, 11, já teria acontecido o Furdunço, o Fuzuê, o Pipoco e a tradicional quarta-feira de blocos e fanfarras do Farol da Barra ao Morro do Cristo. O baiano aquece os motores para os dias oficiais de festa com antecedência. 

Para muitos, o pré-carnaval já é tempo de curtir, mas, para outros, é hora de montar estratégias para a ‘guerra’ dos sete dias oficiais. É preciso garantir o tênis confortável, checar a programação para fugir ou ir atrás do maior aperto, juntar dinheiro, comprar ou fazer a fantasia, personalizar o abadá, estocar bebida. 

Catarina e as amigas no Carnaval de Salvador (Foto: Acervo Pessoal)

A foliã Catarina Carvalho, 21 anos, nos dias que antecedem a festa, une as duas coisas: “Em tempos normais eu já teria ido para todos os pré-carnavais possíveis. Minha casa já estaria cheia de glitter, com certeza, e eu estaria indo bater perna na Avenida Sete para comprar o que faltava para as fantasias”, conta ela que, no ano passado, marcou presença em todos os dias do Carnaval. 

Quem é fã de carteirinha vai sentir falta. “Eu gosto muito de gente, de música e de Verão. O Carnaval junta tudo isso de uma forma maravilhosa. É a melhor época do ano. Tem uma galera que é mais time São João, mas eu sou totalmente time Carnaval. Até porque meus pais se conheceram na folia. Então, eu não existiria se não fosse o Carnaval”, diz Catarina. 

Para a foliã, o Carnaval representa liberdade e alegria, tudo o que as pessoas gostariam de ter agora. Mas esse gostinho vai ter que esperar. “O que eu mais vou sentir falta no Carnaval é dessa liberdade e dos encontros que ele proporciona para todo mundo. Eu quero crer que ano que vem vai ter Carnaval normal, mas não depende só de vontade. Porque isso é o que não falta. Se tiver mesmo, vai ser o melhor Carnaval possível, vai estar todo mundo com muita saudade de aglomerar”, conclui ela. 

O soteropolitano Antônio Seixas, 20, está morando em São Paulo, mas não perde um carnaval na cidade natal. Quando a folia se aproxima, é hora de comprar as passagens e planejar as fantasias. Para ele, estar na festa é se sentir em casa. 

Antonio, a prima e um amigo na folia do ano passado (Foto: Acervo Pessoal)

“Quando eu penso no que estaria fazendo agora eu até abro um sorriso porque eu estava pensando nisso esses dias. Fiquei vendo as fotos dos carnavais passados e bateu uma saudade... Eu estaria falando com meu amigo que a gente estava atrasado na confecção das fantasias. Acordaria cedo para ir bater perna na rua atrás dos tecidos para, pelo menos, uns três dias de fantasia. Aí ficaria a tarde inteira confeccionando as roupas”, conta Antônio.

Para ele, a maior saudade é da correria do Carnaval e de planejar a melhor estratégia para o famoso ‘frete’. Em 2020, a quarta-feira foi o dia da fantasia de vendedor de Beiju, com direito a trocadilho. No cardápio impresso na gráfica, opções como “beiju casadinho”, “beiju triplo” e “beiju pra viagem”. Na quinta, foi a vez de representar o Dorime, um dos memes mais compartilhados na internet: um ratinho vestido como se fosse do alto clero ao som de palavras que brincam com o latim. Meme é sucesso garantido no Carnaval. 

Mas até os ‘perrengues’ vão fazer falta. Ficar sem um sapato? Vira ‘resenha’. Se perder dos amigos? O santo dos Foliões é forte e isso vai render uma boa história. “Eu gosto de muvuca, de tomar aquela bebida totalmente duvidosa e limpar a latinha na camisa achando que foi 100% higienizada. Carnaval, querendo ou não, é um sufoco, mas é um sufoco bom, acompanhado de diversão. Você anda da Barra à Ondina e de Ondina à Barra mil vezes sem reclamar. E ainda encontra um monte de amigo no meio da multidão, sem nem ter combinado; mas aquela pessoa com quem você combina, marca um ponto, nunca encontra, não tem jeito”, explica Antônio.

Isabela Fontana, 21, também é dessas que adora uma fantasia e diz que não dá para repetir a do ano anterior. “Eu gosto sempre de fazer alguma coisa diferente. Teve uma vez que eu estava fantasiada de Minnie Mouse e o trio de Duas Medidas estava passando. Aí Lincoln Sena gritou ‘Ei, Minnie!’ e me mandou um beijo”, conta ela, rindo. Fica aí a dica para quem quiser chamar a atenção do ídolo no meio de tanta gente.

Isabela e o namorado com a fantasia combinada (Foto: Acervo Pessoal)

Nesta época do ano, ela diz que estaria confabulando com as pessoas sobre qual seria a música do Carnaval e confeccionando plaquinhas para usar na avenida. Em 2019, ela usou uma fantasia de casal com o namorado. Na plaquinha que ele carregava no pescoço vinha escrito “Cheguei ao meu destino”; na dela, “Destino”. Em 2020, foi a vez de combinar as plaquinhas com uma amiga. Na dela, “Eu sou a que aconselha”; na da amiga, “Eu sou a que faz merda”. Duplas perfeitas, não é mesmo? 

“Eu gosto do Carnaval desde que eu era pequena. Sempre fui muito festeira. O mais mágico é que ninguém julga ninguém e fica todo mundo feliz, coisa que a gente não vê no resto do ano”, diz Isabela. O sentimento agora é de estranheza e de saudade, mas ela garante que é por uma boa razão. “Vão ter muitos carnavais ainda pela frente, a saúde da gente tem que estar em primeiro lugar”, opina. 

Em 2020, o tema da festa para Salvador foi ‘O Carnaval dos Carnavais’. Propício para aproveitar além da conta, já que a folia vai ter que esperar mais de um ano para acontecer de novo. Os foliões vão precisar segurar a onda, e a chave da cidade vai ficar bem guardada para, quando o Carnaval chegar de novo, escancarar as portas de Salvador para a maior folia de todos os tempos. 

O CORREIO Folia é uma realização do jornal CORREIO com o apoio da Bohemia Puro Malte e da Drogaria São Paulo. A transmissão é da ITS Brasil e E_Studio

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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