Um olho no preço, outro no rótulo: 10 produtos para o consumidor ficar atento à embalagem

entre
04.12.2021, 05:00:00
(Ilustração: Morgana Lima/ Estúdio Grida)

Um olho no preço, outro no rótulo: 10 produtos para o consumidor ficar atento à embalagem

Já viu manteiga à base de margarina? Esse é um dos produtos que o setor de laticínios vem ‘inovando’ para oferecer produtos mais em conta. Saiba como diferenciar

A embalagem tem cor de manteiga, um solzinho nascendo na fazenda ou uma vaca. Custando R$ 10,98 – metade do valor de uma marca tradicional – quem coloca no carrinho achando que é uma boa promoção só percebe quando chega em casa que, na verdade, não era manteiga, era manteiga à base de margarina ou margarina sabor manteiga. Enfim, só não era manteiga. É preciso estar atento e forte no supermercado.  

Quem ainda não caiu nessa pegadinha, ganha desconto na próxima compra (brincadeira). O universitário João Gabriel Mota, 21 anos, é um desses que se sentiu ‘enganado’. A descoberta de que a ‘manteiga’ não era bem o que ele achou que era só veio na hora de ir para cozinha fazer um purê e um refogado de chuchu. 

“Ela estava lá no meio das opções de manteigas e ainda dizia que era sem lactose. Custou
R$ 15. Cheguei em casa, fui usar essa ‘manteiga’ no fogo. Peguei o rótulo e vi lá escrito: creme vegetal. Cheguei a entrar em contato com o supermercado e o fabricante do produto. Comprei manteiga pensando que era manteiga mas não era”,
relata.  

E o consumidor que lute. Dá para entender porque tem muita gente comprando manteiga à base de margarina, achando que está pagando por um pote de 500g de nata batida em oferta. Cada centavo faz a diferença diante do aumento do preço de produtos derivados de leite no ano passado para cá. Só para se ter uma ideia, tanto o leite quanto a manteiga apresentaram elevação de preço em 11 capitais - com base no último levantamento divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos (Dieese), referente a cesta básica de outubro em comparação com o mês anterior.

As altas mais significativas da manteiga ocorreram em Vitória (5,18%) e em Salvador (2,72%). Já o leite registrou os maiores aumentos em Campo Grande (2,98%) e Belém (1,78%). Em 12 meses, o leite subiu 1,55% e a manteiga 22,96%. Os resultados mensais referentes a novembro serão publicados nesta segunda-feira (6).  

A justificativa do setor produtivo está nos custos, como pontua o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges. Atualmente, o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de leite e derivados. “No último ano, os preços subiram porque o setor de laticínios recebeu todo o impacto do câmbio e da inflação, porém, não tivemos nenhum benefício da exportação. Parte desse custo foi repassado para o consumidor”, analisa.  

Infelizmente, não é agora que a inflação, acima dos 10%, vai deixar de incomodar. O dólar, na casa dos R$ 5,65, muito menos. A saída acaba sendo sempre a pesquisa de preço, como reforça o conselheiro Federal de Economia do Brasil e vice-presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia, Gustavo Casseb Pessoti:

“A gente observa, comparando o preço de marcas e produtos de diversos supermercados, que a diferença em determinados itens chega a 40%. Então, pesquisa de preço passa ser uma questão obrigatória”, orienta.

Foco no rótulo  
E aí, não tem jeito. É um olho no preço e outro no rótulo. Durante a semana, a reportagem passou por cinco supermercados da capital e destaca 10 produtos laticínios para que o consumidor ative o radar, leia as letras miúdas do rótulo e não leve margarina no lugar de manteiga, bebida láctea ao invés de iogurte ou leite e até mistura láctea condensada disfarçada ali, no precinho, bem na prateleira do leite condensado. Alguns sinalizados até, outros nem tanto (veja abaixo no boxe ‘Parece, mas não é’).

Todo mundo já se deparou em algum momento com um azeite que era misturado com óleo de soja ou uma versão de suco composto com maçã. Segundo o vice-presidente da Associação Bahiana de Supermercados (Abase), João Claudio Nunes, apesar de marcas mais alternativas sempre terem existido, o que tem acontecido é que com a redução do poder de compra do consumidor, cresceram a preferência e as trocas por aquelas que conseguem ofertar um preço menor, o que tem, inclusive, preocupado as marcas mais tradicionais. 

“Existem produtos que são parecidos, mas é por isso que é importante olhar sua composição. No caso da manteiga mais margarina, de fato, é um produto que acabou surgindo recentemente diante do preço mais elevado dos derivados de leite. Então, se criou uma opção mais em conta”, explica Nunes.

Que manteiga é essa?  
Mas afinal, o que é essa manteiga à base de margarina? Bom, quem explica é o nutricionista e coordenador de nutrição da UniRuy Wyden, Anderson Carvalho. A manteiga é um produto de origem animal, formada a partir do processamento do creme de leite, mais próximo ao natural. Já a margarina é produzida a partir de óleos vegetais, em que se utilizam processos industriais de hidrogenação, que estão associados a tão temida gordura trans.

“Agora, a indústria está utilizando um outro tipo de substrato para fazer a margarina. A gordura interesterificada é um tipo diferente da gordura hidrogenada porque vem de um processo de gorduras saturadas e óleos vegetais líquidos, que se difere do processo da hidrogenação que cria as gorduras trans. E aí, são vários nomes: alimento à base de manteiga e margarina ou margarina sabor manteiga”.  

Até 2023, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quer banir o uso e o consumo de gorduras trans dos alimentos no Brasil.  Ou seja, não é só uma questão de diversidade de produtos com preços competitivos, mas de adequação da indústria alimentícia, como acrescenta Carvalho.

