Taxados de teimosos, idosos pedem respeito aos cabelos brancos

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09.05.2020, 07:00:00
(Ilustração: Morgana Miranda)

Taxados de teimosos, idosos pedem respeito aos cabelos brancos

Carta de suicídio do ator Flávio Miggliaccio reacende debate sobre a velhice no Brasil

“A velhice neste país é o caos”. A mensagem deixada pelo ator Flávio Miggliaccio antes de morrer, aos 85 anos, na última segunda-feira (4), reacendeu o debate sobre como os idosos são tratados no Brasil. Há “uma devastação dos velhos”, reforçou o também ator Lima Duarte, 90, em depoimento emocionado ao amigo Flávio, gravado em vídeo. 

Em falas distintas, ambos reivindicam outro papel para os mais velhos, historicamente negligenciados e recentemente caricaturados como “teimosos”. “Te entendo, Migliaccio”, desabafou Lima que, ainda que tenha se colocado como alguém que optou pela vida, não julgou a decisão do amigo que cometeu suicídio. Com isso, provocou outra reflexão em torno do tema: o respeito à decisão do idoso.

“Meu pai fez o que fez à nossa revelia. Pegou um táxi e foi para o sítio enquanto eu cuidava da minha mãe no último domingo. Sem nos avisar, sem se despedir. (...) Mas meu pai tinha uma inteligência enorme e era difícil demovê-lo de alguma coisa em que acreditasse”, desabafou o filho de Flávio, o jornalista Marcelo Migliaccio, em carta publicada um dia após a morte do pai.

Apesar de ser contra a atitude, Marcelo disse que Flávio o fez “ver que a maior prova de amor que se pode dar a uma pessoa é respeitar suas decisões”. “Por isso hoje respeito o ato que meu pai teve na madrugada de ontem, fazendo o que acreditava ser a única coisa a fazer. Tentei impedir de todas as formas, sofro agora, e sofrerei para sempre, por não ter conseguido, mas entendo sua decisão”, declarou.

Teimosos?
A relação com a velhice, porém, voltou à cena muito antes do debate provocado por esses dois grandes atores brasileiros. Recentemente zombados por memes que circulam na internet, sendo taxados de desobedientes por não respeitarem a quarentena, como se fossem crianças malcomportadas, os brasileiros acima de 60 anos se queixam da forma como são tratados no Brasil.

“Acho absurdo”, opina a socióloga Alda Motta, 88, pesquisadora de gênero, envelhecimento e das relações entre gerações. Alda, que é uma das fundadoras do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim), conta que ouve frequentemente em seu trabalho de campo os termos “idoso teimoso” que “só quer fazer o quer”. Mesmo os filhos mais amorosos, diz Alda, têm “uma gana de controle” em relação aos mais velhos. 

“Parece que o conhecimento e a experiência do idoso não serve mais para nada”, critica. “Muitas vezes isso acontece por amor, um amor cego, mal colocado, porque os filhos acham que sabem. Mas a decisão é do idoso que estiver lúcido. É ele quem sabe o que quer: se é comida insossa por dez anos, ou apimentada por sete, oito anos”, compara. “O que a pessoa quer fazer com a própria vida?”, questiona.

"A decisão é do idoso que estiver lúcido. É ele quem sabe o que quer: se é comida insossa por dez anos, ou apimentada por sete, oito anos” - Alda Motta, 88 anos, socióloga

A própria Alda relata que não é fácil ser idosa em um país como o Brasil e lembra que situações corriqueiras como uma ida ao médico podem ser desagradáveis. Afinal, já perdeu as contas de quantas vezes o profissional se dirigiu a seu filho para “saber o que é que ela tem”. “Pergunte a ela”, escutou mais de uma vez, e constatou orgulhosa: “Esse é filho de Alda”.

Morte simbólica
A socióloga acrescenta que as relações alimentadas em um ambiente micro como o consultório ou os hospitais refletem, na verdade, o que acontece na sociedade em geral: “o idoso não é importante e não se cuida dele”. E agora, diante das escolhas médicas por “quem tem mais chance de sobreviver” à pandemia, ficou evidente um problema antigo em relação ao principal grupo de risco da covid-19.

“Não duvido que tenha muita gente por aí achando que o coronavírus vai fazer uma limpeza social matando os idosos”, critica. As violências, continua, são muitas: “Sempre no sentido de marginalizar, eliminar. O idoso é alguém ‘que não serve mais para nada’, que ‘não contribui’”.  Mas, apesar da “morte simbólica” imposta, Alda destaca que nem todo mundo “opta por morrer” e “há quem opte por lutar”.

