Trocou a Torre Eiffel pelo Elevador Lacerda: histórias de quem se apaixonou por Salvador

salvador
29.03.2018, 08:30:00
Atualizado: 29.03.2018, 09:19:18

Trocou a Torre Eiffel pelo Elevador Lacerda: histórias de quem se apaixonou por Salvador

Conheça estrangeiros e brasileiros que escolheram a capital para viver

Para muitos brasileiros, Paris é um sonho de morada. Seja pelos seus 134 museus e 170 teatros ou pelos seus parques e bistrôs. Há, ainda, quem seja atraído pela vida noturna movimentada ou pelos atrativos turísticos como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo e a Catedral de Notre-Dame.

O francês Mamadou Gaye, 42 anos, tinha tudo isso à disposição, mas sonhava mesmo era com uma rotina diária que incluísse caminhadas pelo Pelourinho, shows de artistas baianos no Teatro Castro Alves (TCA) ou na Concha Acústica, os 50 quilômetros de praias soteropolitanas e, no cardápio, moqueca e frutas caracteristicamente locais.

O sonho se tornou realidade em setembro do ano passado, quando Mamadou deixou Paris para morar em Salvador, cidade pela qual se apaixonou em 2010 após uma mera turistada acompanhado de uma amiga baiana.

"Passei três semanas fantásticas. Aproveitei a vida de maneira muito intensa. As pessoas daqui têm essa característica, de viver intensamente, e isso me encanta", diz ele, que, no ano passado, foi selecionado para dirigir a Aliança Francesa, entidade presente em 138 países nos cinco continentes.

Mamadou é apenas um dos muitos estrangeiros e pessoas vindas de outros estados que escolheram Salvador como morada. Somente no ano passado, a Bahia recebeu 507 estrangeiros que vieram para trabalhar, o diretor da Aliança Francesa entre eles. O número coloca o estado como o quinto no país que mais abrigou pessoas de outros países, segundo dados do Ministério do Trabalho - a pasta diz que a grande maioria está em Salvador mas não informou a quantidade.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, em 2010, ano do último Censo, 5% da população de Salvador era composta por pessoas de outros estados – em torno de 130 mil brasileiros. Já os nascidos em outros países representavam 0,22% da população – cerca de 6 mil estrangeiros.

Primeiro contato
Depois da primeira visita a Salvador, Mamadou conta que passou a estudar português. "No começo, era só por curiosidade, porque gosto de conhecer idiomas. O português é encantador", diz ele. Mas ao chegar na capital baiana, ele se deparou com expressões características do baianês.

"As pessoas falam de maneira feliz aqui. É um português que expressa felicidade. Todo dia quando chego à Aliança cumprimento o segurança e ele responde 'tudo joia'. No começo, eu até não sabia o que significava, mas a forma de falar expressava algo muito espontâneo e alegre", diz ele. "Gosto muito de 'show de bola' e 'massa'. São expressões que já uso", complementa.

Ainda com forte sotaque francês, Mamadou conta que se apaixonou também pela música baiana. "Minha amiga me levou ao Pelourinho logo nos primeiros dias. Vimos uma apresentação de Magary Lord. Na época, ele estava... como é que se diz aqui? Estourado, não é? Fiquei encantado com aquela música, com a mistura de ritmos, com a dança", revela. Mamadou voltou à França três semanas depois, mas antes deu uma passada no Pelourinho. "No dia de voltar, fui lá e fiquei pensando na possibilidade de morar aqui. Prometi pra mim mesmo que voltaria", diz.

A oportunidade pintou no ano passado, com a seleção da Aliança Francesa. No currículo, Mamadou acumula uma formação em Comunicação, atuação de relações institucionais na candidatura de Paris para as Olimpíadas de 2024 e, mais recentemente, em uma associação no subúrbio parisiense que orientava jovens que tinham dificuldades para se inserir no mercado de trabalho. Além de Salvador, ele colocou como opções as cidades de Madrid (Espanha) e Dakar (Senegal), cidade onde nasceu.

"A questão é que aqui tem um pouco da França, da Espanha e do Senegal. Fiquei muito feliz quando fui selecionado, e confesso que até hoje não acredito", afirma.

Morador da Graça, o francês tem como rotina passear pela Barra, Rio Vermelho e Santo Antônio Além do Carmo, ir ao Jazz no MAM e à praia, especialmente no Porto da Barra, sua favorita. Na culinária, adora moqueca e caruru e frutas locais, como manga, siriguela, umbu e jaca.

