'Vi pessoas entrarem andando e saírem mortas': o dia que a Fonte Nova virou hospital

bahia
09.09.2021, 06:30:00
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

'Vi pessoas entrarem andando e saírem mortas': o dia que a Fonte Nova virou hospital

Leia depoimentos de quem esteve no Hospital de Campanha que será desativado no próximo dia 14

O Hospital de Campanha da Arena Fonte Nova será desativado no próximo dia 14. Para a maioria das pessoas, a notícia é sinônimo de alegria, de que a pandemia está indo embora. Mas, para os profissionais de saúde que trabalham no local, o sentimento é também de despedida. Eles vão deixar para trás uma família que criaram com os seis meses de convívio intenso e vão adicionar à memória, ao lado dos jogos de futebol e dos shows, lembranças de pacientes recebendo alta, felizes, mas também de momentos de muita tristeza. 

Acostumada a receber multidões, a Fonte Nova foi invadida, em junho de 2020, por medicamentos, equipamentos, leitos e pacientes. O hospital de campanha já iniciou as atividades com altas taxas de ocupação, mas até chegou a ter atividades interrompidas em outubro, por baixa demanda. Mas, devido à segunda onda, voltou a funcionar em março de 2021, dessa vez sob a gestão das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid). Agora, fecha as portas novamente por baixa ocupação, mas ainda não se sabe quando o estádio voltará a receber jogos, já que a Fonte Nova também tem sido usada como ponto de vacinação drive-thru. 

O local possui 200 leitos para adultos, sendo 100 de UTI e 100 de enfermaria. O atendimento foi encerrado no último dia seis e os quatro pacientes internados foram transferidos para outras unidades ou receberam alta. Os espaços estão sendo desmontados e o local será entregue até o dia 14. Foram 1.050 funcionários que atenderam 1.865 pacientes, sendo 1314 altas vidas salvas, cerca de 50 pacientes atendidos e transferidos e cerca de 500 óbitos. 

“Foi um desafio grande para a gente e a sensação que fica é de dever cumprido. Atendemos da melhor forma possível e salvamos as vidas que foram possíveis. Dentro de um cenário tão triste em sua essência, temos ainda assim a felicidade de poder ter contribuído positivamente”, diz o assessor corporativo da Osid, Sérgio Lopes.

Segundo Lopes, a maior dificuldade foi a formação da equipe antes do início do atendimento. “Foi um período de muita demanda por profissionais de saúde, então foi um desafio conseguir funcionários, principalmente médicos”, afirma. 

(Foto: Paula Fróes/CORREIO)
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Entre esses profissionais, está o técnico em enfermagem André Bramont, de 41 anos. Ele costumava frequentar o estádio acompanhado dos pais quando era pequeno. O pai era Vitória e a mãe, Bahia. Ele ficava no em cima do muro, dividido. Agora, já adulto, voltou ao local no time dos profissionais de saúde para vencer o jogo contra a covid-19. André conta que os seis meses no hospital de campanha foram de muito aprendizado. “Cada dia era uma coisa nova, não tinha aquilo de rotina e de tudo igual. Foram seis meses que valeram por muitos anos. Foi um desafio muito grande de lidar com uma doença desconhecida, então eu aprendi muita coisa”, diz. 

André acordava às 5h para ir ao trabalho e só voltava para casa por volta das 20h. No hospital, cuidava do “amor de alguém”, expressão que ele mesmo usa para se referir aos pacientes. Em casa, cuidava dos seus próprios amores. Todos os dias, os esperavam: a esposa Sueni, o filho mais velho, Mateus, de 13 anos, Davi, de 7, Daniel, de 3 e a caçula, ainda na barriga, a Elisa, de seis meses. 

“É um desafio conciliar esses dois mundos. Eles sentiam a minha falta, eu chegava do trabalho cansado e ia dar atenção a eles. E a gente tem que somar isso com o medo de trazer a doença do trabalho para dentro de casa. Eu chegava direto para o banho, limpava tudo, tinha todo o cuidado, para só depois poder chegar perto deles”, conta o técnico em enfermagem.