E independentemente da covid-19, o idoso já lida constantemente com a proximidade da morte, lembra o psicanalista Marcelo Braz, 41. “Claro que a covid gera medo, mas a relação do idoso com a morte é praticamente constante”, explica. Por isso é tão importante construir uma rotina que afaste o sujeito desse pensamento, ainda que seja trabalhoso abrir mão desta rotina por causa da imposição do isolamento social.

Difícil é quando, além de ser obrigado a mudar um hábito que muitas vezes é cultivado há décadas, o idoso se vê sem o poder de decidir sobre sua própria vida, afirma o psicanalista. “Já ouvi de um deles ‘não quero sair, porque não quero pegar covid e morrer. Mas me irrita profundamente que outras pessoas achem que estão decidindo por mim’”, conta o profissional.

“Já ouvi de um deles ‘não quero sair, porque não quero pegar covid e morrer. Mas me irrita profundamente que outras pessoas achem que estão decidindo por mim’” - Marcelo Braz, psicanalista

“O que escuto nas sessões é que a sociedade os trata como objetos. Há uma recomendação de que fiquem em casa porque são grupo de risco, mas a partir desse momento se age como se o idoso não tivesse direito à escolha, direito ao desejo e isso tem sido um peso muito grande para eles. Se você cerceia a liberdade de escolha, você pode gerar outros problemas”, alerta.

Claro que o poder de decidir sobre a própria vida caminha junto com as responsabilidades sobre si e sobre o outro, lembra Marcelo (confira a entrevista completa no final desta matéria). E quando se trata de sair na rua durante a pandemia que já matou mais de 8 mil pessoas no Brasil, vale ressaltar que só na Bahia morreram 125 idosos, do total de 183 óbitos registrados pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) até 17h de sexta (8).

O coronavírus já matou 125 idosos, do total de 183 óbitos registrados pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) até 17h de sexta-feira (8)

Independência
Ciente disso, o advogado aposentado Gilson Costa de Oliveira, 80, segue com sua rotina de sair de casa pelo menos duas vezes por dia para “espichar as pernas” e toma todos os cuidados necessários. Para ir ao mercadinho por exemplo, “que é pertíssimo”, vai protegido com a máscara.

“Sou de um grupo de risco, mas sem risco”, justifica, com bom humor, o advogado aposentado que passou a usar o item só depois que se tornou obrigatório. “Tenho a sorte de não ter nenhuma comorbidade, só uma hipertensãozinha controlada. Como de tudo, bebo meu whisky, cervejinha, mas sem exagerar”, garante, sorridente.

Mesmo com os cuidados, Gilson não abre mão de sua independência, afinal sempre morou sozinho e foi “dono de si”. Por isso não abriu mão da comemoração do seu aniversário de 80 anos com a família, no fim de semana. Mesmo que a pequena reunião na casa do sobrinho fosse acompanhada de restrições, como não beijar o neto que tanto ama, por causa dos riscos.

Apoiado pela família, Gilson confessa que se sente uma exceção. Afinal, a sociedade não está preparada para respeitar os idosos, em sua opinião. “Acho que é uma coisa antiga essa ideia de que se você envelheceu, sua vida ‘passa a ser arriscada’. Mas é porque ficou velho que perdeu a capacidade de raciocinar, se posicionar politicamente, falar sobre sexo, sobre essas coisas corriqueiras?”, questiona.

"Mas é porque ficou velho que perdeu a capacidade de raciocinar, se posicionar politicamente, falar sobre sexo, sobre essas coisas corriqueiras?” - Gilson Costa, 80 anos, advogado aposentado

Em seguida, Gilson defende que a grande maioria dos idosos “se acanha muito”, mas ele faz questão de se posicionar. Principalmente na pandemia. “Minha família sabe que sempre tive minha independência mental, física e econômica”, justifica. “Tenho o maior cuidado. Poxa, tô com saúde, você acha que vou entrar em uma dessa e vacilar? Não dá. Pretendo queimar uma lenha ainda”, conclui rindo.