"O povo e a cultura daqui são fantásticos. São pessoas que gostam de viver o presente, o momento. A expressão disso é o Carnaval, que é a festa do presente, do agora. Todas as culturas são valorizadas em Salvador, isso é incrível. Todos que trouxeram sua cultura para cá vão se identificar. A cidade é aberta a todas as culturas. Eu adoro essa ideia de liberdade que temos em Salvador", enfatiza.

Na direção da Aliança Francesa, Mamadou quer aproximar ainda mais a organização da cidade e participar de maneira mais ativa da vida cultura de Salvador que ele tanto aproveita. "Temos três palavras que queremos tornar nossos pilares: acessibilidade, qualidade e diversidade. Temos centenas de alianças francesas pelo mundo, e queremos nos aproximar mais. A riqueza de Salvador deve ser compartilhada", diz. 

Sonho
Assim como para Mamadou, morar em Salvador também era um sonho para a psicóloga Fulvia Fiuza, 45, e para o corretor de seguros Tiago Antunes, 37. O planejamento deles, contudo, foi um pouco maior e até mais meticuloso.

O casal veio à capital baiana como turistas há 19 anos, a convite de um amigo. "Viemos só conhecer, por curiosidade. Já gostamos de cara, passamos 15 dias, mas fizemos uma programação focada para vir morar aqui já nessa primeira viagem", conta.

Sabrina, Fulvia e Tiago (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A mudança de São Paulo para cá veio há três anos e três meses, quando a filha do casal, Sabrina, de 21 anos, completou o ensino médio. Hoje ela cursa Comunicação na Universidade Federal da Bahia (Ufba). "Toda nossa história era criar a Sabrina, esperar ela ficar maior e fazer um pé de meia razoável para mudar". Ela conta que, depois da primeira visita como turista, eles vinham frequentemente passar férias na capital baiana.

"Nos identificamos com os padrões da cidade, com a geografia, as pessoas. Não tivemos dúvidas. A Sabrina já tinha saído da escola. Ela fez o Sisu e passou na Ufba. Tudo se encaixou e não temos arrependimento", acrescenta.

A relação com as pessoas, a descontração do povo e a simplicidade e receptividade dos nativos são peculiaridades que influenciaram na vinda da família para cá.

"Aqui, as pessoas não se preocupam tanto com posição social, todo mundo se comunica bem. Isso nos chamou muito atenção. São Paulo tem muitas questões positivas, mas as pessoas são bem reservadas, cheias de regras. Existe um clima de descontração na cidade que torna a convivência mais agradável. Salvador é um lugar único", afirma.

Na rotina deles, a praia é destino certo em quase todo final de semana. "Moramos na Barra e todo final de semana vamos às praias. Conhecemos quase todas em Salvador. Fazemos caminhadas pela orla, vamos ao Rio Vermelho, ao Pelourinho, teatros, shows, barzinhos com música ao vivo. Gostamos de viver a cidade intensamente", confessa ela.

Militares
O clima é um dos principais atrativos de Salvador entre os militares. Quem conta é o capitão Antônio dos Santos, 71 anos, natural de Santos, em São Paulo. Quando entrou para a reserva, ele optou por morar na capital baiana, depois de servir aqui na década de 1980 no Colégio Militar de Salvador e ter passado por diversas cidades do Brasil. O capitão conta que, assim como ele, muitos escolhem ficar em Salvador.

"80% dos que ficam aqui depois da reserva são gaúchos e cariocas. O clima e a alegria das pessoas são muito favoráveis. Aqui, muitas amizades são construídas e solidificadas", diz ele, que casou com uma soteropolitana e aqui construiu sua família. "Decidi ficar aqui, no sossego. Tenho muitos amigos, participo de grupos de dominó, de futebol, música. O baiano é muito hospitaleiro, as pessoas são comunicativas, e tem São João, Carnaval, que são festas muito alegres", conta.

Hoje, Antônio diz ter satisfação ao passear pelas ruas da capital e conversar com ex-alunos do colégio. "Muitos me reconhecem na rua, mas minha memória já anda falha. É muito bom ter ajudado a orientar uma geração", conta ele, que, além dos passeios pelas ruas, gosta também das praias da capital. "Amaralina tem uma beleza de primeiro mundo. Ondina também é excelente. Salvador é uma cidade privilegiada com as belezas naturais. Isso, meu amigo, não tem preço", conta.

