Segunda suspeita confessa que deu tiro que matou estudante, diz polícia

salvador
04.08.2022, 14:06:00
(Reprodução)

Segunda suspeita confessa que deu tiro que matou estudante, diz polícia

Cristal Pacheco, 15 anos, foi morta no Campo Grande quando ia para a escola

O tiro que interrompeu a vida da estudante Cristal Pacheco, de 15 anos, já tem autoria confessa. Ao se apresentar no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa nesta quinta-feira (4), Andréia Santos Carvalho, de 28 anos, assumiu a responsabilidade pelo disparo que atingiu a menina na frente da mãe e da irmã no Campo Grande, na última terça-feira (2). 

A delegada Andréa Ribeiro, diretora do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), afirmou em coletiva nesta tarde que a suspeita estava escondida na cidade de Nova Soure, no interior  da Bahia, mas resolveu se apresentar com um advogado depois que teve prisão decretada pela Justiça.

A arma usada no crime ainda está sendo procurada, diz a delegada. "Não temos informações sobre a arma, estamos em busca dessa cadeia de como que essa arma chegou na mão das duas autoras do crime", diz.

A polícia ainda não sabe se as duas suspeitas costumavam atuar juntas em crimes pela região, mas Andréia confessou o crime e também confirma que ela que efetuou os disparos contra a adolescente. Segundo a Polícia Civil, a acusada foi presa quatro vezes nos últimos três anos por furtos em shopping e supermercado na capital baiana.  No histórico da mulher a primeira passagem ocorreu, em 2019, após um furto no Shopping Barra. Ela foi apresentada na 14a Delegacia Territorial (DT) da Barra.

A segunda prisão aconteceu no ano de 2020. A criminosa foi apresentada na Central de Flagrantes, após furto no supermercado Bom Preço, na Avenida Bonocô. Em 2021, Andreia foi capturada outras duas vezes por furtos no Shopping da Bahia. Ele foi apresentada na 16a DT na primeira ocorrência e na Central de Flagrantes no segundo caso.

A suspeita ainda está sendo ouvida para dar detalhes sobre toda a dinâmica do fato que resultou na morte de Cristal. "Após o crime, ela teve suporte da família e seguiu para o interior do estado. Resolveu se apresentar, acredito que por conta da repercussão do crime, na mídia não só local, mas também nacional", avalia a delegada. 

Ainda não se sabe se o tiro foi dado propositalmente ou foi um disparo acidental, acrescenta Andréa Ribeiro. "São muitas questões que precisam ser esclarecidas, vamos somar tudo que foi apurado para chegar a um resultado", diz. "Elas não falaram o que queriam, mas a princípio nos parece que a motivação é de cunho patrimonial, queria roubar objetos das vítimas".

Ambas as presas são usuárias de droga e provavelmente os objetos roubados seriam usados em permutas por tóxicos. 

Depois do depoimento, as duas presas passarão por exame de lesão corporal e seguirão para o sistema prisional. 

Protesto 

Amigos e familiares da vítima criaram o Movimento Cristal para pedir por mais  segurança na Bahia. Na próxima segunda-feira (4), após a Missa do 7° dia da morte adolescente, o grupo vai se reunir em frente ao Palácio da Aclamação, no Campo Grande, onde aconteceu o crime, para protestar. 

“Vivemos um momento que pede prudência, autocuidado e muita fé. O ‘caso Cristal’ é mais um no meio de muitos outros latrocínios que têm acontecido em nosso Estado, e de forma crescente. Não podemos permitir que os índices de criminalidade continuem subindo, assustando toda a sociedade. Não devemos banalizar esses crimes brutais. Sabemos que as questões ligadas à Segurança Pública são bem mais complexas, apenas investimentos sem desenvolvimento social não são eficazes”, diz o comunicado do protesto. 

A Missa do 7° dia será realizada na Capela do Colégio das Mercês, onde ela estudava,  às 7h30.

Crime
A adolescente Cristal Rodrigues Pacheco, 15 anos, que seguia para a escola, foi morta durante uma tentativa de assalto, a pouco metros da sede do Comando Geral da Polícia Militar.

Moradora do Corredor da Vitória e estudante do Colégio das Mercês, a adolescente estava acompanhada da mãe e da irmã quando foi abordada. Segundo informações iniciais, no meio da ação, uma das suspeitas, que carregava uma pistola calibre 653, acabou atirando contra a garota, que foi atingida no peito e morreu no local.

O crime aconteceu em frente ao Palácio da Aclamação, próximo ao Campo Grande. Cristal não resistiu aos ferimentos e morreu antes mesmo de ser atendida, ainda com o uniforme da escola. A mãe e a irmã de Cristal não sofreram ferimentos e estão em casa.

A primeira suspeita presa, Gilmara Daiam de Sousa Brito, confessou a participação no crime, mas negou ter disparado contra Cristal. Ela passou por audiência de custódia na manhã de hoje e deve ser encaminhada ao presídio. Gilmara já tinha passagens por tráfico de drogas e roubos.

'Eu ouvi o disparo', diz mãe
A mãe da estudante falou na noite de quarta-feira (3), pela primeira vez sobre a morte da filha mais velha. Em entrevista à TV Bahia, ela deu detalhes sobre a tentativa de assalto que culminou no assassinato da filha. Sandra depôs na polícia também nesta quarta. 

À TV, ela contou que andava com as filhas pelo passeio,  quando foi abordada pelas criminosas. "Foi muito rápido. Uma era baixinha e uma do cabelo aloirado. Ela simplesmente anunciou o assalto, falei que não tinha celular e ela disse: 'você tem um relógio e uma aliança'. Ela baixou a cabeça e me mostrou um revólver que não consegui identificar o calibre, porque não tenho conhecimento, só sei que a arma era pequena. Ela também estava com uma faca estilo açougueiro com o cabo branco", lembra.

A mãe de Cristal também agradeceu as homenagens que vem recebendo de colegas da filha e pessoas que não conheciam a vítima. “Me senti abraçada e amada ao saber que minha filha era muito querida".

Quem era Cristal

A jovem estudante era moradora de um prédio na região do Campo Grande, próximo ao Corredor da Vitória, local de classe média na capital baiana. Segundo amigos e vizinhos, a adolescente sempre foi educada, dedicada aos estudos - ela cursava o 9° ano do ensino fundamental -, amorosa com os pais e a irmã, Fernanda, de 12 anos.

De acordo com depoimentos de pessoas próximas à estudante, Cristal era atenciosa com os amigos e estava disposta a ajudar no que eles precisavam. Sua dedicação aos estudos sempre foi prioridade. 

O adeus foi dado, mas as lembranças seguem vivas em quem guarda Cristal na memória. Primo da mãe da menina, Nilton Cesar Santos de Jesus, 47 anos, lembra com carinho da infância da garota. “Uma pessoa alegre, divertida, que só queria o bem. Gostava muito de estudar. Uma filha que queria dar orgulho para os pais. Ela foi porta aliança do meu casamento há oito anos. Essa é a lembrança que vai ficar de Cristal”, disse.

Mariana Guedes, 14, estudou com Cristal e lembra o quanto ela era especial. “Estudamos juntas por cerca de cinco anos. Ano passado ela mudou de escola, mas a gente não perdeu contato em momento algum. A gente continuou saindo, se vendo. Tenho ótimas lembranças dela, era uma menina incrível, de verdade. Um amor de menina, muito talentosa e atenciosa com todo mundo”.

Adolescentes pintaram as mãos de vermelho para protestar contra insegurança

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Relembre o caso:

Rotina  - Todos os dias, por volta das 6h30, Cristal Rodrigues Pacheco, 15 anos, fazia o mesmo caminho para o Colégio Nossa Senhora das Mercês, que fica localizado na Avenida Sete de Setembro, junto com a mãe e a irmã mais nova, Fernanda, de 12 anos. A  estudante era moradora de um prédio no Campo Grande, próximo ao Corredor da Vitória. Segundo amigos e vizinhos, a adolescente sempre foi educada, de- dicada aos estudos - ela cursava o 9° ano do ensino fundamental -, e amorosa com os pais e a irmã caçula;

Abordagem  - Cristal, a mãe e a irmã passavam em  frente ao Palácio da Aclamação, na terça-feira (02), quando, do lado direito da avenida, duas mulheres se separaram e, em questão de segundos, abordaram as três, assustando-as. A tática é conhecida e muito usada por duplas de assaltantes que atuam no centro da cidade; 

Tentativa de assalto  - A mãe de Cristal contou à polícia que as mulheres anunciaram o assalto e que ela informou não estar com celular. Uma das assaltantes mostrou a arma e pediu a aliança e o relógio de Sandra Pacheco;

O tiro  - A suspeita presa contou à polícia que sua comparsa se atrapalhou durante a ação e a arma acabou disparando, feridondo-a de raspão e atingindo em cheio a estudante. Cristal recebeu um tiro no peito dado por uma pistola pequena - possivelmente calibre 653, mas que ainda não foi achada pela polícia -, em curta distância. Segundo o médico e perito do Departamento de Polícia Técnica (DPT), Marcos Mousinho, foi "um tiro direcionado para matar";

Ajuda -  Nas imagens das câmeras de segurança que filmaram a cena, dá para ver que a mãe de Cristal, vendo a filha caída no chão, correu para socorrê-la e não percebeu que as duas suspeitas levaram a mochila da estudante com todos os pertences. À TV Bahia, Sandra Pacheco disse que as duas suspeitas sairam correndo após os disparos contra Cristal. Fernanda, a irmã mais nova, correu para pedir ajuda, mas   Cristal morreu no local do crime, nos braços da mãe. O corpo da adolescente foi enterrado no começo da noite de terça-feira (02), no Campo Santo, sob forte emoção.

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