Ele viu amigos se contaminarem e também a própria esposa, que chegou a ficar internada por 14 dias. Mas o tratamento que dava aos seus pacientes não era diferente do que daria a um ente querido. Ele conta que levava os que tinham condições para tomar sol e ver o estádio. “Muitos nunca tinham tido a oportunidade de ver por dentro, eles adoravam!”, diz.

Mas uma paciente em especial marcou sua trajetória no hospital. “Eu ficava do lado dela dando forças e incentivando, dizia sempre que ela tinha uma filha e que precisava ficar boa para voltar para ela. Teve um dia que eu cheguei e ela não estava lá, fui perguntar, apreensivo, mas descobri que ela tinha tido alta. Foi a maior alegria!”, conta ele.

“Ela conseguiu meu número e me mandou um áudio, emocionada. Agradeceu por eu ter ajudado ela a vencer essa batalha, disse que a filha estava do lado dela agradecendo também. Foi uma sensação incrível, essa gratidão é boa demais e não tem preço”, acrescenta.

André Bramont, 41 anos, técnico em enfermagem (Foto: Arquivo Pessoal)

Companheirismo

A doutora em enfermagem Tássia Macedo, de 35 anos, teve a oportunidade de coordenar a enfermaria, mas também de criar uma segunda família. “Foi muito bonito ver os laços que a gente criou com os profissionais e com os pacientes também. Quem é internado com covid não pode receber visita de familiares, então eles ficam o tempo todo com a gente, a enfermagem fica à beira leito 24 horas, então esse contato é muito grande e muito importante”, conta.

O hospital de campanha recebeu diversos profissionais que nunca tinham tido a oportunidade de trabalhar em um ambiente hospitalar, então o papel dos coordenadores foi fundamental na equipe. “O primeiro mês foi de trabalho dobrado para capacitar a equipe, orientar e ensinar. Eu tive até a iniciativa de criar um grupo e compartilhar áudios com orientações. Era um podcast semanal que a equipe recebeu de forma muito positiva”, diz Tássia.

“Na primeira semana, uma técnica de enfermagem me perguntou como funcionava uma bomba de fusão, que para ela era muito difícil. Eu ensinei e, depois de um tempo, ela veio me dizer: ‘Dona Tássia, hoje eu estou ensinando aos meus colegas o que eu aprendi com você’. Eu fico muito feliz de ter ensinado e ver que esses ensinamentos foram disseminados”, relata.

Tássia Macedo, de 35 anos, enfermeira e coordenadora a equipe de enfermagem do hospital (Foto: Arquivo Pessoal)

A alegria de ensinar também aparecia na hora da alta de um paciente. Um deles, de 28 anos, foi o último a sair do hospital e passou 120 dias internado, em estado grave. Ao sair, uma homenagem da equipe. “Todo mundo foi para o que a gente chama de corredor do amor, teve balão, teve cartaz, foi um momento de muita felicidade”, diz. 

No outro extremo, um paciente de 20 anos em estado grave sofreu uma parada cardíaca. “A equipe inteira se mobilizou, todo mundo em volta do leito. Quando esse paciente não voltou, foi como se tivessem tirado da gente um parente. Todo mundo chorou e se abraçou, foi muito difícil de ver”, desabafa. 

Desafios

O médico Rubens Oliveira, de 49 anos, foi coordenador das UTIs do hospital de campanha e diz que um dos maiores desafios é lidar com o emocional dos pacientes. “Já dei alta a uma paciente me questionando se era a hora certa porque vi que ela precisava ir para casa por questões psicológicas. Ser médico numa pandemia é aprender que as coisas vão fugir do controle e que nem tudo vai ser como a gente planeja”, confessa. 