Amor e paixão
Mas há também casos em que o amor por Salvador só veio depois da paixão por alguém daqui. Foi assim com o jornalista e estudante de arquitetura Filipe Santos, 30, que veio em novembro do ano passado para apresentar um trabalho durante um congresso de urbanismo na Universidade do Estado da Bahia (Uneb). O evento ocorreu justamente durante o Festival da Primavera, onde ele conheceu a namorada.

"Já conhecia muita gente daqui, principalmente por frequentar esses congressos pelo Brasil. No meu primeiro dia, saí à noite. Um amigo daqui me levou para a festival. Conheci uma amiga dele, ficamos e continuamos nos falando nesse tempo. Uma semana depois, voltei para São Paulo e continuamos nos falando", descreve o estudante, que começou a planejar vir para Salvador depois que concluísse o curso, no próximo ano. "O plano era voltar quando eu me formasse, mas decidi adiantar minha vinda. Voltei em janeiro.  Estou esperando abrir o edital de transferência interna da Ufba para me transferir para lá", conta.

O jornalista e estudante de Arquitetura Filipe Santos curte as regiões turísticas de Salvador, como a Igreja do Bonfim (Foto: Aquivo Pessoal)

Já aqui, Filipe diz ter se apaixonado pelas pessoas de Salvador. "Nada se compara às pessoas daqui. Elas que fazem da cidade um território peculiar no Brasil, e eu conheço várias, mas Salvador tem muita vida. Sempre tive pavor de São Paulo. Já morei em Florianópolis. Lá era incrível, mas as pessoas não tinham esse astral", diz. Um exemplo foi um encontro que teve na Estação Acesso Norte.

"Eu estava sentado no terminal e chegou um cara com fone ouvindo reggae. Sentou do meu lado, bateu na minha perna e me mostrou o ônibus do Pau Miúdo. Começou a rir do nada e reiterava o nome do bairro. Eu ri também e ficamos conversando enquanto esperávamos", lembra ele, que é filho de um baiano de Jequié, mas nunca tinha vindo ao estado.

Na capital, ele diz que gosta de aproveitar a boemia e a vida cultural, em cinemas, teatros e bares. "Ainda estou conhecendo e só me apaixono mais. Minha namorada e meus amigos têm me ajudado, me levando para os lugares", conta o jornalista, que mora em Nazaré.

Ele confessa que, antes do congresso, nem sonhava morar em Salvador. "Nunca me imaginava morando na Bahia. Quando vim, foi só para apresentar o trabalho. Só tinha a imagem do Carnaval, é o que acaba chegando mais a São Paulo [onde morava]. Mas quando conheci, percebi a riqueza cultural, histórica, que tem aqui", frisa.

Oportunidade na crise
O português Edigar Santos, 43, também se apaixonou por uma baiana. O caso de amor dele, contudo, é mais antigo que o de Filipe. Ele conheceu a esposa em 2004, numa ida dela a Portugal. "Conheci ela por meio de uma amiga, também baiana, que era casada com um amigo português. Nos conhecemos e ficamos namorando praticamente pela internet, porque ela morava aqui e eu lá", afirma.

Em 2009, no auge da crise econômica que atingiu a Europa, Portugal especialmente, Edigar tomou a decisão que mudaria sua vida: deixar tudo nas terras lusitanas e reconstruir a vida na capital baiana, ao lado do amor de sua vida. "Eu nunca tinha pisado aqui antes. O Brasil, naquela época, era um ótimo lugar para investir, a economia estava muito bem. Então, uni o útil ao agradável", complementa.

A adaptação foi fácil, principalmente pelo clima e pela receptividade das pessoas. "Lá o clima é mais definido, inverno é inverno, verão é verão. Aqui é primavera e verão o ano todo. É uma boa cidade para se viver, com muitas opções gastronômicas e culturais", afirma ele. O roteiro dele na capital baiana inclui idas a exposições, passeios pelos bairros históricos, como Pelourinho e Santo Antônio Além do Carmo e também praias.

"Gosto muito das festas pequenas de bairro, das exposições, de ir às praças. Gosto desse convívio, dessa receptividade das pessoas. Chego numa praça e rapidamente já estou conversando com alguém. Isso é fantástico", afirma.

