Um é pouco, dois é bom e três é... melhor ainda!

bahia
12.04.2022, 06:00:00
(Marina Silva/CORREIO)

Um é pouco, dois é bom e três é... melhor ainda!

Conheça o trisal de influencers formado por Íris, Isa e Igor

Se encontrar o amor é ganhar na loteria, eles ganharam duas vezes. Igor Almeida é eletrotécnico e tem 32 anos. Íris Ribeiro é psicóloga e tem 30 anos. Isane Farias é arquiteta e tem 34 anos. O que eles têm em comum além da letra “i”? A relação amorosa! E aqui não tem infiel recebendo 50 reais e nem amante sem lar. Ao invés do sertanejo, essa relação está mais para MPB, considerando justa toda forma de amor. O CORREIO foi atrás do trisal, que é digital influencer com 17 mil seguidores no @nossatriiiade, para descobrir como começou essa história e quais são os principais desafios. 

O relacionamento dos três começou em janeiro de 2020. Eles moram juntos e dividem a mesma cama de casal apertada, em conchinha tripla, mas nem tudo precisa ser em conjunto. O princípio da relação é a não monogamia, ou seja, cada membro deve ter a sua individualidade preservada e as algemas ficam só para os momentos entre quatro paredes. Os três podem sair juntos ou em dupla e cada um é livre para se relacionar com outras pessoas de fora também. Tem amor de sobra! As únicas regras são se comunicar e não levar para casa pessoas com quem eles estejam se relacionando separadamente. 

Sexo só a três?

Nem tudo num trisal precisa ser em conjunto e essa regra se aplica também ao sexo. Existem trisais que só transam se for ménage, mas com Isa, Igor e Íris, não é assim. “A maioria dos trisais ainda é no modelo de um homem e duas mulheres e as pessoas imaginam que é ménage todo dia. Mas com a gente não é assim, já falamos que, antes de sermos um trisal, somos três pares”, explica Íris. 

Isa, Íris e Igor querem desconstruir a ideia de que o homem está no centro da relação

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Quanto a maioria dos trisais ser no modelo um homem e duas mulheres, Isa acredita que um dos motivos é o fetiche muito grande com a bissexualidade feminina. “Há até uma pressão em relação a isso e as mulheres acabam ‘cedendo’. A gente já viu casos de casais que viraram trisais porque o marido estava traindo a mulher e ela não queria que a relação acabasse; o negócio já começa errado. Mas é importante que não haja esse preconceito com o trisal formado por um homem e duas mulheres para que a bissexualidade feminina não seja deslegitimada porque nem todo caso é assim, no nosso não foi”, diz Isa. 

2 + 2 = 4 - 1 = 3

Isa e Igor se conhecem desde pequenos, moravam na mesma rua. Parece aquelas histórias de novela, mas o clichê para por aí. Eles namoravam há 4 anos quando decidiram viver uma espécie de relacionamento aberto, mas sem dar nome aos bois. “A gente decidiu que queria viver algo livre, sem limitações, restrições, queríamos poder viver a conquista, o primeiro encontro e a paixão sem abrir mão um do outro porque não precisávamos escolher entre uma coisa e outra”, diz Isa. 

Mas, de 2014 até 2017, a nova configuração ficou só na teoria, com Isa e Igor apenas assumindo um para o outro as atrações que sentiam por outras pessoas. Até que eles decidiram criar um perfil de casal no famoso Tinder, aplicativo de paquera, para começarem se relacionando juntos com outras pessoas. No começo, Isa foi contra, se juntando ao Grupo Revelação no time do ‘deixa acontecer naturalmente’, mas depois acabou cedendo porque não é todo dia que a felicidade bate à porta. 

Mas, em 2019, ela bateu e o match veio à moda antiga. Mas calma que, primeiro, quem entra em cena são somente Isa e Íris. As duas se conheceram em um casamento em que foram madrinhas. A psicóloga também já vivia um relacionamento livre. “Meu ex fez a proposta e eu topei porque queria explorar a minha bissexualidade. Como o propósito era esse, a gente já começou se relacionando separadamente com outras pessoas, ao contrário da dinâmica de Isa e Igor”, diz Íris.  

Igor conta que, a princípio, as duas viveram um romance entre si, saindo juntas. Depois, surgiu a ideia de cada uma apresentar à outra o namorado. Sim, o trisal já foi um quadrisal! “Aí eu e o ex-namorado de Íris entramos em cena e os quatro foram se conhecer. A gente chegou a ter trocas nós quatro, mas depois o relacionamento deles acabou e Íris, já solteira, continuou se relacionando com a gente”, explica Igor. 

