'Tentam fazer deste um país branco, quando ele não é', diz pesquisador da UFSB

bahia
30.10.2020, 21:48:00
Atualizado: 30.10.2020, 21:48:21
(Imagens: Reprodução/Instagram)

'Tentam fazer deste um país branco, quando ele não é', diz pesquisador da UFSB

Richard Santos, o Big Richard, explicou conceito de Maioria Minorizada, descrito em seu novo livro

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Lançando o livro Maioria Minorizada, o professor e pesquisador da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) Richard Santos foi o convidado, desta sexta-feira (30), do programa ao vivo Conexões Negras do CORREIO, apresentado pela colunista Midiã Noelle. Na live, Richard destrinchou o que significa o conceito-título da obra, as inter-relações entre comunicação e racismo, decolonialidade e relembrou ainda a sua trajetória artística iniciada no movimento hip hop, no qual ficou conhecido como Big Richard.

Carioca de nascença e doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UNB), ele é líder do grupo de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo e elaborou o conceito de Maioria Minorizada como um dispositivo analítico de racialidade. O professor explicou que o termo pretende reverter a ordem mental do imaginário, tirando a população negra do lugar da subalternidade. 

“Quem constrói essa narrativa de que somos uma minoria é aquele que há mais de 500 anos está aí num processo colonial, de dominação, tentando fazer deste um país branco, quando ele não é. A ideia de maioria minorizada está associada à de comunicação como formadora do imaginário, daquilo que a gente pensa”, detalha.

Autor também de “Branquitude e Televisão” (2018), o professor diz que a sua obra atual não insiste na originalidade e que muito do que foi escrito é fruto de uma experiência coletiva de pessoas que o antecederam.

“Original no meu livro é a proposição de maioria minorizada como uma chave de reversão da subalternidade, mas para que eu pudesse pensar, articular e falar com altivez, precisei de outros e outras que vieram antes de mim, que enfrentaram os grilhões no meio da rua e na academia, que nos exclui. Meu livro nunca é um mérito só meu, é uma obra nascida da coletividade, das experiências de casa, no fortalecimento dos iguais”, acrescenta. 

O termo cunhado por ele perpassa outros conceitos como o de extrativismo epistemológico, usado para descrever situações em que a branquitude extrai ideias da maioria minorizada, se alimenta delas e não diz de onde as tirou. “É parte da invisibilidade da intelectualidade negra”, aponta. 

Assista na íntegra:

Richard ainda falou sobre os conceitos de anti-colonialidade e decolonialidade, expressões que estão na “moda” na academia. O pesquisador citou que a articulação anti-colonial é, de fato, uma luta contra processos de dominação. No entanto, quando a sociedade apresenta uma resposta às ameaças coloniais, pode ser que não esteja trabalhando na desconstrução da colonialidade e, sim, na construção de uma nova forma de colonialidade ou mesmo na manutenção de poderes brancos.

“A gente vive uma guerra civil não declarada aos corpos não-brancos. Se não tivesse uma antinegritude, talvez não teríamos uma maioria minorizada, porque teria oportunidades, políticas públicas a partir do 14 de maio [dia após a Lei de Abolição da Escravatura] que nos fariam iguais. Na academia, estou sempre articulando música, trago letras de Arlindo Cruz, MV Bill, Racionais MCs, Marcelo D2 porque, às vezes, quando você é o intelectual puro, você não consegue fazer a tradução e esse intelectual orgânico, como eles são, traduzem a realidade que a gente gasta horas falando e não vai ser traduzido”, disse.

“A gente pode ir para qualquer lugar, atingir qualquer último nível do saber da academia, mas essa cultura, essas referências vão estar sempre dentro de você. Como diz o Racionais, periferia é periferia em qualquer lugar. Você sai da favela, mas a favela não sai de você, mas não porque o nosso lugar está relacionado à favela. Os territórios negros, os campos dessa maioria minorizada, não vão sair nunca da gente, ainda que muitos acessem outros lugares sociais e finjam negar para serem aceitos pelos que excluem. No seu íntimo, nas suas experiências, essas culturas e artistas e pensadores nossos, orgânicos, perpassam sempre”. 

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