Todas as vidas valem a pena: conheça Irmã Violeta, que há 15 anos abriga pessoas em casa

salvador
20.10.2019, 07:00:00
Atualizado: 20.10.2019, 09:04:38
(Marina Silva/CORREIO)

Todas as vidas valem a pena: conheça Irmã Violeta, que há 15 anos abriga pessoas em casa

Religiosa já foi casada, tem um filho e começou trajetória como professora de inglês

Foram dois os nascimentos de Irmã Violeta. Um, em 1962, em Salvador. Outro, há pelo menos 15 anos, quando, numa Sexta-feira Santa, jurou obediência, castidade e pobreza a Deus. Primeiro, nasceu Violeta Schindler, que viria a se casar, ter um filho e trabalhar como professora de inglês. Depois, veio ao mundo Irmã Violeta, a mulher que recebe em casa crianças, homens e mulheres que precisam de comida, cuidados ou de um teto. Como não acredita na existência do tempo, Irmã Violeta dedica todos os seus dias ao próximo.

Os portões de um casarão de três andares na Baixa do Bonfim, na Cidade Baixa, abrem às 8h. Antes, Irmã Violeta precisa arrumar o segundo andar da casa, onde mora, e cuidar da mãe de 90 anos. Só depois organiza a distribuição do café da manhã, com ajuda dos voluntários que chegam. 

Três pessoas auxiliavam a Irmã quando a reportagem visitou o espaço, chamado de Casa de Encontro e Oração. O número sempre pode variar. Diariamente, são, em média, 30 atendidos.

“Aqui, recebemos amor, ela recebe todos, não pede história pregressa”, resume Paulo Oliveira, 34.

Relação de Irmã Violeta com crianças começou cedo: quando ela mesma era pequena, costumava levar pequenos para casa
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Durante três meses, Paulo, ex-supervisor de condomínio, viveu na rua, entre o Largo dos Mares e a Piedade. Na casa de nº 1 da Rua Octávio Barreto, conseguiu o alimento e a ajuda que lhe faltavam. Depois de sair das ruas, retorna todos os dias, entre 8h e 13h para ajudar. Na vizinhança, distante um quilômetro das Obras Sociais Irmã Dulce, desponta a comparação entre Irmã Violeta e Santa Dulce dos Pobres. As duas se viram uma única vez.

“Busco um caminho da santidade. Deus é o artesão, mas procuro ser dócil, um barro mole. Meu desejo de santidade é para agradar a Ele”, diz.

Rotina
Depois do café da manhã, Irmã Violeta inicia os preparativos para a distribuição do almoço. As quentinhas são doadas e congeladas no único freezer da casa. Num quarto, três armários guardam alimentos e materiais de limpeza que podem ser retirados por quem precisa. Às 11h, ela é auxiliada na cozinha por Irmã Juliana Araújo, companheira de todos os dias. Outro ajudante quase diário é Irmão João Marocci. 

Do lado de fora, três homens jogam dominó, enquanto um senhor dorme na sala, depois de uma madrugada insone nas ruas. As doações não têm horário nem dia para chegar. Ninguém leva ou deposita dinheiro, rejeitado por Irmã Violeta. Três benfeitores adotaram as contas de energia, água e telefone. “Se não tiver almoço, comemos pão com café e seremos agradecidos por isso”, diz a religiosa.

O vestido, preto e cinza, representa o luto pela paixão e a penitência, e o cordão branco, o carisma franciscano. Quando é solicitada a lembrar as datas da vida de benfeitoria, Irmã Violeta responde: “O tempo é uma invenção. A morte e a ressurreição acontecem hoje”.

A Irmã vive como monja na casa, sem peregrinações na rua. Desde criança, os tempos em sua vida se misturam. Violeta e Irmã Violeta sempre foram, de certa maneira, uma só. 

Há 15 anos, a religiosa, que já foi casada e tem um filho, jurou obediência, castidade e pobreza a Deus
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Professora de inglês
Na infância, estudante de um colégio no Campo Grande, ela retornava para casa com meninos e meninas a tiracolo. A filha de uma família de classe média, moradora da Avenida Joana Angélica, era inconformada diante da fome nos olhos das crianças.

Aos 18 anos, numa aula de inglês, conheceu Paulo, aquele que seria seu marido. Casaram-se, ela aos 25, ele aos 27, depois de seu retorno ao Brasil. A jovem, formada em Pedagogia pela Universidade Federal da Bahia, tinha passado seis meses na Filadélfia, nos Estados Unidos, para aperfeiçoar o inglês. O pai, inconformado, entregou a filha aos prantos, na Paróquia das Mercês.

