Telemedicina agrada a médicos e pacientes e impulsiona empresas

tecnologia
24.05.2020, 08:52:00
Atualizado: 25.05.2020, 21:39:50
(Reprodução)

Telemedicina agrada a médicos e pacientes e impulsiona empresas

Profissionais, no entanto, não pretendem abandonar consultas físicas

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Em um momento de pandemia, em que o isolamento social é o remédio mais eficiente segundo cientistas, sair de casa é sempre um risco, ainda mais se o destino for uma unidade de saúde. No entanto, não é por que a covid-19 se tornou a doença mais preocupante do momento que as outras deixaram de existir, ainda mais para quem já convivia com problemas médicos.

Assim, para preservar tanto pacientes quanto profissionais de saúde (e aqueles que trabalham em unidades de saúde, como atendentes e seguranças, entre outros), desde meados de abril a telemedicina se tornou possível. A partir dela, é possível tanto se consultar por telefone ou videochamada como compartilhar exames, fotos e que o acompanhamento médico/paciente seja mais seguro. 

Além disso, receitas e atestados também poderão ser emitidos remotamente com a exigência de que os médicos usem Certificado Digital para assinar esses documentos, lembrando que isso deve respeitar o padrão da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil). A adesão ao modelo exige que o profissional possua um Certificado Digital, garantindo a confiabilidade e segurança dos dados e informações dos pacientes e do próprio médico.

A discussão sobre telemedicina já existia no Conselho Federal de Medicina (CFM) há algum tempo. De acordo com Júlio Braga, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) e membro do CFM, uma resolução autorizando a prática chegou a ser publicada pelo órgão, mas acabou sendo revogada devido à quantidade de críticas. Nesse momento, dá para dizer que os médicos abriram uma espécie de concessão para que a telemedicina pudesse ser utilizada.

“Foi revogado para ser feito com mais calma. Esse ano, já estava em tramitação, sendo aberto para sugestões, críticas e discussões e acabou sendo protelado pela questão da pandemia. Então, foi mantido numa indefinição. Tem algumas vantagens, mas também há muitas desvantagens e receios”, explica o médico.


Para ele o principal problema é tirar uma característica da relação médico/paciente, que é a proximidade. “Nesse momento de pandemia, é usado porque justamente você quer tirar a proximidade. Mas numa situação habitual, é perigoso você autorizar planos de saúde, por exemplo, a fazer isso como uma forma especial ou mais barata, mais fácil para os governantes disponibilizarem, sem dar a alternativa que a gente reconhece como melhor que é a presencial”, diz Braga, que receia que haja um estímulo financeiro ou condição para que o paciente procure um médico de forma presencial.

Além disso, o vice-presidente chama a atenção de que a telemedicina, sem a regulamentação ideal, pode servir de tapa-buraco para a não-adoção de políticas públicas em locais de vulnerabilidade social. “A dificuldade eventual de governador ou secretário de saúde de colocar um posto de saúde numa comunidade mais violenta ou isolada não pode ser justificativa para oferecer apenas telemedicina”, explica. “A atividade médica é muito particular, personalista, que não se resolve com um telefonema e nem mesmo por vídeo”.

Efetiva
Quem tem usado a telemedicina, tem aprovado. A administradora Daniela* gostou do suporte que teve. “Meu plano de saúde fornece um serviço de monitoramento via Whatsapp para quem apresenta sintomas gripais ou suspeita de covid-19. Todo o contato foi feito por Whatsapp. Enquanto estava com sintomas gripais, uma equipe médica me acompanhou. Mandavam mensagem com frequência para acompanhar durante todo o período”, relata.

Em sua segunda experiência, ela precisou de uma indicação de medicação e novamente utilizou a telemedicina. “Quando precisei de receita médica ou ser analisada por um médico individualmente, utilizei outro serviço fornecido pelo plano.  Uma consulta por vídeo através da plataforma do hospital. Ao final, o médico enviou a receita dos medicamentos por email”, conta.

Com a receita contendo o certificado digital, o paciente vai na farmácia, que faz a consulta do certificado e aprova a compra do medicamento. Para o diretor comercial da Soluti, empresa especializada em tecnologia da informação com ênfase em Certificação Digital, Júlio Mendes, a Certificação Digital é de extrema importância para que médicos, pacientes e gestores sigam todas as recomendações da resolução da telemedicina. 

“Além de ser uma forma de evitar falsificações, pois com a assinatura Digital não há repúdio, ou seja, uma pessoa ou entidade não pode negar a autoria da informação fornecida, além de garantir a identidade do profissional”, esclarece.

No caso do professor Ricardo França, de 34 anos, o médico que atendeu sua filha Flora, de 4 anos, já era conhecido por ser tio da esposa. A opção pela consulta por videochamada se deveu a diversos fatores: a criança estava tossindo, o profissional tem mais de 65 anos e estava fora de Salvador. “Eu achei muito eficiente, o médico era bastante experiente”, disse.

