Vacinação em massa não ampliou a taxa de mortalidade por covid, diferentemente do que afirma médico

coronavírus
29.11.2021, 18:56:16

Vacinação em massa não ampliou a taxa de mortalidade por covid, diferentemente do que afirma médico

É enganoso o conteúdo de um vídeo que circula no Telegram no qual um médico discursa contra a vacina da Pfizer desenvolvida para combater o coronavírus
  • Conteúdo verificado: Trecho de vídeo que exibe a participação de um médico em uma audiência pública sobre a exigência de passaporte sanitário em Sorocaba (SP) no dia 10 de novembro está circulando em grupos bolsonaristas no Telegram. Junto ao conteúdo, é compartilhado um texto que afirma que os imunizantes da Pfizer contra a covid-19 apresentam riscos para a população.

É enganoso conteúdo de vídeo publicado em redes bolsonaristas no Telegram, segundo o qual um médico afirma que as vacinas desenvolvidas pela Pfizer contra o coronavírus são nocivas para a população por falta de eficácia ou segurança. Também é enganoso que não haja solidez no acompanhamento da vacinação em gestantes e que pessoas vacinadas podem, sim, transmitir, mas a probabilidade é menor.

A vacina é comprovadamente eficaz tanto para evitar que haja contaminação quanto a transmissão da covid-19, além de reduzir as chances daqueles que venham a contrair o vírus de desenvolverem a forma grave da doença.

A reportagem contatou o médico Alessandro Loiola, autor do conteúdo verificado aqui, mas ele não respondeu até a publicação deste texto.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Como verificamos?
Inicialmente, a reportagem foi em busca de informações sobre a forma como a eficácia e a segurança das vacinas são aprovadas por órgãos reguladores de saúde, como a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil; a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos; e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que faz a avaliação na Europa.

Na sequência, foram cruzadas as informações que Loiola apresenta em seu discurso com o que já foi comprovado sobre as vacinas — eficácia, segurança e procedimentos para aprovação de uso.

Além disso, enviamos um e-mail para o Ministério da Saúde questionando qual era a política definida no país para vacinação de gestantes e lactantes. A reportagem encaminhou, ainda, um e-mail para a Pfizer com pedido de esclarecimentos sobre os pontos citados no vídeo em verificação.

O Comprova também entrou em contato com a Câmara Municipal de Sorocaba (SP), cuja página do Facebook ainda mantém disponível o vídeo de Loiola, mas até a publicação desta reportagem não recebeu retorno.

O infectologista e médico no Hospital Sírio-Libanês Alexandre Cunha foi contatado para esclarecermos se o vídeo apresenta dados que encontram respaldo na realidade. Cunha comparou, ainda, as afirmações que Loiola defende no vídeo com os dados fornecidos pelo Our World in Data, site ligado à Universidade de Oxford.

Por fim, o Comprova enviou mensagem para Loiola para questionar as fontes das declarações feitas por ele. Até 29 de novembro, não houve retorno.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 29 de novembro de 2021.

Verificação
Em buscas na internet, a reportagem conseguiu identificar que o vídeo se trata de um trecho retirado do discurso de Alessandro Loiola em uma audiência pública na Câmara Municipal de Sorocaba. O evento aconteceu no dia 10 de novembro e tinha como tema o uso do passaporte sanitário na região.

Desde o dia 23 de novembro, o conteúdo não está mais disponível no canal do órgão legislativo no YouTube por “violar as diretrizes da comunidade”. No entanto, a transmissão segue disponível no Facebook da Câmara. Entramos em contato com a Câmara, mas, até a publicação desta reportagem, não tivemos retorno.

As afirmações sobre a segurança e eficácia da vacina presentes no vídeo foram tiradas de contexto por Loiola, e repercutiram nas redes sociais e no WhatsApp. De acordo com os primeiros estudos lançados pela Pfizer sobre os imunizantes contra a covid-19, ainda em julho de 2020, os testes utilizaram adultos saudáveis entre 18 e 55 anos.

Contudo, isso não significa que os imunizantes, em suas fases iniciais, não foram aplicados em idosos e em imunossuprimidos, mas que, no início das testagens, fase de maior risco para qualquer categoria de fármaco, e não apenas os desenvolvidos contra a covid-19, apenas adultos saudáveis integravam as pesquisas.

O laboratório norte-americano anunciou em 18 de novembro de 2020 a conclusão da última fase de testes, que incluíam a imunização de pessoas de todas as faixas etárias acima dos 18 anos. Os imunizantes apresentaram 95% de eficácia em todas as idades, gêneros e etnias, segundo os laboratórios da Pfizer e da alemã BioNTech.

A 3ª fase de testes com a vacina desse imunizante começou em julho de 2020 e envolveu mais de 43 mil participantes em seis países, incluindo o Brasil, os Estados Unidos, Alemanha, Turquia, África do Sul e Argentina. Em dezembro de 2020, a farmacêutica deu entrada no pedido de uso emergencial das vacinas junto à Anvisa.

Orientações do Ministério da Saúde para gestantes
O Ministério da Saúde comunicou no dia 28 de julho deste ano, em seu site oficial, a orientação para grávidas e puérperas em relação aos imunizantes contra a covid-19. A pasta orienta que mulheres deste grupo que receberam a primeira dose da AstraZeneca recebam a segunda da Pfizer. O que implica dizer que os imunizantes, além de seguros, têm uso incentivado pelo órgão de saúde brasileiro, diferente do que afirma o médico no vídeo em verificação.

A imprensa brasileira também esclareceu, com base em estudos e declarações de cientistas, que as vacinas desenvolvidas pela Pfizer e pela Moderna são seguras para grávidas. As notícias desmentindo boatos sobre as duas farmacêuticas foram destaque na mídia após circular a informação falsa que gestantes teriam a placenta danificada caso recebessem as doses.

Vacina não é experimental
Em entrevista ao Comprova, o infectologista Alexandre Cunha disse que as informações apresentadas no vídeo “não fazem nenhum sentido”. “A essa altura do campeonato, questionar isso [a vacina] é uma narrativa completamente fantasiosa.”

O especialista também desmentiu o conteúdo apontando que a vacina não é experimental — mesma posição da Anvisa, da FDA, da EMA e Pfizer, conforme foi amplamente noticiado pela imprensa. Ele explica o que pode ou não ser definido, em termos científicos, como “experimental”.

“O conceito científico experimental é um produto qualquer que pode ser um medicamento ou uma vacina que não passou pelas fases de estudos clínicos. A gente tem estudo pré-clínico, que é o estudo feito em animais, podem ser ratos, camundongos, cobaias, depois a gente tem os estudos clínicos fase um, fase dois e fase três.”

Cunha detalha ainda que as vacinas contra a covid-19 já ultrapassaram a fase três e que está na quarta etapa de estudos. “A gente chama de fase quatro quando o produto não é mais experimental e já está sendo usado na vida real”, diz.

Ser contra a vacina é um “pensamento delirante”, segundo o infectologista. “É um absurdo, hoje, alguém querer falar contra a vacina”, afirma.

O que diz a Pfizer
Em nota encaminhada ao Comprova, a Pfizer informou que a vacina ComiRNAty, desenvolvida contra a covid-19, foi avaliada em estudo de fase três e apresentou eficácia global de 95% em toda a população participante.

A farmacêutica disse que a ação do imunizante foi analisada em diversos grupos, incluindo pacientes com condições clínicas de risco, sendo observada ainda uma eficácia de 94% em indivíduos acima dos 65 anos.

O laboratório argumenta ainda que a concessão do registro de uso definitivo, concedido pela Anvisa à vacina, atesta a segurança, qualidade e eficácia em públicos de diversas idades e condições imunológicas.

A Pfizer ressaltou que o estudo em gestantes também avaliou a segurança e tolerabilidade dos imunizantes aos bebês, além da transferência de anticorpos potencialmente protetores da mãe para o filho.

“Até o momento, especificamente sobre a vacina ComiRNAty, não há qualquer alerta de segurança ou preocupação, de modo que o benefício da vacinação segue se sobrepondo a qualquer risco”, diz a farmacêutica.

Mais de 2,1 bilhões de doses do imunizante produzido pela Pfizer em parceria com a BioNTech já foram distribuídas em mais de 161 países ao redor do mundo, até 25 de novembro de 2021.

É correto comparar a mortalidade de 2020 e 2021?
Loiola afirma no vídeo verificado que os 20 países com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo tiveram aumento de até 1.600% no número de mortes após o início da vacinação da população.

No entanto, é incorreto comparar dados – seja de mortes ou casos de covid-19 – de dois anos e dois momentos diferentes da pandemia, da evolução de casos e da cobertura vacinal nos países. Anteriormente, o Comprova verificou e definiu como enganoso um post que comparava a mortalidade da covid-19 em 2020 e 2021.

Além disso, em uma verificação anterior o UOL Confere comprovou que o avanço da imunização nos Estados Unidos gerou queda no número de mortes pela doença entre janeiro — que foi o pico de casos no país — e julho deste ano. A verificação usou dados da Universidade Johns Hopkins utilizados pelo monitoramento do site Our World in Data.

Quem é o médico que aparece no vídeo?
O homem que aparece no vídeo é o médico Alessandro Loiola. Natural de Vitória, no Espírito Santo, Loiola apareceu em outra verificação recente do Comprova, que apontou que ele também é registrado como profissional no Conselho Federal de Medicina em Minas Gerais, nas áreas de cirurgia geral e proctologia.

Loiola é formado pela Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (Emescam), no Espírito Santo. No site do Conselho Federal de Medicina (CFM) constam três registros em seu nome, em diferentes estados: Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. Os registros múltiplos são possíveis para médicos que atuam em cidades diversas.

O médico tem dezenas de milhares de seguidores nas redes sociais, como o Twitter e o Instagram, onde já fez diversas postagens relacionadas à pandemia de covid-19, falando em “riscos da vacina” e contra o uso de máscaras.

Por que investigamos?
Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. O conteúdo em verificação foi compartilhado em grupos bolsonaristas com mais de 45 mil inscritos no Telegram.

Publicações como essa deixam as pessoas mais vulneráveis em relação à imunização, ainda que essa medida sanitária seja a mais eficaz para evitar a contaminação, transmissão e quadros graves da doença.

Isso faz com que a população fique em perigo, uma vez que, sem as doses da vacina, há mais chance de exposição ao vírus e de desenvolver a fase aguda da covid-19, com risco de intubação e óbito.

O Comprova tem publicado verificações que desmentem boatos de internet que interferem negativamente na proteção contra a covid-19 ou que podem influenciar no processo democrático brasileiro, como o que esclareceu que o inquérito da PF não investiga fraude no processo de votação. Assim como o boato de internet que engana ao afirmar que o CDC coleta dados de pessoas reinfectadas transmitindo coronavírus.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

*Esta checagem foi postada originalmente pelo Projeto Comprova, uma coalizão formada por 33 veículos de mídia, incluindo o CORREIO, a fim de identificar e enfraquecer as sofisticadas técnicas de manipulação e disseminação de conteúdo enganoso que surgem em sites, aplicativos de mensagens e redes sociais. Esta investigação foi conduzida por jornalistas do UOL, Estadão e Gaúcha ZH, e validada, através do processo de crosscheck, por seis veículos: Correio de Carajás, Poder 360, Folha de S.Paulo, CORREIO e Correio do Povo.

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