'Se preso já mandava matar, imagine agora?', diz delegado sobre soltura de Val Bandeira

minha bahia
15.04.2020, 05:00:00
Atualizado: 15.04.2020, 06:33:12

'Se preso já mandava matar, imagine agora?', diz delegado sobre soltura de Val Bandeira

Quando preso, líder do Comando da Paz ordenou execuções de rivais e policiais

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Fundador do Comando da Paz, Val Bandeira foi solto nesta terça (14) (foto/reprodução/Almiro Lopes)

A soltura do traficante Joseval Bandeira, 44 anos, o Val Bandeira, líder do Comando da Paz (CP) e fundador da facção no complexo do Nordeste de Amaralina, é vista com preocupação para entidades de segurança da Bahia.

Para o delegado Deraldo Damasceno, titular da 28° Delegacia, unidade instalada no complexo de bairros - Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas e Chapada do Rio Vermelho - por exemplo, a liberdade é motivo de apreensão.

"Se preso já mandava matar, destruir, imagina agora? É com preocupação que recebemos essa notícia, mas a polícia está preparada para o que der e vier", disse o delegado em entrevista ao CORREIO, na manhã desta terça-feira (14). 

Val Bandeira foi solto na segunda-feira (13), após ter sido beneficiado por uma condicional, e terá de usar tornozeleira eletrônica. A decisão foi da Justiça Federal de Pernambuco, onde o traficante estava preso por ter sido flagrado pela Polícia Rodoviária Federal com documentos falsos na cidade de Salgueiro. 

A Justiça Federal em Pernambuco informou ao CORREIO que "o réu Josevaldo Bandeira, vulgo 'Val Bandeira', foi colocado em liberdade condicionada, com uso de tornozeleira eletrônica, no último dia 13 de abril, em cumprimento ao Habeas Corpus concedido pela Primeira Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5), no dia 7 de abril".

Deraldo Damasceno já foi vítima de uma emboscada armada pela facção criminosa do traficante, no dia 11 de março deste ano. Segundo conta, ele recebeu uma denúncia pelo Centro Integrado de Comunicações (Cicom) de que havia um corpo na Rua São Geraldo. Após a informação, o delegado foi até a região e, ao chegar, foi surpreendido por um grupo armado.

“Ao chegarmos na rua, lá estavam grupos de marginais nos esperando que, de imediato, dispararam contra a gente. Houve revide, mas acredito que ninguém saiu ferido. Com a chegada do reforço, não colocaram mais a cara”, afirmou o delegado, que voltou a criticar a soltura.

"A sociedade só tem a perder com um cidadão desse fora das grades. A tornozeleira eletrônica não o impede de agir, pois é um sujeito muito inteligente, apesar da pouca escolaridade. Ficará mais fácil orquestrar suas ações", avaliou.

Durante a troca de tiros entre os criminosos e os policias, Deraldo recebeu reforço de agentes da 40ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM/Nordeste de Amaralina) e do Pelotão de Emprego Tático Operacional (Peto).  

"O Serviço de Inteligência (SI) da Secretaria de Segurança Pública (SSP) descobriu que o ataque foi comandado por Trovão, um dos gerentes de Val, em resposta à morte de um dos integrantes da facção num confronto com a Polícia Militar, na ocasião. Uma ação ousada como esta não seria feita sem a aprovação de Val Bandeira, com certeza", declarou o delegado. 

O CORREIO procurou a Secretaria de Segurança Pública (SSP) da Bahia, para repercutir a decisão da justiça. Por meio de sua assessoria de comunicação, a SSP informou que "não comenta decisão judicial". 

Já o especialista em segurança pública, coronel Antônio Jorge, avalia que, dentro ou fora do sistema penitenciário, o traficante continua representando um perigo para a sociedade e é justamente isso que preocupa. 

"Condenar alguém a uma pena privativa de liberdade significa que se está apenas punindo, entre aspas, mas você não está conseguindo intimidar, conter e reeducar. Então, das quatro finalidades da pena, apenas uma está funcionando, e muito mal, que é a questão da punição. Não é ironia, mas acredito que é mais fácil o sistema de segurança pública acompanhá-lo mais de perto e até efetivamente, desta vez, e prendê-lo pela prática de outros delitos, e não por apenas estar dirigindo com documentos falsificados", declarou o coronel, professor e coordenador do curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia.

Outros casos
Esta não foi a primeira vez que policiais da delegacia foram alvo da CP. No dia 24 de fevereiro, o próprio Deraldo Damasceno pediu reforços porque cerca de 50 homens armados, alguns com fuzis, pretendiam invadir a unidade policial e atacar também um posto da Polícia Militar montado no final de linha do Nordeste especificamente para o Carnaval no bairro.

"Aquele dia foi tenso e intenso. Eram homens posicionados em becos e vielas, uns 50 homens armados de pistolas e fuzis”, lembrou o delegado, que no dia usou o código CQ15 – um pedido de socorro empregado pela corporação quando há ameaça à vida de policiais.

Instantes depois, houve o reforço da PM – 23 viaturas e um helicóptero do Grupamento Aéreo –, e os bandidos recuaram. O motivo para o ataque foi a morte de um homem durante um confronto com policiais militares na madrugada do mesmo dia no Complexo do Nordeste.

Ao grupo de Val é imputado a morte do policial militar Gustavo Gonzaga da Silva, 44, o cabo Gonzaga, assassinado no dia 8 de junho de 2018, em Santa Cruz. Gonzaga voltava para casa depois do trabalho e dava carona para um amigo de infância, conhecido como Jai, quando foi abordado por três criminosos. O PM foi torturado e teve o corpo mutilado antes de ser morto pelo trio. Gonzaga ainda recebeu vários tiros na cabeça.

Facção fortalecida
A soltura de Val Bandeira deve fortalecer ainda mais o CP no complexo do Nordeste, acredita Deraldo. "Ele briga para ninguém conquistar aquele lugar. Ele luta para manter o que tem e é alvo de cobiça de outras facções", avalia o delegado. O CP resiste não só às ações de grupos rivais, como o Bonde do Maluco (BDM), mas também às ações das unidades da SSP no complexo: a 28° Delegacia, a 40ª CIPM e três Bases Comunitárias. 

Val também deve estabelecer a ordem no recinto. Dias antes do início do Carnaval, uma troca de mensagens provocou um racha dentro próprio CP no complexo do Nordeste - um dos grupos que atua numa rua estava incomodado com a falta de abastecimento de maconha e lança perfume. "Isso não vai acontecer mais, porque ele se fará mais presente no Nordeste, tem parentes lá. E, se isso surgir novamente, ele liquida o problema sem o menor esforço. Ele é cruel", disse o delegado.

Hierarquia
Na hierarquia do CP no complexo do Nordeste, Leandro Marques Cerqueira, o Leandro P, está abaixo de Val Bandeira. Ele está custodiado no Complexo Penitenciário da Mata Escura e, assim como fazia Val, manda por trás das grades. 

Leandro P foi preso em novembro de 2016. Policiais militares faziam rondas quando avistaram uma HB20 na Rua Amazonas, na Pituba. Com ele, foram encontrados 11 pinos de cocaína e uma certa quantia de dinheiro. Leandro tinha três mandados de prisão em aberto por homicídio - entre elas, a do soldado da Polícia Militar Diego Márcio Tavares de Oliveira, em 2014. Além disso, Leandro seria dono de uma frota de seis táxis.

Em 2012, ele foi preso quando preparava uma fuga para São Paulo. No momento da prisão, realizada em São Caetano, os investigadores apreenderam com Leandro R$ 39.500 em dinheiro, uma caminhonete Fiat Strada e um Palio Adventure, além de cinco celulares e chaves de outros três carros. 

Ainda sobre o organograma da facção, abaixo está Marcelo Henrique Menezes dos Santos, conhecido como Elias ou Pinto. Ele é um dos gerentes do grupo e está solto depois de não retornar ao Complexo Penitenciário da Mata Escura após o benefício de uma saída temporária.

Logo em seguida está Pai Pequeno, que atualmente está no Nordeste e recebe ordens da ponta da pirâmide. Recentemente, um dos integrantes da facção, ligado a Pai Pequeno, morreu em confronto com a polícia. Jadson de Araújo Pinheiro, 26, foi baleado num tiroteio com policiais civis do Departamento de Crimes Contra Patrimônio (DCCP) no Nordeste de Amaralina.  

Rivalidade 
Atualmente, o maior adversário do CP é a maior facção do estado, o BDM. Segundo fontes da SSP, a facção estaria se estruturando depois de duas mortes no escalão do grupo no final de 2019. "Já existem alguns nomes, mas ainda não podemos falar, para não superdimensionar a coisa", disse a fonte.

A primeira e mais significativa baixa da BDM foi a morte do líder e fundador do grupo criminoso, Zé de Lessa.  Natural da cidade de Cafarnaum, Zé de Lessa foi morto pela polícia em Mato Grosso do Sul no dia 4 de dezembro do ano passado, em uma chácara localizada entre as cidades de Aral Moreira e Coronel Sapucaia. Ele era também procurado pela Polícia Federal. 

A segunda foi a morte de Jão de Pirajá no dia 17 do mesmo mês. Era de madrugada quando pelo menos seis policiais do Comando de Operações Especiais (COE) invadiram três apartamentos do Flat Jardim de Alah na Avenida Octávio Magabeira, na Praia de Jardim de Alah, em Salvador. Ele teria reagido e, por isso, foi morto. 

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