Testemunha diz ter visto dupla ser entregue a homens armados após tortura em mercado 

salvador
30.04.2021, 20:47:30
Atualizado: 30.04.2021, 22:51:53
(Reprodução)

Testemunha diz ter visto dupla ser entregue a homens armados após tortura em mercado 

Tio e sobrinho encontrados mortos chegaram a pedir dinheiro para pagar carnes que teriam furtado. Família diz que os dois foram entregues à traficantes  

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Um homem, que pediu para não ser identificado, disse ter visto o momento em que Bruno Barros e Yan Barros, tio e sobrinho, foram levados por um segurança para uma área interna do supermercado Atakarejo, em Salvador. Os dois eram acusados de furto no supermercado.

Em entrevista à TV Bahia, a testemunha também disse ter visto o momento em que a dupla foi entregue para homens armados. De acordo com familiares, Ian e Bruno chegaram a pedir dinheiro para pagar os produtos que teriam furtado e disseram que seguranças do local os entregariam para traficantes. Os dois foram executados e deixados na localidade da Polêmica, em Brotas
 
"Eu estava no momento que o 'prevenção' e o gerente acusou (sic) os dois rapazes de ter furtado dentro da loja. Tiraram os rapazes da loja, levaram para uma parte que é restrita deles, só de funcionários. E aí ouvi muitos gritos, ouvi muitos gritos, tipo como se estivessem agredindo os dois rapazes. Muito, muito, muito mesmo", contou a testemunha.
 
O homem diz ter visto Bruno e Yan implorarem para que não fossem entregues aos homens armados. Segundo a testemunha, a dupla teria sido entregue, mesmo após pediram desculpas pelo roubo.
 
"Eu ouvi zoada de chutes. A parte que eu vi foi dentro da loja, entendeu? E quando eu estava saindo. Em seguida eu vi muitas pessoas armadas. E vi o portão abrindo e os dois rapazes pedindo por favor pra não deixar levarem eles, né? Pedindo desculpas, e mesmo assim, eles pegaram, abriram o portão e deixaram o pessoal levar eles lá. O pessoal que estava armado, né? Se é que me entendem", disse a testemunha à TV Bahia.
 
Familiares protestam
 
Cerca de 25 pessoas, entre parentes e amigos das vítimas, pediram por justiça, em uma manifestação nesta sexta (30), na Rua Almeida Júnior, onde tio e sobrinho moravam. O protesto aconteceria na porta do Ministério Público do Estado (MP-BA), numa tentativa de pressionar o andamento das investigações, pois até agora ninguém foi preso. No entanto, o local foi transferido pelos manifestantes para a Fazenda Coutos III, para que outras pessoas da comunidade pudessem participar.
 
Entidades fazem ato em supermercado
 
Dezenas de pessoas do Movimento Negro se reuniram na frente do Atakadão Atakarejo do Nordeste de Amaralina para protestar contra a morte dos jovens nesta sexta (30). Participaram da manifestação representantes de entidades como a Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), Coletivo dos Malês, Partido Unidade Popular e União de Negros Pela Igualdade (Unegro). 
 
Ministério Público, OAB-BA e Secretaria de Justiça e Direitos Humanos dizem acompanhar o caso
 
O Ministério Público do Estado da Bahia informou nesta sexta-feira (30) que está acompanhando o caso .O MP diz que "adotou as providências cabíveis nesta fase preliminar de apuração, autuando uma notícia de crime e  encaminhado ao Núcleo do Júri da Capital, para fins de acompanhamento das investigações que, conforme noticiado pela imprensa, já vêm sendo realizadas pela Polícia Civil". 

A Ordem dos Advogados do Brasil Seção Bahia (OAB-BA) anunciou, por meio de nota, que acompanha o caso por meio de sua Comissão Especial de Promoção da Igualdade Racial. "As denúncias de que, após serem apreendidas no interior da loja, as vítimas teriam sido entregues pelos seguranças do estabelecimento comercial a traficantes de drogas do bairro, ao invés da polícia, é de extrema gravidade e requer, da Secretaria de Segurança Pública, uma apuração profunda e célere, para que, garantidos o devido processo legal e a ampla defesa, seja feita Justiça e os culpados sejam punidos na forma da lei. A OAB considera que a substituição da Justiça por “tribunais do crime” é um retrocesso civilizatório intolerável e continuará acompanhando o caso", diz a nota.
 
A Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia (SJDHDS) repudiou o crime, através de nota, e disse que o caso já foi levado ao Conselho Estadual de Direitos Humanos que, juntamente com a SJDHDS,  acompanhará todo o processo até a total elucidação do crime.

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