O cotidiano sempre foi dividido entre o matrimônio e os impulsos da caridade. O companheiro não entendia as doações da esposa aos mais pobres que batiam no portão da casa em busca de ajuda. Sete anos depois do casamento, Paulo abandonou a casa. O marido, ex-professor de Violeta, emendava noites de bebedeira.

Foi quando ela começou, cada vez mais, a se dedicar à caridade. “Ninguém poderia mais segurar a violência do amor que eu sentia por Deus e estava represado”, conta ela, já mãe de Kurti.

Encontro com Dulce
Primeiro, desfez-se das próprias roupas para doar aos pobres. Depois, aderiu a um vestido cinza com um cinto, mais fiel à sua simplicidade.

“Não quero que pensem que houve alguma insatisfação. Ficou um amor tão purificado, tão cheio de reverência”, emociona-se ela, hoje amiga de Paulo.

Aos poucos, vieram a corrente, o cordão branco, o símbolo passionista e um véu. A religiosa não pode ser chamada de freira, já que é divorciada. Não há incômodo pela ausência de um título. 

Na infância do filho, quando ele não queria comer, ela dizia: “Os filhos de Irmã Dulce comem tudo”. Até que, um dia, o menino pediu para conhecê-los. Seguiram para a Osid e Violeta insistiu a um funcionário que os deixassem ver a freira.

Da janela, avistaram Dulce, que, já debilitada, acenou aos dois. Foi a única vez que as duas se viram. Irmã Violeta observou a cena sem imaginar o que o futuro reservava.

Irmã Violeta e Santa Dulce se encontraram uma única vez, quando ela levou o filho para conhecer a freira
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Abaixo-assinado para fechar Casa não teve assinaturas
Na antessala da casa, uma planta desponta na parede. A mãe havia pedido que Violeta jogasse fora o pé de rosa graxa, pois já estava morto. A religiosa, então, arranhou a unha no pedúnculo e descobriu o verde embaixo do que parecia sem vida. “Tinha vida naquilo ali. Onde há vida, eu não posso desprezar”, diz. Acima da planta, cuidada até retomar o crescimento, Irmã Violeta decidiu pregar um aviso: “Nenhuma vida se pode jogar fora”.

Por isso, todos são bem-vindos e ninguém define o que, de fato, é a casa de Irmã Violeta:

“Essa casa é uma provocação. Eu posso viver uma vida medíocre ou posso viver amando muito. E eu vou ser gulosa”, diz.

No terceiro andar do casarão, Irmã Violeta recebe mãe e filha e dois estudantes que pediram amparo, sem ter para onde ir.

A circulação de pessoas pobres, em situação de rua e dependentes químicos começou a dividir opiniões. Uma vizinha chegou a iniciar um abaixo assinado para impedir o funcionamento da casa, ameaçou processá-la. Ninguém assinou, nem houve processo. “Eles sabem que é importante”, acredita. Desde o início da vida de abnegação, precisou aprender a arregalar os olhos e ser rígida, se necessário.
 
Na última segunda (14), saía de uma missa da Igreja do Bonfim, quando encontrou um idoso, desorientado, próximo à Colina Sagrada. Dois dias depois, a família conseguiu reencontrar Venceslau Rodrigues, 77, que tinha ido ao barbeiro e esqueceu como voltava. “Nunca esquecerei do que a senhora fez por ele”, agradeceu a esposa, Sonia Rita, 55. As duas se abraçaram. Irmã Violeta, com um sorriso emocionado. 

A rotina só é interrompida por missas e compromissos religiosos fora da casa. Há cinco anos, Irmã Violeta dá palestras sobre sexualidade no casamento, numa paróquia na Estrada Velha do Aeroporto. Do passado como professora de inglês, restaram as aulas que ainda dá no Seminário em Salvador, para jovens futuros padres. Mas, a principal função é proporcionar aos mais necessitados o que ela acredita ser “um oásis onde eles encontram uma mãe”. Não há nada que segure, novamente, a força do amor represado durante anos.

Doações
Quem quiser ajudar pode procurá-la pelos telefones (71)  3316-1421/ 3316-0947 ou ir à casa, na Rua Octávio Barreto, nº 1, Bonfim.

*Com supervisão da subeditora Clarissa Pacheco
**Sugestão de pauta do estudante de jornalismo da Facom/Ufba Daniel Aloisio, que também colaborou na apuração
 


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