Isa, Íris e Igor são bissexuais e já viviam relações livres antes de formarem um trisal

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Quando a pandemia começou, foi hora de juntar as trouxas de roupa. No início, Íris foi morar com Isa e Igor se iludindo, como todo mero mortal, com a ideia de que a covid-19 iria desaparecer em 15 dias. Como isso não aconteceu, o tempo foi passando e ela foi ficando. Até que Igor, como bom sagitariano, começou a questionar o que era aquilo que eles estavam vivendo. Foi aí que eles se assumiram como trisal e criaram o perfil no Instagram, que mostra a rotina deles e debate sobre a não monogamia. 

“Dos três, eu fui a que mais teve medo de assumir que de fato éramos um trisal. Eu tive medo da relação ser baseada numa hierarquia, de ser a terceira pessoa, mesmo sendo muito acolhida pelos dois, porque o problema estava em mim, na minha insegurança em chegar numa relação já consolidada há 10 anos”, desabafa Íris. 

A relação é de três pontas, mas também está sujeita aos dois lados da moeda

Se um está ocupado, o outro está livre. Se um não está afim de sair, o outro está. É mais gente com quem dividir das tristezas e alegrias às tarefas domésticas e os boletos para pagar. Em pleno 2022, formar trisal é até economicamente aconselhável. Brincadeiras à parte, Isa diz que o principal ponto positivo da relação não monogâmica é o aprendizado. “Se relacionar é se conhecer e evoluir. Se com uma pessoa você já aprende muito, imagina com duas”, brinca. 

Já Íris destaca que tudo a três vira uma festa e essa é a parte que ela mais gosta. “Quanto estamos os três juntos, é uma folia. Se a gente vai na praia ou faz um jantar em casa, é um evento. Eu adoro essa parte, os rolês são sempre mais divertidos”, diz a psicóloga. 

Isa conta ainda que entre os três ninguém se morde de ciúmes e que, na verdade, ela adora compartilhar Íris com Igor e vice-versa. “Não existe nada do tipo ‘ah, vou ficar chateada porque Igor está saindo com Íris’. Eu descobri a palavra ‘compersão’, que a gente só ouve falar quando está no mundo da não monogamia. Ela significa a capacidade de estar feliz em ver o seu parceiro feliz com outra pessoa. Eu tenho esse sentimento em relação a eles dois; se eles estão brigados, eu fico mal”, diz a arquiteta. Mas Isa reconhece que o ciúmes aparece de vez em quando, em relação às pessoas de fora.

“Por mais que a gente queira se desconstruir, a sociedade é de outra forma, nós fomos criados de outra forma. Mas a gente tem o princípio de não deixar que o ciúmes impeça a outra pessoa de fazer algo. Esse sentimento diz mais sobre a gente do que sobre o outro, então a gente procura entender o que está motivando aquilo, trabalhar esse sentimento e controlá-lo”, diz Isa.

Íris acrescenta que, além do desafio de lidar com esse ciúmes, também é difícil manter a completa harmonia entre os três. É preciso muito diálogo para que todo mundo se entenda, não é sempre que os três vão entrar em acordo sobre as coisas. Se a gente vai para uma festa, por exemplo, mas eu não estou muito na energia da paquera, a gente se comunica e ficamos mais os três juntos. Mas se os outros dois estão mais na energia da paquera, aí eu fico em casa. Enfim, é preciso encontrar equilíbrio, cada um tem que ceder um pouco”, diz.

Já deu para perceber que as brigas e desentendimentos são por problemas que toda relação enfrenta. Até agora, os motivos foram ciúmes e discordância. O terceiro elemento, que na verdade é o maior gerador das confusões, é aquele que deixa qualquer um que não tem a conta bancária de Jade Picon de cabelo em pé: a divisão de tarefas domésticas. “Tivemos que fazer uma lista com um rodízio de quem fica responsável pelo quê”, conta Igor. 

‘Trisal é coisa de comunista que vai pro inferno!’

Para além das questões internas, o trisal precisa enfrentar as externas, que são bem mais complicadas. O perfil poliamor não faz muito o estilo dos conservadores, aqueles que gostam da tradição do papel passado e do vestido branco. “No Instagram, nunca tivemos problemas. Já no Tik Tok, recebemos críticas que passam muito pela política e pela religião”, conta Íris. “Eles ficam dizendo que isso é coisa de esquerdista, que viver assim não é certo, que é pecado e a gente vai para o inferno. Eu acho graça até”, diz Isa. 

Os ataques de desconhecidos podem não incomodar, mas a desaprovação de familiares e amigos machuca. Dos três, quem teve mais receio de se abrir foi Igor. “A questão maior foi com minha mãe. Até hoje eu não tenho facilidade para me aprofundar no assunto e ela tem mais resistência, por mais que ela tenha a mente aberta para outras coisas. Eu acredito que é reflexo daquele ciúmes de mãe porque eu sou o único filho homem”, diz Igor.

