Velejador Aleixo Belov cria museu para preservar viagens pelo mundo

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19.06.2020, 05:00:00
Barco Três Marias já está no Santo Antônio Além do Carmo (Divulgação)

Velejador Aleixo Belov cria museu para preservar viagens pelo mundo

Barco que já deu três voltas no planeta ficará no Santo Antônio Além do Carmo

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Todo o legado de uma vida à disposição dos apaixonados pelo mar. Esse é o desejo de Aleixo Belov. Aos 77 anos, o velejador está construindo com investimento próprio um museu para expor as peças e conhecimento adquiridos durante cinco voltas ao mundo e tantas outras viagens. Há duas semanas, o barco Três Marias, com o qual completou sozinho três dessas voltas, foi colocado no casarão onde o museu funcionará, no Santo Antônio Além do Carmo. Um guindaste ergueu a embarcação de 7,5 toneladas e a alocou através de uma abertura feita no telhado. “Já está descansando”, comemorou Aleixo. 

Antes da pandemia de coronavírus, o também engenheiro e escritor já havia inaugurado no mesmo bairro a Fundação Aleixo Belov, que ficará responsável pela administração do museu e tem o objetivo de funcionar como um centro de estudos, pesquisa, fomento e discussão de temas ligados ao mar. 

Ucraniano radicado na Bahia, Aleixo mora em Salvador desde os seis anos de idade. Em entrevista ao CORREIO, ele falou sobre os novos projetos e revelou que está escrevendo o nono livro: “Minhas viagens com outros comandantes”. Confira o papo: 

O que te motivou a criar o Museu Aleixo Belov?
Em uma primeira fase, eu viajei sozinho para aprender. Numa segunda, viajei com um veleiro escola para ensinar. A terceira fase é a do museu. Cheguei à conclusão de que, se eu morresse, todo o meu acervo ficaria perdido. Estava com muito medo e quis fazer o museu para guardar todo o meu acervo. Se alguém um dia quiser aprender o que é preciso para fazer viagens como eu fiz, será muito mais fácil.


O que o público encontrará?
Vai ter exposição de todo o meu acervo, de todas as coisas que trouxe do exterior, as cartas náuticas, ensebadas, salgadas, riscadas, cronômetros, as coisas que usei para navegação, os principais livros. Eu levei 15 anos entre o dia em que resolvi que iria dar a volta ao mundo e o dia em que consegui sair para dar a volta ao mundo, porque não tinha ninguém que tivesse feito isso por aqui para que eu pudesse aprender. Eu tive que esculpir a minha obra na pedra bruta, aprender tudo sozinho. Consegui aprender e fazer as cinco voltas. Fora as viagens fantásticas. Então, hoje, vai ficar muito mais fácil. Todo esse aprendizado estará registrado, as fotos dos lugares, os documentos, as obras de artes que fui adquirindo, as pedras, os búzios, cartas náuticas e toda a minha biblioteca. Tudo vai ficar guardado nesse museu, que vai ter também uma cafeteria, porque todo mundo depois de visitar gosta de um cafezinho, um pedaço de bolo, uma cervejinha. Ali eu quero que se transforme na reunião dos amigos. Quando eu estiver velho e não conseguir fazer mais nada, vou ficar ali sentado esperando a morte chegar contando as mentiras para os amigos.


Já tem previsão de quando o museu será aberto?
A previsão é acabar a construção do museu no final de setembro. Depois tem que instalar. Existe um projeto inteiro e a coisa é enorme, não é simples. Quem fez o projeto foi a museóloga Heloísa Helena, só que ela fez um projeto grande e complicado, que vai custar uma fortuna. Pelo projeto dela, a instalação do museu vai custar mais do que a casa que comprei. Claro que não vou fazer tudo que ela sugeriu, só vou fazer o que for possível, ninguém vai gastar esse dinheiro todo, porque não precisa. O museu que estou construindo é cheio de ar condicionado, iluminação, elevadores, cafeteria, é tanta coisa, mas está me dando uma satisfação grande. Lamentavelmente com essa pandemia só estou indo na obra do museu uma vez por semana.

Acha que a fundação e o museu vão ajudar no desenvolvimento náutico da Bahia?
Vão ajudar com certeza no desenvolvimento náutico de volta ao mundo internacional, porque para ir daqui para Itaparica tomar cerveja e voltar todo mundo já sabe fazer. Não é isso que a gente vai ensinar, mas sim como sair daqui e correr o mundo todo, ir para a Antártida, para o Alaska, ver a grande barreira de corais da Austrália, ir para Indonésia ver as esculturas, para a Turquia, para a Grécia comer aquela comida maravilhosa, ir no Mar Negro, na Ucrânia, onde eu nasci, para os Estados Unidos, Caribe, Polinésia. É o mundo todo para visitar.


Pretende dar novas voltas ao mundo ou agora suas missões serão só em terra?
Estou me preparando para morrer. Não é que eu queira morrer agora, de jeito nenhum, mas todo mundo vai morrer, então quero morrer deixando todo o meu acervo organizado para as pessoas poderem aprender, para esse acervo não se perder. Se tiver saúde, vou viajar com certeza. Agora, se a saúde acabar... Estou com 77 anos e fora de validade, mas não tem problema. O que mais gosto é de viajar. Se eu conseguir montar o museu, ele estando rodando, aí quando menos esperar uma hora dessas eu desapareço.

Você escreveu oito livros. Está trabalhando em um novo?
Eu sentado em casa, agora com mais tempo, futucando minhas coisas para preparar para o museu, descobri oito cadernos de viagens que fiz, de quando tinha menos de 20 anos, outro de 27 anos, 30 anos, e eu estou escrevendo outro livro chamado “Minhas viagens com outros comandantes”. Fiz oito livros em que viajava num barco que eu mesmo construí e eu mesmo comandei. Agora, estou escrevendo um livro sobre viagens que eu fiz em outros barcos para aprender a velejar e a viajar. Às vezes chego a me emocionar ao ler esses diários e ver o que eu pensava, sonhava, raciocinava. Está tão interessante que já escrevi 41 mil palavras. Se não fosse a pandemia, eu nem sei se ele sairia. Estou produzindo muito e a pandemia está sendo bem aproveitada.

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