Sem ônibus, comércio de Salvador vê queda de até 90% nas vendas

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24.05.2018, 05:00:00
(Foto: Betto Jr./CORREIO)

Sem ônibus, comércio de Salvador vê queda de até 90% nas vendas

Diariamente, sem paralisação, o varejo soteropolitano fatura de R$ 70 a R$ 80 milhões, mostra cálculo da Fecomércio

O presidente da Associação Comercial da Bahia, Adary Oliveira, circulou nesta quarta-feira (23) da Pituba ao Comércio. Da cidade Alta à Baixa, o mesmo sintoma de maresia, as lojas e ruas vazias. Em dia de greve dos rodoviários, os comerciantes soteropolitanos amargaram a queda no fluxo de clientes.

Sem ônibus, mas com estoques cheios, os varejistas precisaram trabalhar com uma queda aproximada de 90% nas vendas, segundo estimativa feita por Oliveira em passagens por lojas da cidade. Diariamente, sem paralisação, o varejo de Salvador fatura de R$ 70 milhões a R$ 80 milhões, mostra cálculo da Fecomércio.

O maior impactado, estima Adary Oliveira, é o comércio varejista de rua, muito devido à ausência de funcionários, que não conseguiram chegar ao trabalho. O CORREIO contatou oito lojas de rua em Salvador. Em uma delas, na Avenida Joana Angélica, até as 15h30 desta quarta-feira (23), somente três pessoas haviam entrado no estabelecimento - um deles comprou um edredom R$ 49 e outro uma fronha, por R$ 15. Durante dias regulares, o luvro é de, em média, R$ 3 mil.

Na loja Nutrimaster, localizada na Pituba, também foi notado o impacto da paralisação. O fluxo por dia é de, geralmente, 150 pessoas. Nesta quarta, passaram pela porta de entrada da loja de produtos naturais, uma média de 60 - queda de 40%. "No final da tarde, isso aqui fica lotado, agora mesmo, não tem ninguém", declarou uma vendedora, sob anonimato, pouco antes das 18h da quarta-feira (23).

O comércio, continua Adary Oliveira, passa por um desafio duplo: os problemas causados pela greve e a retomada do setor na Bahia.

“Nós já estamos passando por um momento de tentar superar as dificuldades causadas pela crise. A paralisação só impacta negativamente”, diz o presidente da Associação Comercial da Bahia, Adary Oliveira. 

A Superintendência de Estudos Econômicos (SEI) registrou, na Bahia, um crescimento de 1,0% no mês de março no varejo, quando comparado a igual mês do ano de 2017.

Prudente
Já o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes de Lojistas da Bahia (FCDL), Pedro Luiz Failla, acredita que, no momento, “é difícil dimensionar o prejuízo”. Há, contudo, uma certeza: “a redução movimento líquido”. Ele conclui: “O prejuízo é certo”. 

O representante do grupo afirma que a FCDL não adotou nenhuma ação para tratar especificamente da greve, dos problemas causados aos comerciantes. “Nós não temos muito o que fazer. Toda vez que chamamos a dar opinião, nos manifestamos. Nosso trabalho é fomentar o comércio sempre”, declarou. 

Há, contudo, exceções no comércio de rua. No MC Dolnad's do Rio Vermelho, por exemplo, nenhum indício de impacto. Na quarta-feira da semana passada, até às 16h, 200 clientes já tinham passado pelo local, somou um funcionário à reportagem. Nesta quarta (23), o número de compradores havia sido o mesmo. O lucro em dias de semana chega a R$ 25 mil.

Shoppings: queda existe, mas é amenizada pelo metrô
Nos shoppings de Salvador, circulam, por dia, uma média de 450 mil pessoas. Também diariamente, calculou o coordenador regional da Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce), Edson Piaggio, a pedido do CORREIO, esses centros comerciais lucram R$ 15 milhões. Nesta quarta, dia de greve, a redução das vendas é de 10% a 20%. Menor que a do varejo de rua por um motivo: a proximidade das estações de metrô.

O levantamento realizado por Piaggio considera os seguintes shoppings: Salvador Norte, Salvador, Paralela, da Bahia, Passeo, Itaigara, Barra, Bela Vista, Piedade e Lapa. Dos d eezspaços, sete possuem estações de metrô a poucos metros de distância. Mas, Piaggio ressalta: “O impacto é sentido, o metrô apenas minimiza. Agora, a questão é que muita gente só vai de ônibus, então não tem como não ser atingido”, aponta.

Na cafeteria Viva Gula do Salvador Shopping, a gerente Ana Cristina confirmou à reportagem que houve pouco, ou nenhum, impacto nas vendas desta quarta. "Acredito eu que pode ter uma interferência do perfil do cliente também, geralmente com carro próprio, empresários que trabalham próximo [na Avenida Tancredo Neves]", afirmou. Em dias de semana, a média de clientes é de 500; nos finais de semana, 700 - aos sábados, no pico da movimentação, pelo menos 800 pessoas compram fatias de torta, cafés ou salgados vendidos no local. 

Compra por impulso 
Assessor econômico da Fecomércio, Fábio Pina cita um “dano evidente por conta da greve em Salvador”. Mas há uma razão específica para o porquê de a greve impactar as vendas: a maioria das compras, ele afirma, acontecem por impulso. Daí, sem ônibus, não há como chegar ao ponto da tentação; ou melhor, às lojas onde se compra o dispensável.

“Veja, se a compra é planejada, você pode até deixar de comprar hoje. Mas não vai abrir mão da aquisição, comparará depois. Por outro lago, aquele lugar onde você deixou de comprar por que estava de passagem, perdeu a venda para sempre”, explica Pina.

A decisão de abrir uma empresa, ele comenta, é precedida de um estudo do posicionamento do espaço. As lojas do centro da capital, por exemplo, estão situadas em espaços de fluxo intenso de empresas, concentração de empresas, movimentação de ônibus. Ele comenta: 

“Se eu soubesse que todo dia teria uma greve, não seria ali que eu alocaria meu comércio. Se a greve fosse eterna, as de visões seriam diferentes”.

Pina, contudo, evita mensurar o prejuízo: “Sabemos da evidência dos fatos. Só que mensurar é muito difícil, e aleatório. É mais um cálculo empírico”. Em geral, os comerciantes esperam ansiosos o fim da greve. 

*Com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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