A família de Íris também apresenta resistência em relação à escolha dela. “Eu vejo como um preconceito, principalmente pelo lado religioso. A minha família é muito religiosa, naquela visão forte do casal, do casamento, que considera um trisal como algo errado. Eu fico triste, mas procuro não me importar. Eu quero que me respeitem. Tem gente que fala aceitar, mas eles não têm que aceitar ou não aceitar porque a escolha é minha; é sobre respeitar ou não respeitar. Elas me respeitam e eu respeito a escolha deles de não quererem conviver com a gente”, desabafa Íris. 

Quem melhor lidou com a notícia foi a família de Isa. “No início, a mãe dela ficou mais fechada, mas, aos poucos, foi se acostumando. Hoje, quando Íris viaja, ela pergunta, diz que está com saudade. A gente passou as festas de final de ano com a família dela, foi bem tranquilo”, conta Igor. 

Com relação aos amigos, a maioria apoia a relação e alguns até incentivaram a criação do perfil no Instagram, mas isso não impediu os cochichos nos bastidores. “Chegaram algumas coisas para a gente ditas pelas costas, falando que isso não ia durar muito tempo, que eu ia ser excluída pelos dois ou que eu iria arranjar um namorado ou namorada e largar eles; enfim, as pessoas descredibilizaram muito a nossa relação”, diz Íris. 

Está ouvindo esse barulho? É o tabu sendo quebrado!

Para quem duvida da possibilidade de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, Isa, Íris e Igor são a prova viva.

“Se a gente pode amar vários amigos, vários familiares, vários filhos, por que a gente não pode ter mais de um companheiro ou companheira? A única resposta está nas barreiras que a sociedade coloca para isso”, diz Igor.

“A gente precisa desconstruir esse amor possessivo do ‘eu amo ela, ela é minha, ninguém toca’. Eu já não consigo conceber esse tipo de relacionamento”, completa. Isa acrescenta que não sentir atração por mais ninguém quando se está namorando ou casado é mito.

“A nossa ideia da relação livre é justamente não reprimir esses sentimentos por puro ciúmes ou egoísmo. Diferente do que muita gente pensa, a gente não sai por aí caçando sexo, inclusive tem muito tempo que a gente não se relaciona com outras pessoas. A proposta é que, se acontecer a atração, a pessoa tenha a liberdade de desfrutar. Lembrando que nem tudo é sobre sexo e até existem pessoas que são assexuais”, diz a arquiteta. 

“A monogamia resulta em uma pressão social de que a gente tem que encontrar o nosso par romântico, namorar, casar, ter filhos e ser feliz para sempre. O casal vira uma pessoa só, é aquela ideia de que as pessoas se completam. Quando a gente parte para a não monogamia, os envolvidos são vistos de forma mais individual, não romantizada e tudo passa pela ideia de liberdade”, completa Íris. 

Glossário não mono:

Monogamia - Condição de ter apenas um vínculo amoroso por vez, mantendo a exclusividade afetiva e sexual entre o casal. 

Mono normatividade - Normas culturais e sociais que propagam e defendem a ideia da monogamia. 

Poligamia - Possibilidade de ter vários casamentos, sendo possível apenas para uma das partes. Proibida no Brasil. 

Não monogamia - Termo guarda-chuva para as diversas formas de manter relações sexuais e/ou afetivas com mais de uma pessoa ao mesmo tempo de forma consensual. 

Poliamor - A forma mais famosa de não monogamia. Condiz com a possibilidade de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, podendo viver mais de um relacionamento simultâneo com o consentimento de todos. 

Polifidelidade - Quando as pessoas que se relacionam a três, quatro ou mais, têm uma relação fechada, existindo o acordo de fidelidade entre todos. 

Relacionamento aberto - Exclusividade afetiva entre os membros envolvidos, mas com liberdade para se envolver sexualmente com outras pessoas fora da relação.

Relação livre - As pessoas são livres para se relacionar sexualmente e/ou afetivamente com outras pessoas de forma igualitária sem impor hierarquias, acordos ou regras. 

Swing - Troca de casais é a parte mais conhecida nas relações entre duas pessoas que juntos vivenciam envolvimentos sexuais com outras pessoas. 

Ménage à trois - Experiência sexual entre três pessoas.

Dicas: o que ler, ver e ouvir sobre não monogamia?

  • Desafios de Ser Não Mono - podcast
  • Vaginaria - podcast 
  • Prazer, Renata - podcast
  • Monogamia - episódio 18 da temporada 1 da série Explicando (Netflix)
  • Monogamish - documentário (Globoplay) 
  • The Mask You Live In - documentário (Netflix)
  • Novas formas de amar - livro da escritora e psicanalista Regina Navarro Lins
  • Amor na vitrine - livro da escritora e psicanalista Regina Navarro Lins
  • O livro do amor: da Pré-história à Renascença e O livro do amor: do Iluminismo à atualidade - livros da escritora e psicanalista Regina Navarro Lins

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