Vai fazer Enem pra quê? Especialistas dão dicas de como escolher curso na faculdade

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10.11.2021, 06:00:00
O estudante Pedro Costard, 17 anos, está definindo qual carreira seguir (Paula Fróes/ CORREIO)

Vai fazer Enem pra quê? Especialistas dão dicas de como escolher curso na faculdade

Com o fim dos vestibulares, os alunos podem escolher o curso durante os dias em que o Sisu abre inscrição

A primeira etapa do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) começa no próximo dia 21, mas muitos alunos ainda não sabem qual curso irão escolher. Com a substituição dos vestibulares pelo Enem, os estudantes não precisam mais fazer as provas já com a faculdade e o curso em mente. O acesso acontece pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que acontece nos primeiros meses de 2022, ainda sem data confirmada. O candidato Pedro Costard, de 17 anos, é um dos que vão deixar para a última hora.

Pedro está no 3º ano do Ensino Médio do Colégio Montessoriano, em Salvador, vai fazer o Enem 2021, mas ainda não sabe qual curso vai escolher. “Eu sou muito chegado à Arte, História e Informática. Mas é difícil escolher porque cada uma dessas áreas está ligada a diversas profissões e não é porque eu gosto de arte que eu vou querer fazer isso a minha profissão, que eu vou querer trabalhar com isso”, diz ele.

O candidato diz que não tem pressa e que vai tentar acertar na profissão, mas, se não der certo, terá outras chances. “Eu estou tranquilo e recomendo isso para os outros também. Vai dar certo e, se não der, a gente tenta de novo. Tem tantos casos de pessoas com 50 anos ou até bem mais se formando, às vezes pela primeira vez ou às vezes a pessoa volta para finalmente fazer o curso que sempre sonhou. É isso, a gente pode errar, não precisa já acertar de primeira, não somos perfeitos”.

Pedro conta que, por sorte, tem o apoio da mãe, que passou por seis cursos diferentes. “Ela foi experimentando e, se não gostava, saía. E ela me diz que eu posso fazer o mesmo, que eu não preciso ter medo de errar e o importante é encontrar o que eu gosto. Meu pai, por outro lado, já se preocupa mais com essa minha decisão, tem um pouco mais de pressa, digamos assim. Mas eu sei que é algo que tem que partir de mim, muitas vezes as pessoas escolhem a profissão que os pais querem. Minha avó, por exemplo, quer que eu faça Medicina, mas eu não me encaixo na profissão, até acho interessante, mas isso não é suficiente”, acrescenta. 

A pedagoga e coordenadora do 9º ao 3º do Colégio Montessoriano, Carina Menezes, defende a importância da reflexão sobre a profissão ainda durante o Ensino Médio. “Hoje a gente tem um sistema de acesso às universidades muito aberto. Então a gente percebe alunos indecisos que vão lá na hora do Sisu ver para qual curso a nota que eles têm dá para passar, e aí acabam escolhendo aquilo porque é o que eles conseguiram. Isso faz com que, às vezes, o aluno faça anos do curso ou até termine e só então se dê conta de que não era aquilo que queria”, diz. 

A pedagoga Carina Menezes defende a reflexão sobre o curso durante o Ensino Médio (Foto: Arquivo Pessoal)

Já Marcela Dantas, psicóloga e orientadora educacional do Instituto Ifba campus Vitória da Conquista, ressalta que, caso isso aconteça, não é preciso encarar como um ‘período jogado fora’. “Fazer uma escolha não significa ignorar completamente as opções que ficaram. Esses múltiplos interesses e conhecimentos podem ser o seu diferencial na profissão. Uma pessoa de Humanas que goste ou tenha conhecimentos de Exatas vai ser um destaque porque a maioria das pessoas naquele meio não vão ter esse perfil. Aí a pessoa vai poder encontrar algo que conecte as duas coisas, hoje estamos numa sociedade cada vez mais interdisciplinar”, coloca. 

A psicóloga e orientadora educacional Marcela Dantas diz que múltiplos interesses podem ser o diferencial (Foto: Acervo pessoal)

A aluna Natali Silva, de 19 anos, está em dúvida entre as áreas de Saúde e Humanas. Ela concluiu o Ensino Médio em 2019 e agora está cursando o pré-vestibular do Bernoulli de Salvador. Ela já sabe que quer uma faculdade pública porque é de Serrinha e os custos para se manter em outra cidade já pesam demais no orçamento da família, mas o curso ela ainda não decidiu. “Eu vou ver na hora do Sisu, a depender da minha nota, qual curso vai ser melhor. O mais importante é que eu entendi que a escolha não é para a vida toda, pode ser mudada depois”, conta.