Peça ajuda

Psiu Acolhimento – Plataforma formada por psicólogos voluntários dedicados a atender pessoas que sofrem com ansiedade, depressão e outros problemas durante o período da quarentena | https://psiuacolhimento.com.br/home

Espaço Vital Desenvolvimento Humano – Atendimento psicoterapêutico online e gratuito dedicado a acolher as pessoas que estão sofrendo impactos emocionais por causa do coronavírus (dois encontros por pessoa) | 9 9121-1418

Rede Escuta Saúde – Psicanalistas oferecem escuta especializada online aos profissionais de saúde que estão no enfrentamento à covid-19 no Instituto Couto Maia, Hospital Ernesto Simões, Samu, Iperba, TeleCoronavírus e Salvar | 9 9907-3898

Melhora.me – Série de três vídeos gratuitos que ajudam a aliviar os sintomas da ansiedade provocada pelo isolamento social. Disponível até domingo (10/05). | melhora.me

Marcelo Braz é psicanalista lacaniano (Foto: Divulgação)

ENTREVISTA - Marcelo Braz

'Todos têm responsabilidade pela saúde do outro'

A recomendação é ficar em casa por causa do coronavírus, mas e se o indivíduo não quiser? “Vai prendê-lo? E se ele morrer pela impossibilidade de se reinventar?”, alerta o psicanalista Marcelo Braz, 41, sobre o público acima de 60 anos. Segundo ele, a decisão final tem que ser do idoso, mas sair de casa também significa gerar riscos. “Todo mundo tem responsabilidade pela saúde do outro”, afirma. Confira.

Quais cuidados deve-se  ter com os idosos? 
Tomá-los como sujeitos. Perguntar o que querem e ser capaz de suportar as respostas. Os idosos têm desejos, gozos, paixões que não podem ser ignoradas. “Ah, mas eu disse que meu pai não pode sair de casa porque está idoso e pode morrer por causa do coronavírus”. Pode até ser, mas e se ele tiver um desejo, como fazer? Prendê-lo em casa? E se ele morrer pela impossibilidade de se reinventar? O corpo sofre os efeitos disso.

Vale argumentar? 
Pode-se dar argumentos, mas se a pessoa disser que precisa tomar um ar, tem que respeitar. Claro que todo mundo tem responsabilidade pela saúde do outro. Se as pessoas decidirem não se cuidar, não lavar as mãos, não passar álcool em gel, ou não evitar contato com o outro, não vai funcionar. E isso independe de ser idoso.

Quais são as principais queixas que você escuta? 
O que escuto dos idosos nas sessões é que a sociedade os trata como objeto. Há uma recomendação de que fiquem em casa porque são do grupo de risco e a partir desse momento se age como se o idoso não tivesse direito a escolha. Isso tem sido um peso muito grande para eles. Se você cerceia a liberdade de escolha, você pode gerar outros problemas. 

Por que a relação com o envelhecimento é difícil? 
O conceito de velhice varia com o tempo - hoje não é a mesma do século passado - e isso fica claro na forma com que reagem a isso. Muitos não se veem como idosos, mas como pessoas produtivas, capazes. Então não aceitam com facilidade esse lugar de “objeto”. Como dizer a essas pessoas que não trabalhem, não passeiem?

De onde vem a dificuldade de ficar em casa, mesmo sabendo se tratar de um vírus mortal? 
A covid talvez esteja despertando um pouco a percepção de que nós somos finitos, de que morremos. Talvez para a população mais jovem seja uma experiência nova essa possibilidade de morrer, mas para o idoso é uma constante. (...) Pode haver idosos que já não têm tanto desejo, tanta vontade de viver e acabam dizendo: “Bom, vou morrer mesmo, seja pelo coronavírus, ou outra coisa”. Existe, mas isso é mais exceção do que regra. O que incomoda mais na relação com as famílias - a partir da minha experiência clinica - é que essa não seja uma escolha deles.

Como lidar com a mudança de hábito? 
Não é fácil, porque todas as pessoas - não só os idosos - têm seus investimentos libidinais, seus interesses. A gente investe em determinados objetos – como um carteado com os amigos – e agora nesse momento precisa mudar esse hábito. Fazer com que a pessoa consiga reinvestir a sua libido, sua ocupação em outros objetos, não é fácil. E isso provoca efeitos sobre a sanidade mental.

O que se passa no isolamento, muitas vezes, é o processo de luto, de não poder fazer as atividades que sempre fez. É necessário conseguir se afastar disso e aceitar essa perda.

Quais reflexões podemos fazer a partir da mensagem do ator Flávio Migliaccio?
É um momento triste para todo mundo e a sensação é que foi um ato politico de “vamos respeitar os idosos e criar as crianças para construir um futuro melhor”. Muita gente ainda não se deu conta - ou porque está negando, ou porque está pensando tanto em sobreviver - sobre quais efeitos isso vai causar depois. Como vou me reinventar? Principalmente os idosos. Os suicídios aparecem muito em seguida aos grandes desastres, como uma pandemia, ou uma guerra. O melhor a se fazer é debater. Fingir que isso não aconteceu não vai ajudar. A gente tem que debater essa urgência subjetiva atual.

 *Marcelo Braz é psicanalista lacaniano e possui 15 anos de atuação na área

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