Rubens Oliveira, de 49 anos, médico e coordenador das UTIs do hospital (Foto: Arquivo Pessoal)

“Outra paciente que precisou ser intubada e tivemos muita dificuldade para extubar pelo medo e ansiedade dela. Ela não queria deixar a gente tirar o tubo. Tivemos que conversar com ela, explicar tudo, insistir. Aí conseguimos. Depois, quando ela se recuperou um pouco, ela fez um gesto para a gente se aproximar do leito. Com a voz bem fraca e baixa, disse: ‘Obrigada por acreditar em mim’. Eu achava que já estava preparado para tudo, que não veria mais nada que me emocionasse no ambiente de trabalho. A covid provou que eu ainda tinha muita lágrima para derramar no hospital”, diz Oliveira.

O CORREIO procurou a Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) e a Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS) para saber se há previsão de desativação de outros hospitais de campanha, além do número total desse tipo de unidade de saúde existente atualmente em Salvador e em todo o estado, mas não obteve resposta.

Veja o relato pessoal da técnica em enfermagem Ísis Braz, de 36 anos

Há 16 anos, eu cuido da vida dos outros, literalmente. Mas nunca vivi nada parecido com o que a pandemia trouxe. A covid-19 tirou de mim a minha tia, no início de 2021, e também outros parentes e amigos. Eu mesma já tive covid duas vezes. Da primeira vez, não tive sintomas. Da segunda, tive todos eles juntos e misturados. Deu tudo certo, me recuperei, mas ainda tive que enfrentar os desafios do pós-covid. Eu tive uma queda brusca de cabelo, precisei cortar ele todo porque caía muito. Isso mexeu muito com a minha auto estima, não me sentia mais tão bonita.

Eu não tive vida social durante todo esse tempo. Era do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Primeiro porque eu não tinha disposição nenhuma para vida social, segundo porque eu não achava certo me reunir com pessoas e terceiro porque ninguém queria estar comigo por eu ser profissional de saúde. Eu moro sozinha e minha vida de repente se resumiu ao trabalho. Até a minha família se reunia e não me chamava. Eu me sentia como uma fonte ambulante de covid e isso é muito ruim. Eu sou muito emotiva, eu gosto de beijar e abraçar, de falar tocando. Ficar esse tempo todo sem isso foi muito doloroso. 

Ísis Braz, de 36 anos, técnica em enfermagem (Foto: Arquivo Pessoal)

Eu nunca tinha vivido algo parecido na profissão e senti vontade de desistir. Vi pessoas chegarem na iminência de morte darem a volta por cima e receberem alta, como se nascessem de novo. Mas vi pessoas entrarem no hospital andando e saírem de lá mortas, não importa a idade. A covid é uma doença nova e que faz a gente se sentir muito impotente. Os conhecimentos que a gente tinha não eram suficientes, e chegava um ponto em que não havia mais nada. Eu não estava sozinha, a equipe toda estava no mesmo barco e eu posso dizer com toda certeza que todo mundo deu o seu melhor. Mas nem sempre o melhor e o possível eram suficientes. Aí era aceitar e sofrer. Precisei buscar acompanhamento psicológico, eu não estava bem. Todo dia tinha um óbito, não tem como ficar bem convivendo com isso. 

Muitos de nós já trabalhamos com algum conhecido. Eu tive essa oportunidade durante a pandemia. Tinha atendido uma criança em uma unidade de pediatria anos atrás e acabei criando um vínculo com ela. Este ano, a ambulância da regulação chegou trazendo uma paciente de 23 anos intubada, em estado grave. Foi um momento de alerta, mobilizou muitos profissionais da Arena. Eu fui lá ajudar também e, quando olhei para o rosto dela, reconheci na hora. Era a criança que eu tinha atendido no outro hospital. Eu fiquei arrasada de ver ela naquelas condições. Encerrei o meu plantão e, na manhã seguinte, recebi a notícia de que ela tinha morrido. 

A Arena para mim era sinônimo de diversão e prazer. Aquele espaço, durante muito tempo, só me trouxe alegria. Todos os gritos e lágrimas que eu ouvia e via ali, seja nos jogos ou nos shows, eram de euforia. Eu colecionava momentos bons ali e, de repente, passei a trabalhar naquele local e os gritos e as lágrimas passaram a ser de dor e de tristeza. Isso me emociona até hoje. 


*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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