“A gente tem que fazer uma escolha e testar porque pode ser que a gente erre, mas é só testando que a gente vai poder acertar. Eu acredito que temos que equilibrar o que nos deixa feliz com o retorno financeiro. Para mim, não adianta fazer um curso que eu ame mas não me dê retorno porque eu sei que existem contas para pagar. Mas também não adianta seguir uma profissão que pague muito bem, mas me deixe infeliz e insatisfeita com a minha rotina”, acrescenta Natali.

Ela diz ainda que, por muito tempo, não tinha ideia nem de com qual área se identificava mais e que essa descoberta já foi um grande passo. “Eu vi que uma hora eu ia ter que decidir e me inscrevi no programa de orientação do Bernoulli. Levei em consideração as matérias que eu gostava e também a pesquisa que fiz sobre o estilo de cada profissão, como é na prática. Não é porque eu gosto de Matemática, por exemplo, que eu vou me dar bem em Engenharia”. 

Dicas
O psicólogo clínico, orientador profissional e professor do curso de Psicologia da Faculdade Santa Casa, Luiz Lopes, destaca a importância de aprofundar as pesquisas sobre a profissão na hora da escolha. “Muitas vezes a gente tem uma ideia do senso comum da profissão, mas na prática é outra coisa; é importante também não ficar na fantasia idealizando demais uma profissão porque todas vão ter coisas positivas e negativas". 

O orientador profissional Luiz Lopes diz que o processo de escolha da profissão não é o mesmo para todos (Foto: Arquivo Pessoal)

Lopes lembra que esse processo de escolha não é o mesmo para todo mundo e que fatores externos precisam ser observados e analisados. “Essas pressões vão ser diferentes a depender da classe social à qual o sujeito pertence. Alunos de classes sociais mais baixas vão tender a cursos que deem mais retorno financeiro ou que deem esse retorno mais rapidamente. Nas classes mais abastadas, pode existir mais expectativa da família em dar continuidade a uma profissão de tradição na família ou uma expectativa do próprio sujeito em manter o padrão financeiro daquela rede social que ele tem”, diz. 

A psicóloga e orientadora educacional Marcela Dantas defende que não existe uma profissão ideal e dá dicas para encontrar as possibilidades. “Os alunos precisam ter em mente que não existe isso de que somos feitos para uma profissão só, não existe uma única vocação. É preciso entrar em contato com quais são os interesses, as habilidades do aluno, as competências, o que ele gosta de fazer no dia a dia e, a partir disso, identificar quais profissões têm mais chance de ele aplicar tudo isso de forma agradável. Tem aluno que diz que gosta de muita coisa e acha isso ruim porque fica difícil escolher, mas isso é bom”. 

E para aqueles que não conseguem identificar seus interesses, mais uma dica: “Muitas vezes o aluno fala ‘ah, mas eu não faço nada’. Aí eu pergunto o que ele faz quando não faz nada. Porque quando estamos passando o tempo no Instagram, por exemplo, estamos em contato com coisas específicas. Aí o aluno pode se perguntar quais são os interesses dele naquela rede social, que tipo de conteúdo ele gosta de ver, em que formato está esse conteúdo, por que aquilo interessa a ele. Pode parecer simples, mas isso já dá pistas para essa escolha do curso”, finaliza Marcela. 

Foi isso que Alana Ferreira, de 17 anos, fez. Ela está no 3º do Ensino Médio do Colégio Montessoriano e, desde o 1º, já sabe que quer Medicina. “Quando eu era criança, já dizia que eu ia ser médica, mas nada sério. Aí eu comecei a ver que me identificava mais na escola com as áreas de Ciências Biológicas e Exatas e passei a considerar de verdade. Me encantei por ajudar as pessoas, cuidar da saúde delas e comecei a pesquisar sobre a profissão. Nas minhas consultas eu perguntava aos médicos como é a rotina, como foi a época da faculdade, etc”, conta. 

Terapia
Ela diz que já teve algumas dúvidas, mas o acompanhamento de um psicólogo ajudou na decisão. “Hoje em dia parece que está na moda fazer medicina. Muita gente escolhe essa profissão pelo dinheiro também. E eu já me questionei sobre isso. Até porque meu pai sempre quis ser médico, mas fez vestibular e não passou. Aí há uns cinco anos, ele resgatou esse sonho e foi cursar. Então já me perguntei se eu fiz essa escolha por conta dele, mas, com a ajuda da terapia, vi que não era por isso e me senti mais segura”. 

Alana Ferreira está decidida a cursar Medicina desde o 1º ano (Foto: Arquivo Pessoal)

A psicóloga e orientadora educacional do Colégio Bernoulli, Maria Fernanda Baqueiro, não recomenda que essa escolha seja feita antes do 1º ano. “É preciso respeitar o processo e o tempo. Eu não indico que se comece a pensar sobre profissão antes do Ensino Médio porque primeiro é preciso se descobrir, se conhecer. Aí isso vai começar dentro de casa e depois vai para a escola. Não é preciso ter tanta pressa assim, mas o início do Ensino Médio é um bom período porque aí o aluno pode também direcionar melhor seus estudos se já souber qual curso quer e quais matérias ele vai demandar no Enem”, explica. 

Maria Fernanda ainda comenta sobre a importância, em alguns casos, do acompanhamento de um profissional durante o processo. “Quem está numa dúvida mais branda, se sentir que não dá conta sozinho, pode buscar uma terapia para lidar melhor com a ansiedade, as inseguranças e os medos. Já quem está mais indeciso, precisa de ajuda para escolher o curso, é indicado procurar um psicólogo que trabalhe com orientação vocacional. Mas vale lembrar que nenhum profissional vai dar a resposta mágica de qual curso o aluno deve fazer, o profissional vai proporcionar o caminho para que a decisão seja tomada pelo aluno”, defende. 

A orientadora educacional Maria Fernanda Baqueiro diz que não há fórmula mágica para a escolha do curso (Foto: Arquivo Pessoal)

O orientador profissional LuIz Lopes explica que essa indecisão dos alunos é fruto da constante transformação interna e externa. “Estamos sempre em transformação, então pode ser que hoje a gente pense de um jeito e, no futuro, de outro. E não podemos esquecer que o mundo também está em constante mudança, cada vez mais acelerada. É tudo muito rápido, é muita informação, uma hora temos certeza, outra hora não temos mais. Por isso que uma orientação profissional é necessária, para que o sujeito possa digerir tudo isso, se conhecer, conhecer seu processo. Sabendo as regras do jogo, temos muito mais chance de ganhar. Quem não pode contar com a ajuda de um profissional, pode buscar informação qualificada e selecionada sobre os cursos, o mercado de trabalho”, completa. 

O orientador ainda alerta para os cuidados com os testes vocacionais encontrados na internet. “Existem muitos deles, mas é preciso ter cuidado porque muitos não são certificados e feitos da forma correta. E isso pode acabar sendo usado como uma fuga do sujeito em terceirizar essa escolha. Assim como alguns escolhem o curso porque um familiar quis, outros podem escolher porque o teste vocacional indicou. Então a psicologia usa testes, sim, mas validados e aplicados com intermédio de um profissional que vai fazer a interpretação e análise dos resultados junto com o sujeito; é bastante diferente”. 

Informações do Enem 2021
Este ano, o exame será aplicado em dois fins de semana distintos: nos dias 21 e 28 de novembro, contando novamente com uma versão digital, mas que será aplicada no mesmo dia da prova impressa, ao contrário do que ocorreu no ano passado.

Os participantes que se inscreveram na segunda chamada do Enem, que ocorreu entre 14 a 26 de setembro, terão a data de aplicação diferente. Deste modo, quem se inscreveu nesse prazo vai realizar o exame em 9 e 16 de janeiro de 2022, juntamente com a edição do Enem para adultos privados de liberdade e jovens sob medida socioeducativa que inclua privação de liberdade (Enem PPL).

  • Primeiro dia - Em 21/11, o candidato responde a 90 questões objetivas, sendo 45 questões das disciplinas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e outras 45 questões das disciplinas de Ciências Humanas e suas Tecnologias, além da redação dissertativa-argumentativa. Os participantes devem chegar ao local da prova com antecedência, já que os portões abrem às 12 horas e fecham às 13h (horário de Brasília). A duração da prova é de 5 horas e 30 minutos - das 13 horas e 30 minutos às 19 horas. 
  • Segundo dia - Em 28/11, o candidato responde 90 questões de Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias, tendo cada uma das áreas 45 questões objetivas. 

Assim como no primeiro dia, os portões abrem às 12 horas e fecham às 13 horas (horário de Brasília). A duração da prova é de 5 horas - das 13 horas e 30 minutos às 18 horas e 30 minutos.

Os locais de prova já estão disponíveis no cartão de confirmação de inscrição, que pode ser consultado no site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), através da Página do Participante.  

Será obrigatório que os candidatos usem máscara durante a prova para reduzir o risco de contaminação por Covid-19. No edital, também há a determinação para o uso de álcool em gel na higienização das mãos. De acordo com o edital do exame, não seguir os protocolos de prevenção à covid-19 é considerado critério de eliminação.

Na editoria Revisão Enem do CORREIO, no link https://www.correio24horas.com.br/revisao/, você encontra matérias especiais, informações sobre o Enem e dicas de preparação, de realização da prova e de aplicação para o Sisu. 

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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