Trabalho remoto e salário em dólar impulsionam contratação por empresas de fora

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12.12.2021, 16:00:00
Joanyr Junior mora em São Caetano, mas trabalha home office para uma empresa canadense (Foto: Marina Silva/ CORREIO)

Trabalho remoto e salário em dólar impulsionam contratação por empresas de fora

Home office sem fronteiras: salário oferecidos a brasileiros por empresas no exterior podem ser, em média, 30% maiores

Desde a contratação por uma empresa canadense, a rotina do product designer (designer de produto), Joanyr Junior, 20 anos, começa às 10h, com os preparativos para as reuniões diárias. De tarde, às vezes, mais um encontro de ajuste ou revisão entre a equipe de programadores. Após finalizar as demandas, outra reunião. Dessa vez, de apresentação para os chefes. Tudo isso online, em home office.

O emprego é no exterior. O contracheque também. Mal finalizou mais um curso na área de tecnologia, Joanyr nem precisou sair do bairro de São Caetano, em Salvador, para atravessar a fronteira e ganhar um salário seis vezes maior do que antes, agora pago em dólar.

Joanyr trabalha como designer de produto
(Foto: Marina Silva/ CORREIO)

“Estou fazendo quatro meses de empresa e meu trabalho tem sido bem interessante. Fico em contato direto com os programadores quase o tempo todo. Além da vantagem do salário, tenho aprendido muito com pessoas que têm anos de experiência no mercado internacional. Isso me deu uma segurança absurda e um conhecimento muito bom”, afirma. 

A pandemia transformou em escritório qualquer lugar onde o profissional estiver e esse é só um dos principais fatores que têm estimulado a busca de companhias estrangeiras por profissionais brasileiros. É o que aponta o levantamento mais recente realizado pelo PageGroup, consultoria líder mundial em recrutamento executivo, que constatou um aumento de 20% na contratação dessa mão de obra até agosto deste ano, em comparação com o mesmo período anterior. 

Os salários desses profissionais podem ser, em média, 30% maiores, conforme destaca o diretor do PageGroup, Lucas Toledo. “O que mais chama atenção na pesquisa é o crescimento da busca pelos profissionais brasileiros para trabalhar em empresas multinacionais com operação no Brasil, mas prestando serviços globais, ou seja, atendendo em outros países como uma primeira opção”. 

Entre outros fatores que justificam essa busca, Toledo cita ainda o apagão de talentos em países desenvolvidos aliados à competitividade de custos de mão de obra brasileira diante da alta do dólar - que bate na casa dos R$ 5,61. Os setores que mais têm procurado talentos brasileiros são Tecnologia, Engenharia, Vendas, Logística, Saúde e Bens de Consumo.

“O Brasil tem uma grande disponibilidade de mão de obra qualificada com os custos competitivos e um diferencial relacionado ao jeito de ser do brasileiro muito aberto e cooperativo, além de ter uma cultura mais ocidentalizada”, complementa o diretor. 

Joanyr está aqui para provar que as oportunidades estão aí. Ele começou a programar aos 13 anos. Pesquisando mais um pouco, chegou ao web design e o design gráfico, quando descobriu a área de UX (user experience/experiência do usuário).

“Busquei me qualificar e ter contato com pessoas que me ajudaram a evoluir muito em um curto espaço de tempo, fazendo com que meu trabalho fosse visto fora. Eu não encontrei a vaga, na verdade, ela me encontrou. Foi determinante conhecer as pessoas certas e projetos da residência de software”. 

Além do domínio da língua estrangeira, o diretor do PageGroup, Lucas Toledo, lista mais alguns requisitos que são exigidos pelas empresas, sobretudo, as habilidades interpessoais. “Tudo isso conta a favor: as habilidades de relacionamento, capacidade de comunicação, capacidade de aprender, conhecimentos em tecnologia e capacidade de trabalhar com times diversos”. 

O conselho é investir em capacitação, sempre atento as demandas do mercado, como acrescenta Toledo: “Para isso, vale apostar em cursos rápidos de capacitação técnica, cursos de idiomas, certificações e, eventualmente, alguma formação acadêmica. Paralelamente, uma mentoria ou um coaching profissional podem ajudar”. 

Outros requisitos
Já para o ceo e fundador da escola de tecnologia Cubos Academy, Messias Júnior, é interessante estar ativo em comunidades que reúnem profissionais da área, o que ajuda muito a ser visto. A escola já formou 500 estudantes em cursos na área de programação.  

“Atualmente, a gente vê no Brasil, uma média salarial de R$ 5 mil para desenvolvedores, por exemplo. No mundo, varia de um país para o outro e de empresa para empresa, mas o salário fica algo em torno de U$ 4 mil (R$ 22,4 mil) a U$ 8 mil (R$ 44,8 mil).  Em tecnologia, conta bastante contribuir com projetos open source, participar de hackathons e eventos que reúnem pessoas da área, o que se torna uma oportunidade para construir um portfólio globalmente aceito”, comenta. 

No caso da comunicadora Lorrana Guimarães, 23 anos, redes como o Linkedin ajudaram na hora de conseguir uma vaga de trabalho remoto para uma empresa Argentina. “Uma profissional de RH entrou em contato comigo no Linkedin com a proposta. A diferença no processo seletivo foi apenas nas entrevistas em espanhol e também, por serem feitas à distância. Eu nunca tinha feito entrevista em outro idioma. Foi tudo online por chamada de vídeo”, conta.

Lorrana trabalha como assistente de Community Manager na criação de conteúdos, traduções e estratégias de comunicação. “Vinha atuando em diferentes funções, inclusive, fora da área de comunicação, mas hoje tenho mais benefícios, como cartão alimentação e plano de saúde nacional, além de acessos a cursos e capacitações gratuitamente. O trabalho voluntário que fiz no Peru há três anos, me permitiu aprender o espanhol na prática e me abriu portas para essa oportunidade”. 

O que as empresas de fora buscam? O ceo e fundador da escola de tecnologia Cubos Academy, Messias Júnior, reforça que os conhecimentos e atributos, geralmente, são muito semelhantes aos que são exigidos no Brasil.

“São várias vagas em que o profissional sabendo falar um pouco da língua, algo próximo do intermediário, já é o suficiente para conseguir.  No mais, é saber se comunicar bem, resolver problemas, lidar com os prazos, trabalhar em equipe”, ressalta.

Startup de tecnologia, a Turing.com está com mais de 500 vagas abertas para desenvolvedores de TI brasileiros. A remuneração varia de acordo com o nível de cada desenvolvedor. As oportunidades são totalmente remotas e as inscrições podem ser feitas pela plataforma www.turing.com/pt/jobs. Para o vice-presidente sênior de operações da Turing, Akshay Thakor, o país é um celeiro de talentos em software.

“O Brasil tem um potencial fenomenal quando se trata de talento em software, devido ao grande número de desenvolvedores do calibre do Vale do Silício, que estão dispostos a trabalhar em casa no mesmo fuso horário que as principais empresas dos Estados Unidos. Nossa visão é ser o ponto focal para desenvolvedores em todo o mundo, quando se trata de empregos de TI”.  

Versatilidade
Diretor na América Latina da consultoria de recrutamento e seleção especializada Yoctoo, Paulo Exel, destaca os Estados Unidos, Canadá, México, Portugal e a China na lista dos países que estão demandando profissionais com esse perfil.

“Um conselho é recorrer ao que a gente chama de jobposts, que são empresas que publicam anúncios de vagas na região onde se tem interesse de trabalhar. Outro fator importante é identificar profissionais que tenham o mesmo cargo que você e entender como eles distribuem essas experiências no perfil em redes sociais profissionais”.

É assim que o artista 3D, Thiago Laranjeira, 30 anos, tem conseguido vários trabalhos como freelancer para empresas no exterior. “Garimpar personalidades que executam o trabalho que você deseja realizar, se conectar com elas é um passo crucial para entender como chegar até essas oportunidades”, afirma.

E por falar em vantagens, Thiago enumera não só salário e liberdade de trabalhar em casa, mas, a experiência em participar de projetos mais relevantes de impacto global, um jogo ou uma rede social acessada por bilhões de pessoas.  

“É uma situação de ganha-ganha, onde todas as partes se beneficiam, por um lado o profissional tem mais liberdade em organizar sua rotina e fazer suas próprias escalas e horários tendo ganhos reais em produtividade e, por outro, é economicamente vantajoso para essas empresas contratar profissionais de mesma expertise em países em desvantagem cambial”.

Essa versatilidade é mais um dos requisitos, como acrescenta Exel.  “Nós estamos habituados a trabalhar em estruturas mais enxutas, o que remete a um nível de conhecimento bem abrangente de uma determinada função. Então, certamente, as empresas estrangeiras olham isso com muita atenção para resolver os problemas que precisam  de soluções”, analisa.


Estados Unidos e Austrália são os principais destinos de trabalho dos brasileiros 

É o que diz estudo recente feito pelo LinkedIn, a maior rede social profissional do mundo, com base nas informações de perfil.  Segundo o levantamento, houve um aumento de 273,59% na migração de profissionais brasileiros para os Estados Unidos entre maio de 2020 e abril de 2021, em comparação com o ano anterior. Já a Austrália aparece com um crescimento de 252,96% neste mesmo período.

O estudo considera uma migração quando o usuário da plataforma altera a localização no seu perfil, o que pode significar uma mudança física e/ou um emprego remoto. No ranking dos 10 destinos para onde profissionais brasileiros estão migrando, além de Estados Unidos e Austrália, a Alemanha ocupa o 3º lugar  (194,43%), seguido da Espanha (188,01%), Canadá (177,58%), França (162,59%), Argentina (106,18%), Reino Unido (98,60%), Irlanda (55,42%) e Portugal (42,78%).


HOME OFFICE FORA DO PAÍS

. Onde estão as vagas
O caminho é expandir a presença nas redes sociais profissionais como o Linkedin e também a participação em comunidades e grupos que reúnem outras pessoas que atuam na sua área. 

. Experiência
Ter um bom portfólio conta muito a favor. No caso da área de tecnologia, contribua sempre com projetos open source, participe de hackathons e outros eventos que reúnem pessoas de tecnologia. 

. Qualificação
Buscar qualificação na área, além de favorecer as indicações de trabalho entre professores e colegas vai agregar bastante no currículo. O que o mercado está buscando? Leve isso em consideração na hora de escolher os cursos. 

. Profissional do mundo
É importante ter domínio da língua estrangeira, mesmo que intermediário, sobretudo, inglês e espanhol. 

. Habilidades interpessoais
Aqui dentro do Brasil ou fora, capacidade de comunicação, aprendizagem, solução de problemas, versatilidade e trabalho em equipe continuam fazendo a diferença.

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