“Se você olhar na composição, a manteiga à base de margarina é uma mistura de óleos vegetais líquidos interesterificados e uma outra série de possibilidades tecnológicas para burlar essa coisa da gordura trans”, ressalta Carvalho.   

A fisioterapeuta Laiane Mesquita, 39 anos, é mais uma que está levando mais tempo no mercado conferindo rótulo de tudo que coloca no carrinho, depois de ter sido mais uma ‘vítima’ da manteiga que não era manteiga. 

“Fiquei me sentindo porque achei que estava comprando um pote de manteiga por R$ 14. Mas não, minha irmã: era margarina mesmo”. Gastando R$ 900 por mês, troca de marca se tornou rotina. “Levo o dobro do tempo no mercado lendo composição e conferindo peso e calculando se vale a pena”.  

Se ligue  
Nem tudo é só manteiga. Ou margarina. Ou os dois juntos. O cozinheiro Breno Sodré, 25 anos, da Empada do Breno, afirma que comprometeu a produção por conta de um leite condensado que sempre utilizou, mas que mudou a qualidade do produto e manteve o mesmo preço. 

“Ficou mais ralo, chegando a espumar no forno. Perdi toda minha produção. A empresa não fez nada sobre isso, apenas mandou um ‘presente’. O leite condensado é o item que mais uso aqui na loja. Tenho visto marcas reduzirem pacotes de 1kg para 900g. Outras de 800g pra 750g. A leitura e a checagem de cada ingrediente é essencial”.

Em casos em que o consumidor se sinta prejudicado com essas alterações, o advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Igor Marchetti, destaca que ele tem direito de encontrar todas as informações de maneira clara no rótulo. 

“Ler atentamente as descrições dos ingredientes é algo importante e um direito básico de informação e saúde conforme disposto no artigo 6º, I e III do Código de Defesa do Consumidor (CDC). O não cumprimento configura defeito do produto, podendo o fabricante ser responsabilizado por eventuais danos causados pela falta de informação adequada”, comenta.  

E nesse jogo da troca de marcas, a recomendação principal da nutricionista Carolina Dias é mesmo não deixar passar nenhum detalhe na quantidade de açúcar, gordura ou sal e observar se eles aparecem como os primeiros ingredientes da lista, para que o mais barato, no fim das contas, não saia caro. 

“Em geral, a maioria dos produtos que vemos em prateleira de supermercado possui conservantes, corantes, edulcorantes (adoçantes). Então, quanto menos isso aparecer nas embalagens, melhor”.


PARECE, MAS NÃO É: 10 PRODUTOS PARA O CONSUMIDOR FICAR ATENTO AO RÓTULO

1. Nata Brasileira Cremosa (500g) 
O nome leva ‘nata’, mas não é manteiga e sim, um alimento a base de manteiga e margarina. Contém gordura vegetal e é aromatizado artificialmente com aroma de manteiga – R$ 10,98

2. Natural da Vaca sabor requeijão (200g) 
Mistura de requeijão. Alerta: a massa láctea leva na composição gordura vegetal e amido. De requeijão, só o aroma mesmo – R$ 3,50

3. Cremor (395g) 
Mistura láctea condensada não é leite condensado. É soro de leite, açúcar e lactose - R$ 4,35

4. Parmalat Max (750g)  
Composto lácteo não é leite em pó fortificado – Tem o bichinho da Parmalat no rótulo, rende 30 copos, só que não é leite integral como o da vaquinha - R$ 22,59

5. Leco extra cremosa com sal (200g) 
Alimento à base de manteiga e margarina não é manteiga, se tem óleos vegetais hidrogenados. E nessa embalagem, vai ser necessário ler as letras pequenas para descobrir isso – R$ 15,99

6. Saboroso (395g) 
Mistura láctea condensada de leite e soro de leite não é leite condensado já que leva amido nos ingredientes, apesar do precinho – R$ 3,22

7. Ninho Forti+ (750g) 
Composto lácteo com fibras não é leite em pó. Para não se confundir mais, a embalagem do leite Ninho integral é aquela com detalhe azul – R$ 27,45

8. Pouso Alto com sal (500g) 
Alimento à base de manteiga e margarina também não é manteiga. Essa é mais uma marca que contém gordura vegetal e aroma de manteiga  – R$ 11,63

9. Danone Kids Morango (com seis unidades/ 510g) 
Bebida láctea fermentada com preparado de fruta não é iogurte. Não tem fruta e conta com um espessante chamado carboximetil, obtido a partir das fibras da celulose – R$ 5,29.

10. Olá Ibituruna (1l) 
Bebida láctea UTH não é leite líquido integral. Tem açúcar e gordura vegetal – R$ 3,39


TIRA-DÚVIDAS

. O que é direito do consumidor?  
Advogado do Pedreira Franco e Advogados Associados, Archimedes Pedreira Franco explica que o consumidor tem dois direitos básicos: o de informação e o de escolha. Porém, cabe a ele também verificar com atenção todas informações sobre o produto. “Para ser prejudicado, é necessário que as informações sejam incorretas ou insuficientes, capazes de confundi-lo ou colocar em risco sua saúde ou segurança”.  

. Onde buscar ajuda? 
Caso configure um dano de algum direito previsto no CDC, o advogado lista alguns órgãos que o consumidor pode recorrer: “Busque instituições com os Procon, a Vigilância Sanitária, Inmetro, Anvisa, e também a Decon (Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor)”.


*Valores pesquisados em 01/12, nos supermercados Extra Paralela, Rede Mix Jorge Amado, Big Bom Preço Iguatemi, Atacadão Atakarejo Pernambués e GBarbosa Iguatemi.  

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas