Um ano de exaustão: o drama de quem trata covid no 1º hospital de campanha da Bahia

coronavírus
23.04.2021, 05:15:00
(Tiago Caldas/Arquivo CORREIO)

Um ano de exaustão: o drama de quem trata covid no 1º hospital de campanha da Bahia

Espanhol reabriu em 22 de abril de 2020 para cuidar de casos graves da doença

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Noites mal dormidas, choro no banheiro, refeições irregulares, medo de adoecer, estresse profundo e sentimento de exaustão. Essa tem sido a realidade dos profissionais de saúde que atuam na linha de frente desde o início da pandemia na Bahia. Nesta quinta-feira, 22, o primeiro hospital de campanha inaugurado no estado, o Espanhol, completou um ano de atendimento exclusivo aos casos graves da covid-19. A data também marcou um ano ininterrupto de trabalho para os profissionais que fazem a unidade funcionar. Mesmo exaustos, eles não pensam em pular do barco.  

"Eu passei por muitas situações difíceis nesse ano. Muitas vezes pensei em desistir. No primeiro dia que eu entrei no quarto de um paciente, voltei para casa chorando, dizendo que não voltaria mais. Mas a gente tem uma motivação maior que é salvar vidas e é isso que me faz continuar até hoje", diz, emocionada, Claudiana Pereira, 40 anos, coordenadora de enfermagem da unidade. Contando o período em que participou da equipe de implantação do hospital de campanha, ela já tem mais de um ano na casa.  

O reconhecimento veio com a entrega de certificados para ela e todos os outros funcionários que estão trabalhando desde a abertura da unidade. A cerimônia aconteceu no próprio Hospital Espanhol, com a presença de Fábio Vilas-Boas, secretário da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), e Rômulo Cury, diretor geral da unidade.  

“É comum profissionais de saúde terem mais de um vínculo. Então, além do estresse físico e mental que eles têm aqui no Espanhol, há o das outras instituições. Nós fazemos ações diárias justamente com o objetivo de amenizar os impactos”, explica o diretor.  

Quando foram contratados, a previsão era de que a unidade de saúde funcionasse apenas por seis meses. Todos não imaginavam quão longa seria a duração da pandemia. Hoje, ninguém se arrisca a dizer quando a instituição fechará as portas novamente.  

"Isso está acontecendo porque as pessoas não se cuidaram corretamente.  Então, a gente pede de todo coração para os baianos se protegerem do vírus, não porque a gente não quer mais trabalhar e sim porque a gente não quer ver mais ninguém morrer", diz Claudiana.

Leia mais: Uma em cada 3 mortes de covid na Bahia são de jovens e adultos

Para o secretário Fábio Vilas-Boas, o Hospital Espanhol é um dos centros mais importantes no tratamento da covid-19 no país, justamente por causa da dedicação dos seus profissionais.

“Nós estamos oferecendo todas as alternativas cientificamente possíveis de tratamento. É um trabalho eficiente, conduzido pelo infectologista Roberto Badaró e tocado por vários profissionais”, disse. 

O Hospital Espanhol opera com 80 leitos clínicos (76% deles estão ocupados,  no momento) e 159 leitos de UTI (72% de ocupação), conforme dados de ontem, coletados às 19h pela reportagem. No primeiro ano de funcionamento, entre 22 de abril de 2020 até ontem, foram 4.013 internações.

Desse total, 2.474 pacientes tiveram alta após se curarem da covid-19 e 1.084 não resistiram à doença.

O CORREIO conversou com profissionais que estão mantendo o Espanhol com a força de seu trabalho e dedicação desde a reabertura da unidade de saúde. Conheça as histórias de alguns:

Rebeca Nunes, 37, enfermeira dedicada a salvar outras vidas

Rebeca Nunes dedica 42 horas semanais ao Hospital Espanhol

(Foto: Hospital Espanhol/Divulgação)

Uma semana tem 168 horas. Metade desse tempo é vivido por Rebeca dentro de um hospital. São 84 horas semanais dedicadas à saúde. Metade desse tempo é no Hospital Espanhol, a outra em uma unidade privada. “Estou há quase dois anos sem férias e não tenho previsão de quando irei tirar. É bem cansativo”, desabafa.  

No Espanhol, ela fica responsável por atender pacientes que estão internados nos leitos de enfermaria. Sua rotina inclui assistência diária, supervisão, atendimento de ocorrências e até atitudes simples, como escovar os dentes e pentear o cabelo dos pacientes. “Alguns, às vezes, estão tão debilitados que nem isso conseguem fazer”, relata.  

Rebeca começou a trabalhar no local uma semana após a reabertura, em abril de 2020. De lá para cá, ficou afastada apenas por 14 dias, por ter pego a covid-19. Se recuperou sem sequelas, mas viu o marido ter embolia pulmonar. Esse foi o período em que ela mais pensou em desistir.

“Nós nos deparamos com situações de sofrimento e às vezes trazemos para nossa vida pessoal. Tem dias que a gente se sente tão triste. Eu só entro no banheiro e choro tudo que tenho que chorar e bola pra frente. Não podemos parar”, conclui Rebeca.

Carol Fróes, 25, psicóloga ressignificou trabalho após 2ª onda

Carol aproveita a vista privilegiada do hospital, que fica na Barra, de frente para o mar, para relaxar

(Foto: Hospital Espanhol/Divulgação)

A terceira experiência profissional de Carol foi no primeiro hospital de campanha da Bahia. Uma das primeiras contratadas, entrou na unidade antes de qualquer paciente, para preparar o local. No início, era aquele gás e ânimo para enfrentar o que viria pela frente. No final do ano, a sensação parecia ser de vitória. Os dados mostravam que o número de mortes e casos caiam.

Foi então que veio a segunda onda e ela foi pega desprevenida. Em pouco tempo, sua demanda triplicou e a função de atendimento aos pacientes e familiares teve que ser conciliada com outra demanda: a de acompanhar a família no reconhecimento dos corpos.

“Tinha dia que a gente só fazia isso, pois a quantidade de mortos era alta, infelizmente. Fazer esse serviço mexeu demais comigo. O momento da remoção do corpo é pior do que o de dar a notícia aos familiares”, explica a psicóloga.  

Por sua cabeça também passou a vontade de desistir. Além da exaustão, tinha de lidar com o medo de levar o vírus para casa. Contaminada, ficou afastada por 15 dias.

“Hoje, o que me faz continuar é que todas as vezes que entro no quarto de alguém que precisa muito da psicologia e vejo que fiz alguma diferença na vida dela, tenho isso como um combustível. É a alegria de poder fazer o paciente se sentir mais seguro, aceitar o tratamento, lutar pela vida... Isso faz a diferença”.  

Rafael Laranjeira, 38, enfermeiro se motiva pelo dever cumprido  

Rafael luta pela valorização do profissional de enfermagem 

(Foto:Acervo Pessoal)

Rafael também trabalha 84 horas semanais em dois hospitais: o Espanhol e um privado. Mesmo cansado e lutando por mais valorização do profissional de enfermagem, se considera privilegiado e busca olhar o cenário pelo lado bom, o das vidas salvas com o seu ofício.

“O que me mantém é o foco e determinação de alcançar bons resultados. Não é falar por falar. Eu durmo com a cabeça tranquila sabendo que estamos nos doando ao máximo para lutar contra essa pandemia”, afirma o enfermeiro

Não é que o rapaz não passe por dificuldades ou não tenha sequer pensado em desistir. “Eu pensei muito antes de entrar nisso, pois estamos lidando com uma doença que pode nos matar. Pensei em cair fora, quando começou não foi nada fácil. Eram muitas admissões, UTIs lotadas, carga horária é extensa e o cenário ainda é impactante”, conta.  

Em sua rotina no Hospital Espanhol, assume a função de coordenação de duas UTIs. Além disso, faz pós-graduação em gestão na Universidade de São Paulo (USP).

“Hoje procuro me especializar mais nessa função, enxergando também o outro lado da enfermagem, o de gerir uma equipe de saúde. Isso sem deixar o contato direto com os pacientes, que fazem parte do nosso dia a dia”, acrescenta.

Marcos Barbosa, 44, musicoterapeuta reinventou a profissão

Marcos defende que mais hospitais invistam na musicoterapia 

(Foto: Hospital Espanhol / Divulgação)

Marcos chegou ao Espanhol em maio, quando a unidade de saúde já tinha um mês de funcionamento. “Viram a necessidade da musicoterapia no decorrer do conhecimento de como se tratava a doença. Por causa do isolamento, o paciente de covid fica debilitado psicologicamente, estressado e ansioso. Por isso a necessidade desse tratamento diferenciado”, conta.  

Graduado em música e com pós-graduação em musicoterapia, atende três vezes por semana no Espanhol, mas já pensa na possibilidade de aumentar a carga horária. Com o tempo, os gestores perceberam que o tratamento com música não ajudava apenas os pacientes, mas também os profissionais. Todo mundo precisava da terapia oferecida por Marcos, que teve de reinventar a terapia e adaptá-la às necessidades da covid-19.

“O paciente não pode cantar, pois está com falta de ar. A gente não pode aglomerar. Não pode usar muitos instrumentos pelo risco de contaminação. O serviço ficou restrito, mas não com menos qualidade. Tem também o cansaço, medo da contaminação, de levar a doença para casa. Mas é gratificante. Parece que a nossa vida foi destinada para isso. O sucesso transcende qualquer cansaço”, diz o músico. 

Ângelo Gabriel, 28, analista de compras também fica exausto 

Ângelo discursou no evento de um ano da reabertura do Hospital Espanhol 

(Foto: Paula Fróes/divulgação)

“Quem está na linha de frente tem contato direto com o paciente, mas aqui nos bastidores eu estou, por exemplo, com uma demanda de medicamento que não consigo rodar. Busco fornecedor e não encontro. Isso causa exaustão”, explica Ângelo, que está no Espanhol desde antes da inauguração. Em um ano, muitas vezes quis ‘largar o barco’.   

“Várias vezes pensei em desistir por conta do cansaço, que atrapalha nosso estado emocional. Mas a gente está num momento de guerra. Muita gente depende desse trabalho. Imagina só se falta remédio”, analisa o profissional

Um dos seus estímulos é que já tomou as duas doses da vacina. O lado ruim é que, mesmo nas funções administrativas, não consegue férias. “E não tem previsão de quando vou tirar, até porque vamos renovar o contrato agora. Estamos começando tudo do zero”. 

Assim como diversos hospitais do país, o Espanhol enfrentou dificuldade na aquisição do kit intubação e de sedativos, muito usados em UTI. Felizmente, graças ao trabalho de Ângelo e sua equipe, não houve desabastecimento.

“Estamos com dificuldades, mas até o presente momento conseguimos manter o estoque. Desde o início temos dificuldade com algum material, pois o Brasil inteiro demanda por insumos hospitalares. Mas estamos nos adaptando e está dando tudo certo”, comemora.

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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