Por vídeo, o professor foi orientado pelo profissional. “Pela descrição do quadro que minha filha apresentou, ele nos sugeriu inclinar o colchão, e manter um intervalo de 2h entre as refeições e o sono. Caso a tosse não diminuísse em três dias, ele iria pedir exames específicos e prescrever antibióticos. Nesse caso, ele acertou. Era uma pneumonia broncoaspirativa. Ela tem refluxo e aspirava para os pulmões, isso causava a tosse. No espaço de três dias, a tosse passou, não precisamos fazer uso de
medicamentos”, conta.

Segurança
Para os médicos, um dos principais problemas é a segurança no armazenamento das informações, uma espécie de prontuário eletrônico. “Nós não fizemos nenhuma exigência para a implementação da telemedicina, como programas especiais. Mas já existem uns que cobram até 30% do valor da consulta e não garantem o armazenamento das informações”, diz Júlio Braga.

De acordo com ele, a orientação é que para médico anotar tudo em seu prontuário normal, como na forma que fazia numa consulta presencial: “As informações têm que ser guardadas com todo sigilo de um prontuário, não pode ficar na mão de uma operadora que o médico nem conhece direito e terá dificuldade de acessar. O prontuário tem força de documento com credibilidade”.

O cirurgião ortopédico Marízio Macedo, 39 anos, corrobora da opinião. “Acho que precisa ter segurança, é um documento médico legal, não tem vencimento, é pra vida inteira. Enquanto, o paciente estiver vivo, enquanto o médico estiver vivo, isso precisa ser bem armazenado”, diz.

Ele tem atendido em torno de 10 pessoas por dia por telemedicina, dedicando o tempo quando não está atendendo em hospitais, inclusive, públicos. O médico explica que já realizava uma espécie de acompanhamento por whatsapp, mas mais para orientações mais simples, como mudança de medicamentos receitados. 

Médico Marízio Macedo tem atuado tanto em consultórios como usando ferramentas de telemedicina (Foto: Acervo Pessoal)

“Uso como uma teleorientação, para ver curativos de pós-operatórios, até para evitar que um paciente vá no hospital, por conta desse risco de contaminação”, explica ele, que conta as diferenças entre antes e durante a pandemia do coronavírus. “Facilitou. Agora, eu tenho um acesso mais por vídeo, vendo o paciente. Fica melhor porque causa uma proximidade maior do que por Whatsapp”.

A remuneração, no entanto, ainda não é a ideal. “Tá um pouco abaixo, mas tenho conversado com grupos de médicos e é esperado que seja abaixo mesmo nesse momento. No balanço das coisas, acho que desvaloriza um pouco a profissão. Foram muitos anos de estudos e hoje a remuneração, no geral, já é muito defasada”. De acordo com o Cremeb, há uma resolução interna da Agência Nacional de Saúde (ANS) de que os planos mantenham, para as consultas virtuais, os mesmos vencimentos das presenciais. “Mas nem todo plano tem feito isso”, revela o vice-presidente.

Para ficar
Uma das plataformas que Marízio usa é o Docway, um aplicativo com mais de 55 mil usuários e presente em 340 cidades, incluindo todas as capitais, como Salvador. A empresa já existe desde o início de 2019 e o CEO, Fábio Tiepolo, confessa que o aumento no número de usuários por conta da pandemia superou às expectativas. 

“Como todas as empresas, achamos que o aumento viria passo a passo. Mas não foi o que aconteceu. Do dia pra noite, a gente viu um crescimento gigantesco de atendimentos. Pela nossa experiência, conseguimos adaptar nossa capacidade de atendimento, contratando mais médicos”, revela. 

Tiepolo garante que o Docway, que trabalha com planos de saúde, com empresas ou com atendimento particular do paciente, dá aos profissionais a segurança necessária, usando criptografia de ponta a ponta, para os prontuários. “Contamos com todo o arcabouço que a tecnologia nos permite”, diz. Segundo o CEO, a empresa realizava cerca de 1.200 atendimentos por mês antes da pandemia. Em maio, o Docway espera bater a marca de 100 mil atendimentos, um crescimento de incríveis mais de 8.000%. 

Para Tiepolo, a telemedicina se tornará parte do dia a dia das pessoas mesmo após a pandemia de coronavírus passar. “Como tecnologia, acreditamos que a telemedicina, principalmente como teleconsulta, veio para ficar. Entendemos que o benefício é muito grande. Essa massa crítica construída que foi pressionada a usar esse serviço tem aprovado a telemedicina e acreditamos que é um passo que não tem mais volta”, analisa.

Marízio Macedo corrobora, mas enfatiza que a relação presencial de médico e paciente nunca poderá ser abandonada. “A gente tem que se adequar. Na minha área nunca vai deixar de ter o exame clínico, mas na parte de orientações acho muito viável. Tenho muito paciente que vem do interior e isso causa um custo muito grande para eles. Não vai ser sempre, mas acho que a telemedicina funciona de forma complementar”, finaliza.

*Nome preservado a pedido da entrevistada
**Colaborou Carmen Vasconcelos
 

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