Em Salvador, abriu uma empresa de reparos eletrônicos e mora em Canabrava. Apesar da proximidade com o Barradão, diz não ser muito fã de futebol. "Acho que Salvador tem muitos outros atrativos do que futebol (risos). Sou torcedor do Benfica, mas não acompanho tanto. O que me atrai em Salvador é essa riqueza de pessoas que tem aqui", enfatiza.

Escolha
O argentino Christian Avolio, 35, veio morar em Salvador em 2011 após ter se casado com a ex-esposa, de quem se separou no ano passado. Eles se conheceram em Buenos Aires, capital argentina, em 2009, quando começaram a namorar.

"Saí de lá e vim morar aqui com ela. O casamento terminou, mas eu escolhi continuar aqui, porque realmente me encantei pela cidade. Mesmo com os problemas, com a violência, com a educação deficiente, Salvador é uma cidade única", afirma ele, que trabalha como professor de espanhol no curso Caballeros de Santiago.

Na chegada a Salvador, ele conta que não encontrou grandes dificuldades com a adaptação. "O calor era um problema, mas eu sofria também no verão na Argentina. Então, foi tranquilo", lembra o argentino, que é apaixonado pela música baiana e fã de Dorival Caymmi e Carlinhos Brown.

Para matar a saudade de casa, ele, que é músico, participa de projetos de tango. "Eu toco violino. Já cheguei a tocar na noite, em alguns bares, mas não faço mais hoje. Prefiro tocar em casa, com amigos. A música em Salvador é muito rica e diversa, deveria ser ensinada nas escolas", conta.

Na culinária, ele diz ser fã de moqueca e adora frutas: jaca, mamão, cajá, caju, siriguela. Praia é seu lazer favorito.

"Já fui a muitas praias, mas a do Porto da Barra é minha favorita. Sempre encontro pessoas conhecidas por lá, muitos estrangeiros, dá para treinar idiomas. A sensação de bem-estar é incrível. Salvador é uma das quatro cidades do mundo com maior intensidade de luz do sol, muito rica em vitamina D. É um antidepressivo natural em abundância", diz, empolgado. Na Argentina, para ir à praia, tinha que percorrer 300 quilômetros. "A praia mais próxima era no Sul e muito fria", recorda.

O presente que mais gostou de ter recebido em terras soteropolitanas foi um dicionário de baianês. "Para quem gosta do estudo de idiomas, como eu, Salvador é uma cidade muito rica. Cada dia eu descubro uma palavra ou expressão nova", afirma, lembrando que as descobertas mais marcantes foram toró, piriguete e quenga.

"Quenga as pessoas usam para denegrir outras", conta, impressionado quando descobriu o significado. A mais recente descoberta foi 'sapeca-iaiá'. "Estava ouvindo um programa de rádio e o apresentador falou isso. Na sala, comentei com os alunos, eles deram risada e me falaram que tinha duplo sentido", relata o argentino.

Declarações
Christian conta que vai frequentemente visitar os amigos e familiares em Buenos Aires, mas não pensa em sair de Salvador. "Foi a cidade que escolhi para viver e que gosto da rotina, gosto das pessoas, do clima, da comida", ressalta.

O mesmo afirma Edigar, apesar de considerar o retorno a Portugal na aposentadoria. "Por enquanto, quero viver por aqui. Tenho minha empresa, minha esposa, minha vida e gosto da dinâmica da cidade, me sinto feliz aqui. Aliás, Salvador é uma cidade que inspira felicidade. Voltar, agora, não está nos planos", complementa.

Fulvia e a família nem pensam em retornar a São Paulo. "Passamos muito tempo planejando vir para cá e somos muito felizes aqui, por tudo. Acho que o que faltava para nossa felicidade ser completa encontramos em Salvador", diz, em tom de declaração à capital baiana.

Filipe, por sua vez, só volta para São Paulo caso não consiga a transferência para a Ufba ou se não arrumar um emprego, já que está desempregado. "Se a coisa apertar, volto para São Paulo. Mas só provisoriamente, porque quando terminar o curso, meu destino será Salvador", pontua.

Mamadou Gaye, por sua vez, afirma que não pensa em mudança, escolheu viver o momento, como fazem os soteropolitanos. "Não sei se vou embora, se vou ficar aqui para sempre. Quero viver o presente. Se Iemanjá quiser que eu fique, vou ficar cinco, dez anos. Agora, sei que não vou encontrar um lugar onde me sinta tão bem quanto em Salvador", enfatiza.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas